Al-Sharaa visita Washington e quer seguir para Pequim e América Latina
Depois de ter estado esta semana na Cimeira de Líderes da COP30, em Belém do Pará, Brasil, com diversos chefes de Estado e de governo para preparar politicamente a conferência climática da ONU e lembrar mais uma vez que a Síria já não é a pária da era Assad, o Presidente Al-Sharaa chegou este domingo a Washington, onde manterá na segunda-feira uma reunião com Donald Trump.É a primeira visita de um líder sírio à Casa Branca, praticamente em cima do primeiro aniversário do derrube do ditador, a 8 de Dezembro de 2024, pelo grupo islamista Hayat Tahrir Al-Sham (HTS) comandado por Ahmed al-Sharaa, que era o braço oficial da Al-Qaeda na Síria até cortar ligações, em 2016.Al-Sharaa, que esteve preso durante cinco anos no Campo Bucca, o centro de detenção militar dos Estados Unidos no Sul do Iraque, derrubou o regime de Basshar al-Assad e tornou-se o líder de transição da Síria, recolhendo o apoio dos Estados do Golfo, da Turquia e do Presidente Donald Trump, que se encontrou com ele em Riad, em Maio.Na quinta-feira, o Conselho de Segurança das Nações Unidas levantou as sanções contra o Presidente sírio, e a resolução, redigida pelos Estados Unidos, retirou também as sanções ao ministro do Interior sírio, Anas Khattab.O texto recebeu 14 votos a favor, com a China a abster-se, e antecede o encontro na Casa Branca, confirmado oficialmente pela secretária de imprensa de Trump, Karoline Leavitt, no final de Outubro.Logo de seguida, foi a vez de o enviado especial de Donald Trump para a Síria, Tom Barrack, explicar em entrevista ao site Axios que o encontro histórico servirá para formalizar a adesão da Síria à coligação internacional liderada pelos EUA contra o Daesh (o autoproclamado Estado Islâmico).Apesar de ter sido derrotado militarmente em 2019, alguns insurgentes têm conseguido reagrupar-se e explorar o vazio de poder em regiões do Nordeste e Leste, nomeadamente na região desértica entre Homs e Deir ez-Zor, até à fronteira com o Iraque, com ataques contra as forças curdas, tropas sírias e civis.Barrack disse também ao Axios que, depois desta visita a Washington (nos dias 10 e 11 de Novembro), deverá ocorrer uma quinta ronda de negociações directas entre Israel e a Síria, mediada pelos Estados Unidos.As relações com Israel continuam a ser um tema delicado – o país não só bombardeou Damasco no Verão, durante a crise na província síria de Al-Suwaidaa, em que morreram centenas de civis nos confrontos entre as forças militares e combatentes islamistas de um lado e guerrilheiros drusos, de outro, como continua a realizar incursões regulares em território sírio.Do lado sírio, a mensagem é que esta “visita histórica” de Al-Sharaa a Washington “representa um avanço importante para inaugurar uma nova fase nas relações entre os dois países, com o objectivo de aliviar o sofrimento do povo sírio”.Numa entrevista esta semana à Al Arabiya TV, emissora da Arábia Saudita, o assessor de Al-Sharaa para a comunicação social, Ahmad Zaidan, explicou que a visita à Casa Branca faz parte do processo de abertura diplomática da Síria.Citado pela agência noticiosa síria, a Sana, Zaidan revelou que a nova abordagem ao exterior baseia-se no “respeito mútuo e nos interesses comuns nas suas relações com outros países, buscando promover a estabilidade e a segurança interna e regional, sem se juntar a nenhum bloco ou aliança”.Al-Sharaa, que visitou o Kremlin em Outubro (onde deverá ter insistido com Putin para que extradite Bashar al-Assad e a família, embora nenhuma das partes tenha feito qualquer comentário sobre o tema, aquando da visita), já tem outros destinos na agenda. Segundo Zaidan, as próximas visitas do Presidente incluirão a China e a América Latina.O próprio Al-Sharaa, em entrevista à Al-Sharq TV (com sede na Turquia), à margem da COP30, afirmou que “o antigo regime privou tanto a Síria do mundo como o mundo da Síria nos últimos 60 anos” e que “o nascimento de uma nova Síria” significa que “o país começou a recuperar o seu papel regional e global”.Na Síria, e não só, ainda há quem olhe para este ex-jihadista como um lobo com pele de cordeiro, mas os Estados Unidos parecem ter apostado todas as fichas neste novo protagonista árabe.Para Trump, Ahmed al-Sharaa é “um tipo duro” e “um lutador” com “um passado muito forte”. “É um verdadeiro líder” com uma “oportunidade real de manter tudo sob controlo”.Ahmed Al-Sharaa, que disse à Al-Sharq TV que as discussões com os Estados Unidos “exigem uma análise cuidadosa”, destacou que “é do interesse de muitos países manter relações estratégicas com a Síria”.Nas Nações Unidas, já foi dado um “passo positivo”. “Pela primeira vez em muito tempo, o Conselho [de Segurança] acordou unanimemente sobre alguma coisa – felizmente, foi sobre a Síria”, afirmou Al-Sharaa, citado pela agência Sana.










