DESPORTO

Vou te contar um segredo

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Responda com “sim” ou “não” às seguintes perguntas: Você é a favor de ensino público gratuito de qualidade? Concorda com a oferta pelo governo de serviços de saúde gratuitos e bons? Acredita que devem existir subsídios de moradia para as pessoas mais necessitadas? Gosta da ideia de direitos para os trabalhadores? Acha que o Bolsa Família ajuda os mais pobres? Pensa que a diminuição da desigualdade social entre as pessoas é uma coisa boa?Se você respondeu “sim” a todas essas perguntas, ou à maioria, e se acha que a sociedade precisa ser mais igualitária, com menos pessoas riquíssimas e outras na extrema pobreza, vou te contar um segredo: você é de esquerda.Se você acreditava que era de direita, não precisa ficar chocada. É tanta falação sobre esse assunto, tanta conversa sem sentido, que fica muito fácil a gente se confundir. Vamos pegar o comunismo como exemplo, já que é uma ideologia de esquerda que causa pânico em muita gente. O comunismo, bem resumidamente, é uma ideologia autoritária que prega a total intervenção do estado tanto na organização social quanto na economia. Apesar das várias publicações nas redes sociais jurando que, entre outros, o Brasil está prestes a virar um país comunista com o atual governo no poder, esse é um regime praticamente extinto.Existem apenas cinco países comunistas no mundo todo. China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte. Todos são ditaduras, em geral com partido único. Mesmo esses, tirando a Coreia do Norte, adotam uma economia que, apesar de controlada pelo governo, é relativamente aberta à iniciativa privada. Outros, como a Venezuela, nem podem ser considerados comunistas porque supostamente têm eleições livres.Ou seja, o fantasma do comunismo, mesmo que ainda existam partidos que, sem grande sucesso, pregam essa ideologia em alguns países, como em Portugal, muito provavelmente se tornou só isso mesmo, um fantasma. Ok, o comunismo está meio que fora do jogo, mas por que então tanta gente fala da esquerda como se fosse o capeta?Vamos lá: primeiro, fui buscar na História informações para entender de onde vieram esses conceitos de direita e esquerda. Na política, começaram a ser usados por volta de 1789, na revolução francesa, quando os deputados que eram a favor da monarquia sentavam-se à direita no parlamento e os que lutavam pela república tomavam assento à esquerda. Claro que nesses mais de 200 anos as ideologias se ampliaram para abarcar, além de questões políticas, temas econômicos, sociais e até mesmo ambientais. E que os conceitos de esquerda e direita se subdividiram em várias correntes, como a social-democracia, mais à esquerda, e o liberalismo econômico, mais à direita.Quem definiu bem esses dois campos foi Norberto Bobbio, filósofo italiano que morreu em 2004. Ele dizia que a diferença fundamental entre esquerda e direita está no modo diverso de conceber a igualdade. Para a esquerda, as desigualdades sociais devem ser combatidas pelo Estado e pela sociedade, com políticas públicas e de redistribuição de renda. Já para a direita, o objetivo mais importante de um país é a prosperidade. São as diferenças individuais entre as pessoas – como mérito e esforço – que as levam a assumir posições diferentes na sociedade, e a intervenção do estado deve ser mínima.Generalizando bastante, no campo da esquerda, o estado tende a ter um papel mais ativo, com estabelecimento de regras e impostos que ajudam na redistribuição de renda e na implementação de programas sociais. Já a direita defende um estado menos interventor, o livre mercado, o empreendedorismo e a meritocracia. Hoje, a maioria dos governos democráticos, tanto à esquerda quanto à direita, funciona com uma mescla dessas políticas públicas.Ao longo do tempo, a direita ficou mais identificada com o conservadorismo e a defesa das tradições. Já a esquerda abraçou as políticas progressistas. As questões culturais, o feminismo, a luta contra o racismo, a proteção de direitos de pessoas LGBTQIA+, a ecologia etc. foram encampadas pela esquerda, porque nesse campo político as pessoas costumam dar mais valor às questões solidárias e humanitárias. Isso abriu um imenso caminho para bobagens do tipo “a esquerda defende bandido”. Obviamente, não se trata de defender quem não cumpre a lei, mas de entender que todas as pessoas, ricas ou pobres, merecem o mesmo tratamento perante a justiça.Uma pesquisa surpreendente revelada por uma entrevista do PÚBLICO explica que é possível até que existam diferenças cerebrais que levam as pessoas a concordar mais com a direita ou com a esquerda. No fim das contas, seja pelo motivo que for, cada um escolhe o lado que quiser. Mas o ideal é que essa opção seja feita com conhecimento e não com base nas infinitas publicações fantasiosas alertando as pessoas para supostos perigos da esquerda, como o “fantasma do comunismo”. Muitas vezes, essas mensagens nas redes sociais são apenas cortinas de fumaça para aterrorizar as pessoas e fazê-las acreditar em mentiras e bobagens disfarçadas de ideologia.
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