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Canto V: O Mar Interior e a Contra-Narrativa Atlântica

Cinco séculos volvidos sobre o nascimento de Luís Vaz de Camões, regressamos ao coração d’Os Lusíadas, o Canto V, com o exercício de reinterpretação que traz consigo a exortação a um artista contemporâneo cabo-verdiano a reilustrar o mito fundacional da viagem: Yuran Henrique.Se em Camões o Canto V representa o ponto de viragem – o momento em que Vasco da Gama, diante do rei de Melinde, refaz o percurso da viagem e da memória, tecendo a narrativa que se tornaria a história de uma nação –, para Yuran Henrique esse mesmo canto converte-se num mapa inverso, um regresso ao arquipélago interior das vozes silenciadas.O artista, cuja prática habita a intersecção entre a pintura, a oralidade e uma designável iconografia do coletivo, apresenta Cabo Verde como um espaço-limite, nascido da turbulência inicial da expansão marítima: um ponto de contacto e fricção entre mundos, mas também um lugar de gestação de novos imaginários. “Falar de Cabo Verde”, afirma, “é falar desse contexto que se estava a gerar nesse momento”. É falar de dentro da história, mas a partir do seu reverso – daquilo que ficou por narrar.Na composição plástica que oferece, confessa reencontrar-se com a sua “essência de ilustrador”, num gesto condicionado, mas igualmente inspirado, pelo próprio sustentáculo que é o livro. O fascículo é entendido como território de passagem, o papel como derme onde o mito se reinscreve. O diálogo com Camões não é de submissão, mas de tensão criadora e fecunda. Yuran Henrique trabalha com metáforas – atributos, plantas, animais e mares – que falam “de um tempo antigo a que ainda conseguimos aceder”. Um traço que não procura o literal, mas o alegórico – uma linguagem que, à semelhança da tradição oral africana, não separa o visível do invisível, o histórico do espiritual.A ilustração converte-se num exercício de cura e de ativação de uma dimensão afetiva e espiritual que atravessa a obra, articulando-se com uma iconografia que não assenta nas grandes narrativas hegemónicas, mas nas crónicas autóctones e no saber próprio de uma cultura que resiste ao esquecimento.Yuran Henrique propõe uma leitura decolonial da epopeia: um mergulho na memória coletiva do corpo atlântico. Uma viagem que não é apenas exterior, mas uma intersecção do próprio sujeito, das suas raízes e das suas sombras.“Vivo aqui, com os paradigmas daqui” – afirma, aludindo a Cabo Verde. E a expressão, de uma simplicidade contundente, resume o alcance do seu gesto: recusar o olhar distante, reescrever a história a partir do lugar onde se está e das suas idiossincrasias.Na arquitetura do poema camoniano, o Canto V colmata a lacuna da narrativa in medias res, elucidando o percurso e o sentido da viagem. Na arquitetura da obra de Yuran Henrique, esse mesmo canto reabre a lacuna: devolve-nos o vazio como possibilidade de novo sentido, o Atlântico como espaço de pensamento e não apenas de travessia, e um convite a reler o mito sob o signo da escuta, da restituição e da cura.

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