Ver o mar pela primeira vez
A autora do texto, Emília Ferreira, vai logo avisando à entrada do livro: “Nasci e sempre vivi perto do mar. As minhas memórias antigas mergulham no brilho das pequenas ondas que avançavam e recuavam em torno dos meus pés, sobre o areal branco da praia. Não consigo imaginar a minha vida longe da respiração do oceano e foi a hipótese de alguém nunca o ter visto que me levou a escrever esta história.”Quem sempre esteve junto ao mar e não consegue dele apartar-se fica logo motivado para a leitura deste conto, que pode ser dirigido a crianças leitoras autónomas, a jovens, mas também a adultos.O Mensageiro conta de forma poética, tanto no texto quanto nas ilustrações, a história do aparecimento de um estranho numa terra onde “nunca o mar chegara”. Assim se escreve e descreve: “Era uma terra tão distante de marés que se esquecera dessa existência. Não fora a lua e o sol aparecerem alternadamente com quentura e fulgor variáveis e ter-se-iam esquecido do tempo, perdidos em encruzilhadas onde todos os oráculos são enganadores.”Só o eremita poderia, com a sua sabedoria, entender e ajudar o estrangeiro, a quem “falou com a boca limpa”. O mensageiro deslocou-se ali porque tinha ouvido falar neles, “homens da terra que nunca haviam visto o mar, nem sabiam, por isso, recordá-lo nos seus sonhos, nem sentir-lhe o cheiro e o brilho e toda a magnitude da sua força e beleza”. E o mensageiro indicou-lhe o caminho até ao mar: “Bastava seguir a curva descendente de cada sol.”Parceria feliz entre Portugal e MoçambiqueEste é mais um título assinado por Emília Ferreira (texto) e Ivone Ralha (ilustração), com o apoio da Escola Portuguesa de Moçambique-Centro de Ensino e Língua Portuguesa. Uma parceria feliz, criativa e oportuna, que gostaríamos de ver replicada noutros territórios a que estamos ligados. Sempre com o mar por perto.
“Eram resignados ao poder de um universo que os transcendia, mas do qual faziam parte”
Ivone Ralha
Emília Ferreira nasceu em Lisboa, em 1963, é licenciada em Filosofia, mestre e doutora em História da Arte Contemporânea. Tem mais de 30 livros publicados, sendo 12 deles abordagens de temas artísticos dirigidos ao público infantil. De Dezembro de 2017 a Fevereiro deste ano, dirigiu o Museu Nacional de Arte Contemporânea e a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa.Ivone Ralha também nasceu em Lisboa, em 1958, tem bacharelato em História da Universidade Eduardo Mondlane, trabalhou no Arquivo Histórico de Moçambique e foi professora no Centro de Estudos Culturais em Maputo. Já em Portugal há muitos anos, desenha e pagina livros, jornais, revistas, faz infografias, ilustra e pinta.Quanto a O Mensageiro, revela-se aqui que o eremita levou todo um povo a caminhar durante vários ciclos lunares para onde “acabava a terra e nasciam águas até ao infinito”.Um livro com um desfecho inesperado, que abre espaço a diferentes interpretações, a lembrar que também são os leitores que fazem os livros.
“E, no mesmo silêncio, levantaram-se e todos juntos esperaram que o fim do sol lhes indicasse a direcção do primeiro passo. E lá seguiram”
Ivone Ralha
Já apresentado em Maputo, em Outubro, n’ O Camões — Centro Cultural Português, na inauguração da exposição Ilustrações sobre Textos — Dançando com as Palavras dos Outros, de Ivone Ralha, tem agora lançamento na Livraria e Editora Snob, em Lisboa, no dia 25 de Novembro (terça-feira), às 18h30, com apresentação de Ana Sousa Dias, em que estarão presentes a escritora e a ilustradora.Todas em tempos ligadas ao PÚBLICO e sempre ligadas ao mar. Como nós.
Texto: Emília Ferreira
Ilustração, design gráfico e paginação: Ivone Ralha
Direcção editorial: Luísa Maria Pina Valente Antunes
Coordenação editorial: Teresa Noronha
Edição: Escola Portuguesa de Moçambique-Centro de Ensino e Língua Portuguesa
40 págs., 15€
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