CIÊNCIA

Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”

“Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores”, afirmou o cardeal José Tolentino de Mendonça que partilhou nesta quinta-feira o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), na Guarda, a essa “classe em crise”, pelo seu “extraordinário contributo social e cultural”.O poeta e escritor falava após receber o galardão na sessão solene dos 826 anos da fundação da Guarda. Dizendo-se “muito grato” pelo prémio, considerou que o legado do pensador e mentor do CEI, Eduardo Lourenço, é “relevar o papel da Educação e da figura do professor”.José Tolentino de Mendonça disse que os professores se sentem “remetidos a uma precariedade nas condições de trabalho, perdidos na complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos para o desenvolvimento das próprias funções, ou então apresentam-se feridos por uma espécie de solidão social”. “É como se aquilo que tivessem para dar, hoje, valesse menos.”O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação no Vaticano deixou um aviso: “A irrelevância dos professores é um alarme para as sociedades porque, quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui.”


E continuou: “Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.”Para Tolentino de Mendonça, o professor “não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro”, porque é necessária a existência de “mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas”.Sobre Eduardo Lourenço, falecido a 1 de Dezembro de 2020, disse ser “uma das grandes figuras da cultura portuguesa contemporânea, um homem extraordinariamente poliédrico, que pensou Portugal como poucos”. “Ajudou a olhar para a riqueza extraordinária da cultura portuguesa de todas as épocas e também dos últimos tempos, com uma infatigável curiosidade por todos os aspectos da vida e da cultura”.Coube ao escritor e jornalista Francisco José Viegas fazer o elogio do galardoado, tendo assinalado que “a dúvida” é uma marca das obras de Tolentino de Mendonça e de Eduardo Lourenço. “Ambas se fazem de inesperado, da passagem, são um processo, uma interrogação, um caminho.”O cardeal-patriarca de Lisboa, Rui Valério, afirmou que, com a atribuição do Prémio Eduardo Lourenço, a Guarda distingue “uma das figuras incontornáveis” da cultura: “Hoje, o Prémio Eduardo Lourenço entrega-se também à cultura portuguesa e, ao distingui-lo, a Guarda presta homenagem a si mesma, à sua vocação de cidade de Cultura.”Para o presidente da Câmara da Guarda, entregar o Prémio Eduardo Lourenço a Tolentino de Mendonça “honra uma das vozes mais luminosas da cultura contemporânea”: “Hoje, reconhecemos não apenas o escritor, o académico ou o homem de fé, reconhecemos o pensador-ponte, aquele que faz da palavra um gesto de encontro.”Sérgio Costa disse ainda que, ao entregar o galardão no Dia da Cidade, “quer-se afirmar, de forma inequívoca, a centralidade da cultura no futuro da Guarda e a projecção da cidade na Ibéria, na Europa e no mundo”.O CEI foi fundado no ano 2000, fruto de um repto lançado pelo ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço (1923-2020) de juntar na Guarda as Universidades de Coimbra e Salamanca (Espanha), e posteriormente o Instituto Politécnico local.O Prémio Eduardo Lourenço surgiu em 2004 para homenagear o mentor e director honorífico do CEI, tendo galardoado desde então personalidades e instituições com intervenção relevante no âmbito da Cultura, Cidadania e Cooperação Ibéricas.

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