O Rio em luto: quando o espetáculo substitui a política
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O Rio de Janeiro amanheceu mais triste nesta quarta-feira, 29 de outubro, e, diferentemente do que pode pensar o governador Cláudio Castro, não amanheceu mais seguro. São 132 mortos confirmados na operação mais letal da história da cidade. Nas imagens que tomaram os noticiários, moradores do Complexo da Penha carregam corpos, muitas vezes de familiares, em lençóis e carrinhos de mão. Uma cena de guerra em plena capital fluminense, travada contra os mais pobres, televisionada como se fosse um feito.O que vimos foi espetacularização da violência e, o pior: em busca de aplausos. Cláudio Castro tenta transformar dor em palanque, sangue em discurso e medo em capital político. O “combate ao crime” virou show pirotécnico, com helicópteros, blindados e entrevistas coletivas. Enquanto isso, o governador e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, protagonizaram um pingue-pongue de culpas, transformando uma tragédia humana em disputa de narrativa.Se o problema da segurança pública se resolvesse com helicópteros, fuzis e conferências de imprensa, o Rio seria Zurique ou Genebra. Mas o mesmo Estado que entra com fuzis em comunidades é o que abandona escolas, unidades de saúde e políticas sociais e sucateia a inteligência policial. O resultado é previsível: o tráfico se organiza, a milícia se expande e o morro sangra — de novo.É importante lembrar que a favela é parte vital da economia brasileira. Ela movimenta bilhões em consumo, serviços e trabalho. Dados do Instituto Locomotiva mostram que o consumo nas favelas brasileiras movimenta mais de R$ 180 bilhões por ano, sustentando cadeias produtivas que vão do varejo à indústria. Lá vivem trabalhadores, mães, estudantes, empreendedores — e não apenas criminosos, como parece acreditar parte da elite política. A favela é feita de gente, e as pessoas têm direito à vida, à segurança e à dignidade, assim como todos as pessoas no mundo.Quando o Estado trata a favela como inimiga, nega humanidade a quem mais precisa dela. Estudos da Fiocruz e do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostram que moradores de áreas de conflito vivem sob níveis de estresse comparáveis aos de zonas de guerra e que crianças e adultos sofrem com traumas profundos — ansiedade, insônia, depressão, medo constante. No entanto, no dia seguinte, essas mesmas pessoas precisam sair de casa, engolir o trauma e seguir para o trabalho com um sorriso no rosto, porque a vida não lhes dá o luxo de parar.Enquanto o governador celebra “resultados”, o crime organizado se sofistica. O Comando Vermelho investe milhões em armamentos e munições — R$ 5 milhões em apenas um mês, segundo uma planilha apreendida do traficante Luiz Carlos Bandeira Rodrigues.Esses armamentos vêm de todo o mundo. Muitos chegam até pelos correios, mas a favela é o topo visível do iceberg. A atividade criminosa real acontece nos escritórios, nas transações financeiras e nas alianças entre poder econômico e político. Operações como a Carbono Oculto, que apreendeu R$ 50 bilhões do crime organizado sem disparar um tiro, mostram que é possível agir com inteligência, sem transformar o Estado em um espelho do próprio inimigo que combate.Mas inteligência não rende manchete. O que dá voto é o espetáculo. Enquanto o Congresso se ocupa com anistias e PECs da blindagem, o PL das Facções, que permitiria confiscar bens e monitorar redes criminosas segue esquecido.O Rio precisa de plano, não de performance. De estratégia, não de show. O tráfico e a milícia não serão derrotados com caveirões, mas com coordenação entre os três poderes, investigação financeira profunda, políticas sociais estruturadas e, sobretudo, respeito aos direitos humanos.Hoje, o Rio de Janeiro é um retrato cruel do Brasil: uma política de segurança que mata para provar força, mas fracassa em entregar paz. E, enquanto o governador transforma cadáveres em campanha, o povo das favelas segue enterrando seus mortos — e, no dia seguinte, acorda cedo, pega o ônibus e tenta, mais uma vez, sobreviver.
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