SAÚDE E BEM ESTAR

Beleza a qualquer custo: os excessos e riscos da explosão do uso do ácido hialurônico

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O ácido hialurônico virou febre global na estética, rejuvenescendo e preenchendo. Mas seu uso indiscriminado e por profissionais sem qualificação expõe pacientes a riscos sérios, de resultados artificiais a complicações graves. Descubra os perigos por trás da popularização e como usar a substância com segurança para evitar problemas.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Preencher, estruturar, rejuvenescer. Esses são três dos verbos mais conjugados quando se trata de uma substância que tem dominado o universo da dermatologia e cosmética. O ácido hialurônico está no rosto do povo, estrelando a harmonização facial, e virou fenômeno até no Carnaval, empinando o bumbum das passistas e celebridades. A demanda não se restringe ao Brasil. Trata-se de fenômeno global: pelos cálculos da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, mais de 5 milhões de procedimentos são realizados anualmente — isso nas contas oficiais — e o aumento na procura chega ao patamar de 30% ao ano. É um espanto. Propagado por anônimas e influenciadoras nas redes sociais, o ativo conquistou lugar cativo entre os médicos da área, mas desperta preocupação pelas indicações e aplicações equivocadas país afora.
O trunfo do ácido hialurônico se explica por uma característica-chave: ele já está presente naturalmente no organismo. A molécula tem alta capacidade de reter água, ajudando a manter a hidratação e a sustentação da pele — funções que se perdem gradualmente com o envelhecimento. Em sua versão sintética, é altamente versátil. Pode ser reposto por meio de injeções que suavizam linhas de expressão no rosto (como o “bigode chinês”) e preenchem lábios e olheiras. Mas também dar as caras em cremes e séruns com ação antienvelhecimento. “A ideia, nesse caso, é melhorar a hidratação e estimular a produção de ácido do próprio corpo”, diz a médica Lilia Guadanhim, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Esse status polivalente é o que deve fazer o mercado mundial de ácido hialurônico dobrar de valor até 2028, atingindo a marca de 26 bilhões de reais.

BUMBUM HARMONIZADO – No Carnaval: faltam pesquisas mais robustas sobre o procedimento (@gessica/Instagram)

O maior acesso aos produtos e injeções tem lustrado a autoestima de mulheres e homens. Deu-se a popularização do ácido acompanhado de um uso indiscriminado e potencialmente perigoso. Aplicações em doses e lugares inadequados e a utilização por profissionais sem credenciais expõem pacientes a inúmeros riscos. O resultado desse movimento se vê nos consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos, hoje repletos de pessoas buscando corrigir excessos e falhas de procedimentos anteriores. “Não são raros os casos em que lábios e bochechas ficam com um aspecto artificial e desproporcional”, afirma a dermatologista Alessandra Romiti, do Departamento de Cosmiatria da SBD. Na maioria das vezes, o problema está ligado à escolha ou à qualidade do preenchedor ou a erros durante a administração, bem como ao abuso nas intervenções — efeito alimentado pelas redes sociais. Nesse cenário, multiplicam-se, ainda, profissionais formados em cursos de fim de semana, produtos adulterados e a oferta de alternativas com efeitos permanentes, como o PMMA, que é proibido, porém vendido como se fosse ácido hialurônico. “O que se vê é um problema de saúde pública”, avalia Guadanhim.

O alerta ganha outros contornos quando sai da esfera do rosto e passa para o corpo. O ácido hialurônico tem sido procurado como “harmonizador glúteo” pelo seu potencial de levantar a região das nádegas. O problema é que não há produtos com esse ativo aprovados no país para uso corporal. “Os produtos são estudados e indicados essencialmente para a face”, diz Guadanhim. Uma das principais preocupações nesses casos é o volume empregado. Enquanto protocolos para o rosto costumam recorrer a poucos mililitros do ácido por sessão, em intervenções para os glúteos as doses partem de 30 mililitros para cada lado. “Não temos ainda pesquisas robustas sobre a segurança no longo prazo com essas quantidades”, afirma a dermatologista.

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INGREDIENTE EM ALTA – O ativo em cremes e séruns: promessa de pele vistosa (Iryna Veklich/Getty Images)

Para tirar o devido proveito da substância e não ficar refém das complicações que se veem por aí — incluindo episódios de necrose da pele e cegueira devido à aplicação incorreta —, o roteiro passa inevitavelmente por uma boa consulta médica primeiro. E, aí, a ética e o conhecimento técnico fazem toda a diferença. “É comum ver pacientes achando que precisam repetir o procedimento todos os anos. Se o profissional não souber dizer ‘não’ e investigar as causas do envelhecimento na pele, corre o risco de alterar a anatomia e abrir caminho a problemas”, diz Guadanhim. Até porque o ácido hialurônico não é o único ingrediente disponível para restaurar o viço e a beleza. É com planejamento e bom senso que se pode conjugar o lado mais valioso e estudado do queridinho da estética.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984

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