Vem aí mais um Pinheiro, o momento em que as Festas Nicolinas são de todos
Os registos das festas vimaranenses dedicadas a São Nicolau, figura que inspirou a história do Pai Natal e que também é considerado o santo protector dos estudantes, remontam ao século XVII, mas ressurgiram em força há cerca de quatro décadas e são hoje em dia a festa maior da cidade de Guimarães. Ou as festas, já que o evento, de 29 de Novembro a 7 de Dezembro, tem vários momentos, os “número nicolinos”, como lhes chamam. O mais concorrido é o Pinheiro, logo no primeiro dia, perdão, noite. E isso porque essa noite, porventura a mais longa do ano para os locais — qual S. João, no Porto, ou Santo António, em Lisboa — acolhe gente de todas as idades e oriundas das mais diversas partes.“A maioria dos números nicolinos é estudante, mas o Pinheiro já é de todos”, confirma José Ribeiro, presidente da Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães (AAELG) Velhos Nicolinos, criada em 1961 para “zelar pela continuidade das festas”. As festas foram sempre em honra de São Nicolau, mas nem sempre se chamaram nicolinas. “Esse nome surge num pregão de João de Meira em 1920. E, antes, as festas também tinham um perfil mais religioso, hoje são mais profanas”, continua este nicolino de 68 anos.São mais de dez actualmente os números das Festas Nicolinas e, de facto, a maioria é alheia à religião. Só as Novenas, ou Matinas, escapam a esse carácter mais folião. São o único número que não é dedicado a S. Nicolau, mas a Nossa Senhora da Conceição, cujo feriado se assinala a 8 de Dezembro. As Festas Nicolinas começam oficialmente a 29 de Novembro, mas no penúltimo mês do ano e durante os sábados que antecedem o Pinheiro, acontecem as Moinas. Nesses dias, a estudantada bate duas ou três moradas, previamente combinadas, e debaixo dos peitoris das janelas toca caixa e bombo em troca do lanche. E, sim, neste contexto o nome moina vem mesmo de moina, aquele que anda na vida airada e quer comer e beber em troca de nada ou pagando muito pouco.“Antigamente, os estudantes iam tocar para as casas senhoriais, e essas famílias mais abastadas ofereciam-lhes o lanche. Servia para ensaiarem para o Pinheiro, porque também tocam nessa noite caixa e bombo.”Terminadas as Moinas, no próximo sábado, Guimarães receberá uma enchente para o já afamado Pinheiro. Todos os anos, as Nicolinas são organizadas por uma comissão de festas integralmente composta por alunos do secundário, que contam, é certo, com a ajuda de velhos nicolinos como José Ribeiro. O presidente dessa comissão, eleito na última sexta-feira de Setembro no Largo do Toural, como manda a tradição, é este ano Nuno Figueiredo, finalista da Escola Secundária Martins Sarmento.O estudante do 12.º ano antevê ruas cheias em Guimarães, em virtude de o Pinheiro calhar a um sábado. Sobretudo “se não chover”. O que é que acontece no Pinheiro? Bem, de manhã cedo, os estudantes vão à Quinta de Aldão escolher o pinheiro, cortesia dos donos da propriedade há já vários anos. É um pinheiro de verdade, há muitos nos arredores de Guimarães, nota Nuno. Enorme e pela noitinha será conduzido pelas ruas da cidade até ser erguido na Praça D. Domingos da Silva Gonçalves, junto ao Monumento ao Nicolino.Antes sequer de esse cortejo começar, andarão pelo centro histórico, aos magotes, a tocar caixa e bombo. Alguns, literalmente, até sangrar — “bem, isso é consequências de tocarem com as palmas das mãos, quatro à volta de um bombo não dá para fazer de outra forma, é assim há 100 anos”, justifica José Ribeiro.
De manhã cedo, os estudantes escolhem o melhor pinheiro com que vão dar início às Nicolinas; de tão grande, à noite, tem de ser erguido com recurso a grua
Paulo Pimenta / Arquivo do PÚBLICO
E o que significa o Pinheiro? “O Pinheiro é o número anunciador”, explica o jovem nicolino Nuno. “Chamamos-lhe o mastro anunciador das festas.” O Pinheiro é o número mais participado das Festas Nicolinas, mas há uma razão para isso: é o único momento em que participam novos e velhos. “No meu tempo, só podiam tocar caixa e bombo os velhos estudantes, nem os novos podiam tocar. Mas houve uma evolução. Era a entrega de testemunho, por isso é que eram os velhos que traziam o pinheiro, erguiam-no e diziam aos novos: ‘Agora começou a vossa festa.’ No Minho, usam-se muito os pinheiros para anunciar a festa”, explica José Ribeiro.O velho nicolino foi da comissão de festas em 1976, esteve envolvido no Estatuto Nicolino — documento com direitos e deveres dos nicolinos, negociado com as escolas e os encarregados de educação, e que diz por exemplo quando é que os estudantes podem faltar por conta de terem andado nas Nicolinas — e ainda conheceu um ou outro velho nicolino daqueles que no início do século XX resgataram as festas depois de “um interregno que durou até 1895”.Danças e roubalheirasO Pinheiro é realmente o momento alto das festas, mas quem visitar Guimarães nos dias seguintes também conseguirá captar o espírito das Nicolinas. No dia 4 de Dezembro, terão lugar as Posses, outro número bem antigo, e o Magusto. As Posses são hoje também uma cena mais ou menos teatralizada em que os estudantes vão às casas de quem tem posses pedir de comer e de beber para depois distribuir por todos no Magusto.
