25 de novembro? Consultem Rodrigo Sousa e Castro
No muito competitivo ranking de discussões nacionais esdrúxulas, poucos temas se destacam de forma tão inglória como o debate 25 de abril vs. 25 de novembro. O que revela mais sobre os protagonistas atuais do que sobre a transição democrática. Bem sei que vivemos tempos em que a ignorância passou a ser incensada, frequentemente dá lugar a um posto e quando se apresenta emproada pode mesmo alcandorar o ignorante a figura de Estado.É o que explica a tentativa em parte consumada de reescrever a história da nossa transição para a democracia à luz das narrativas de agora, insinuando uma falsa equivalência entre 25 de abril e 25 de novembro. Tudo feito apenas com um propósito: menorizar a revolução social que inaugurou a democracia. Quer isto dizer que o 25 de novembro não foi um momento relevante? Claro que foi, pelo que deve ser assinalado, mas no quadro da compreensão de um processo mais vasto, repleto de incidências multidimensionais, que se desenrolou ao longo dos anos de 1974-76, culminando num regime pluralista.A sucessão de acontecimentos complexos que ocorreram há 50 anos ao longo do dia 25 de novembro, mas, também, nas suas vésperas e nos dias subsequentes, foi determinante para moldar a natureza do regime democrático. A este propósito, convém recordar que o momento teve vários derrotados – num primeiro momento, a extrema-esquerda militar; num segundo, todos aqueles que ambicionaram ilegalizar o PCP. Mas o 25 de novembro teve também protagonistas que, ao contrário do que sugerem os novembristas dos últimos dias, foram sempre claros quanto ao significado político da data.Rodrigo Sousa e Castro, um dos nove signatários do documento Melo Antunes, deu por estes dias uma esclarecedora entrevista a Paulo Moura, para o PÚBLICO. Não só recomendo a leitura como, doravante, de cada vez que der por alguém a repetir uma patacoada sobre o 25 de novembro de 1975, remeterei, solicito, para o que diz Sousa e Castro.E que nos garante o capitão de Abril, com a autoridade de quem esteve implicado nos acontecimentos? Que o 25 de novembro não tem “dignidade histórica para ser comparável ao 25 de abril”, pois o “25 de abril abre uma nova era, reconstrói a história de Portugal. Os acontecimentos do 25 de novembro são sequelas do 25 de abril, sem o qual nunca existiriam” e traduzem “um ajuste de contas entre militares”.Mais, o processo de radicalização que ocorreu ao longo de 1975 é “resultado direto do 11 de março”, que criou as condições para “um caminho aventureiro para o socialismo”. O que encerra um paradoxo: o Documento dos Nove, sendo um programa de esquerda moderado, não só é a base de um golpe que hoje querem fazer crer de direita, como alcançou um apoio esmagador nos quartéis ao longo do Verão Quente. De tal modo que o 25 de novembro não trouxe grandes mudanças políticas: o essencial das alterações foi anterior, na sequência do Pronunciamento de Tancos, a 5 de setembro, com o fim do governo de Vasco Gonçalves e o controlo das regiões militares pelas forças afetas aos moderados.Sem escolher a via das falinhas mansas que hoje se tornou hegemónica, Sousa e Castro remata: “O irónico é que as pessoas que querem agora comemorar o 25 de novembro são as que perderam, porque nenhum dos seus objetivos foi cumprido.” Como se explica esta vontade de reescrever a História de Portugal? Sousa e Castro conclui: porque temos uma direita que agora é liderada por pessoas muito ignorantes. Com pouca cultura e que não sabem nada de História.










