CIÊNCIA

“É muito triste falar de chacinas de jovens negros da periferia”, afirma MC Marechal

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O sorriso escancarado logo se fecha quando MC Marechal, 45 anos, um dos principais cantores de rap e hip-hop do Brasil, é confrontado com as estatísticas de violência nas periferias do país. Ele, que muitas vezes, canta a violência para combatê-la, não se conforma com o fato de mais de 80% das mortes violentas no Brasil serem de jovens negros, como mostra o Fórum de Segurança Pública. “É muito triste falar de chacinas de jovens negros da periferia”, diz. “Eu não queria estar toda hora sabendo disso. Mas, infelizmente, eu sei.”Marechal, que nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, ressalta que essas mortes não são de hoje. “Essas chacinas sempre existiram”, afirma. Para ele, seria mais fácil escrever suas letras, nas quais os jovens negros periféricos fossem os protagonistas de um futuro promissor. Mas a realidade se impõe. “Temos muitos cotidianos violentos. E, dentro da realidade, a gente traduz também a violência. Muitas vezes, foi falando que a gente saiu da violência. Às vezes, contando uma história; às vezes, coisas que vivemos e que não queremos viver mais”, acrescenta.O rapper se incomoda, porém, quando o trabalho dele e de outros artistas da periferia ganham destaque demasiado porque o tema abordado é a violência. “Sinto que muitas pessoas de fora [das regiões mais desfavorecidas] dão mais destaque para quando a gente fala sobre violência. Só que não é a maioria das vezes que a gente fala sobre violência”, enfatiza. Incômodo à parte, ele reconhece que suas canções são uma forma de denunciar injustiças. “”Quando a gente fala, muitas vezes é, ao mesmo tempo, uma busca, um alerta, uma reflexão”, emenda. “O hip-hop é uma música, uma cultura. Significa se manter alerta”.


Esse alerta não pode ser visto, na avaliação de Marechal, como um incitamento à violência. E questiona: “O que foi incitado para falarmos sobre isso ou para vivermos isso?”. Ele vê essa postura como uma espécie de discriminação. “O problema é a pessoa não pensar antes que o que a gente faz é arte. A arte chegou também (nas periferias), não só a violência”, frisa o cantor e compositor, que participou, no sábado, 29 de novembro, da segunda edição da Feira Literária Internacional da Paraíba (FliParaíba), em João Pessoa.Sonhar está caroMarechal acredita que o fato de participar de um evento literário é um avanço. “Isso não é natural, esse evento não é na periferia”, diz. Para o MC, cabe ao Estado, “o mesmo que patrocina uma polícia violenta”, levar a literatura aonde o povo está. De nada adianta, segundo ele, as pessoas da periferia verem nas redes sociais que vai acontecer uma feira literária onde elas vivem se não houve um amplo programa de educação. “Elas vão ficar se perguntando o que é um festival literário. O que vai acontecer? Vão chegar lá e ficar jogando livros para cima?”, indaga.Ante essa realidade, o rapper destaca que é preciso promover mais a cultura da literatura nas regiões menos favorecidas. “Isso, para quando tiver um festival literário, a pessoa pense: que maneiro, vou lá. Porque a cultura da música é difundida, assim como a cultura do futebol. Então, provavelmente vai ter mais gente assistindo a um jogo de futebol do que lendo um livro”, comenta. “Onde a educação não está tão presente, a violência é maior”, constata.O artista afirma que tem procurado fazer a parte dele para evitar que jovens negros periféricos percam a vida para a violência. Contudo, não quer servir de referência de sucesso para ninguém. Na noite anterior à participação dele na FliParaíba, esteve em uma favela cantando para 300 pessoas na rua, falando com as crianças ali presentes. “Eu perguntava: E aí, cara, está estudando? Procuro dar a real, porque, no Brasil, é muito difícil [sair da pobreza]. Não é porque estou ali cantando que é possível. Eu sou uma exceção. Eu sou extraordinário”, assinala.


Ele, que está no rap desde os 13 anos de idade, vai além: “É muito difícil estar no lugar em que eu estava conseguir suportar os sacrifícios que suportei. Por isso, não dou o discurso de vai lá, que é possível. É quase impossível. Se não resistir, vai ser horrível, porque não tem nada que incentive. Então, eu falo: “Vai estudar, não é pelo rap que é possível. Eu não sou a favor do ‘acredite nos seus sonhos’. Eu digo: irmão, se liga na realidade, porque sonhar está caro”.Peso da ignorânciaNo entender de Marechal, há, hoje, uma “propaganda equivocada” de que, para ser um bom rapper, um cantor de hip-hop de sucesso, é preciso ser ignorante, abusado, subversivo. “Minha formação no rap foi com Racionais, Gabriel Pensador, Sistema Negro. Um dos pré-requisitos para você fazer rap era estudar, ter uma boa educação. Hoje, vendem o discurso de uma rebeldia meio falsa, do tipo de que não se está nem aí para nada. Mas, se você não está nem aí para nada, você é um ignorante”, complementa.O rapper também vê com descrédito o discurso daqueles que criticam a linguagem usada nas periferias do Brasil, como se ela fosse um desvio da língua portuguesa. “Para mim, pode ser um desvio da pessoa que vê, porque é o nosso natural, e eu acho tão interessante ser natural. E ainda bem que há coisas sendo desviadas e que precisam se desviar mais ainda. Se começarmos pela linguagem, talvez consigamos ter mais voz dentro desse lugar que é desviado”, diz.Na visão do artista, a linguagem falada nas periferias pode ser mais forte para as pessoas que a entenderem, e ser definida como um desvio por pessoas que não a entendem. “Tudo depende muito do que a pessoa quer entender. Ela deveria prestar menos atenção no jeito que a gente fala, e mais no que a gente fala. Há pessoas que fingem que não está entendendo para justamente lhe discriminar por isso”, sublinha.O repórter viajou a convite da Feira Literária Internacional da Paraíba.
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