A noite do Pinheiro ganhou tal visibilidade, que hoje são várias as pessoas de outras geografias que acorrem à festa vimaranense
Paulo Pimenta / Arquivo do PÚBLICO
No passado, era pedir aos ricos para dar aos pobres. E a posse mais antiga de que há registo em Guimarães é o Dízimo de Urgezes, conta José Ribeiro. “Por normal, as Posses são às 21h, mas este ano faremos isso um bocadinho mais cedo, para não chegarmos muito tarde ao Magusto, que costuma ser pela meia-noite e meia”, refere Nuno Figueiredo. Esse momento de convívio é junto aos emblemáticos arcos do Largo da Oliveira. Montam-se umas mesas e sobre elas colocam-se os chouriços, o presunto, o vinho e o que mais tiver sido doado.Nos dias 5 e 6 de Dezembro, acontecem, respectivamente, o Pregão e as Maçãzinhas. “O Pregão é uma crítica satírica à sociedade. Gozamos com os acontecimentos que marcaram o ano anterior. Vamos de coche e fazemos cinco paragens, em que dois rapazes, o pregoeiro e o ponto, recitam várias oitavas acerca desse ano escolástico.” As Maçãzinhas são uma espécie de ritual galanteador em que eles oferecem às jovens das secundárias de Guimarães uma maçã, espetada na ponta de uma lança, e em troca elas atiram das janelas uma qualquer lembrança. No passado, era assim que as raparigas viviam a festa, viam-na da varanda. Hoje, isso mudou, mas a organização das Nicolinas continua a estar só com os rapazes.No mesmo dia das Maçãzinhas, e quando termina esse namorico fictício, têm lugar as Danças de S. Nicolau, ou Nicolinas. Não é que sejam um evento privado, mas acontecem em local fechado e esgotam mal os bilhetes são disponibilizados, primeiro aos associados dos Velhos Nicolinos — “uns 1600”, segundo José Ribeiro — e depois a amigos e família.“As Danças Nicolinas também são um número muito antigo. São uma peça teatral em que entram novos e velhos. Eu faço de D. Afonso Henriques há mais de 30 anos. São garantidas pelos mais velhos porque exigem muito, dão muito trabalho, mas os novos também participam. É um número que teve altos e baixos e que ressurgiu a partir de 1983. Mas há registos das Danças desde 1800, por aí”, conta José Ribeiro.Na peça, também ela satírica e que este ano estará em cena no Centro Cultural Vila Flor, a sua personagem é casada com a “Muma, de Mumadona, considerada a fundadora da cidade de Guimarães”, e não com D. Urraca. No dia 6, os Velhos Nicolinos vão transmitir as Danças em directo na Internet, o link para a transmissão streaming será disponibilizado no site da associação.Sem data marcada, acontecem as Roubalheiras. Como o nome indica, envolvem roubo, mas trata-se de “um roubo fictício”. Já aconteciam no tempo em que José estudava no Liceu de Guimarães — antigamente, a festa era só dos estudantes do liceu; hoje participam nela alunos das quatro secundárias de Guimarães e, a partir deste ano, também os do privado Colégio do Ave. Com raízes populares — nas aldeias sempre houve festas em que alguns pregavam a partida de roubar pertences a outrem, só para os depositar mais tarde num local público —, as Roubalheiras chegaram a ter data no calendário, mas começou a haver quem se infiltrasse na brincadeira para roubar de verdade e o número travesso passou a acontecer de surpresa.“A população só sabe mesmo no dia a seguir. E sabe porque deixamos as coisas que levamos todas no Largo do Toural”, explica Nuno Figueiredo. Levam de tudo, tudo o que possam carregar, e deixam um bilhete. O velho nicolino José Ribeiro conta como chegou a ver no Toural “uma junta de bois, gado, carrinhos de compras do supermercado e até uma betoneira”. Faz lembrar essa nova-velha tradição chamada Elfo na Prateleira (do Elf On The Shelf norte-americano).










