CIÊNCIA

Europa desconhece plano de paz russo-americano, mas lembra que Ucrânia é a vítima

Qualquer plano de paz para a guerra entre a Ucrânia e a Rússia deverá ser discutida com o envolvimento das autoridades ucranianas. Esta é a mensagem difundida por todas as capitais europeias como reacção à divulgação de uma alegada proposta de paz elaborada pelos EUA e pela Rússia cujos termos equivalem a uma capitulação ucraniana em toda a linha.Com o processo diplomático congelado desde o Verão e uma intensificação dos bombardeamentos russos sobre a Ucrânia, a revelação de detalhes sobre um alegado plano de paz negociado por Washington e Moscovo voltou a deixar a Ucrânia e os seus aliados em estado de alerta.Nem a Casa Branca nem o Kremlin confirmaram ainda a veracidade do plano de 28 pontos que foi divulgado por vários meios de comunicação social na quarta-feira ou sequer a existência de negociações secretas entre os dois países.


Independentemente daquilo que terá sido discutido entre os diplomatas russos e norte-americanos, os aliados europeus de Kiev vieram repetir a posição que tem sido defendida desde o início da invasão: para que a paz seja duradoura é necessária a participação da Ucrânia nas negociações.“Há um agressor e uma vítima, e não ouvimos quaisquer concessões do lado da Rússia”, afirmou a alta representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, esta quinta-feira, à entrada de uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros europeus em Bruxelas.De forma idêntica, o chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, sublinhou que um acordo de paz não pode significar a “capitulação” ucraniana. “São necessárias discussões para se chegar a uma paz justa e duradoura na Ucrânia e deve-se começar com um cessar-fogo na linha de contacto que permita a existência de negociações ordeiras sobre a questão dos territórios e da segurança”, acrescentou.O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, disse que a Europa deve ser consultada durante as negociações sobre o futuro da Ucrânia e alertou para a necessidade de não haver “restrições” à capacidade de Kiev se poder defender.Capitulação totalEm Kiev, não há, para já, quaisquer comentários oficiais à proposta de paz russo-americana. Durante um encontro com o secretário do Exército dos EUA, Daniel Driscoll, em visita à Ucrânia, a primeira-ministra, Iulia Sviridenko, insistiu na necessidade de uma maior pressão sobre Moscovo.“Enquanto a Rússia continua a matar civis inocentes, a destruir casas e a atacar infra-estrutura crítica, a estratégia de pressão sobre a Rússia tem-se mostrado eficaz. É fundamental reforçar as sanções financeiras e sobre a energia contra o Estado agressor”, afirmou.O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, passou os últimos dias a viajar por vários países europeus para tentar fortalecer o apoio dos aliados ocidentais. Na quarta-feira, esteve na Turquia, país que tem tentado mediar uma solução diplomática, onde voltou a pedir um regresso à mesa de negociações para que seja alcançado um cessar-fogo imediato.A proposta que foi divulgada esta semana prevê que a Ucrânia ceda o controlo da totalidade do Donbass para a Rússia, incluindo mais de 20% do território da província de Donetsk que ainda mantém sob a sua alçada. Além disso, Kiev seria obrigada a diminuir as suas Forças Armadas para cerca de metade da sua dimensão actual, a prescindir de armamento de longo alcance estrangeiro e o país ver-se-ia privado de receber tropas internacionais.De acordo com o mesmo documento, a língua russa teria de voltar a ser reconhecida como uma das línguas oficiais da Ucrânia e o ramo da Igreja Ortodoxa russa deveria ser formalmente estabelecido no país.


Não há referência a quaisquer concessões por parte da Rússia em relação ao que é conhecido sobre este plano. A Ucrânia defende que o primeiro passo rumo a uma solução diplomática deve contemplar um cessar-fogo imediato e total para que as duas partes possam negociar livremente – Moscovo discorda.Os principais pontos desta proposta coincidem quase totalmente com a generalidade das exigências que vêm sendo apresentadas pela Rússia como necessárias para pôr fim à invasão iniciada em Fevereiro de 2022 e que têm sido rejeitadas pela Ucrânia.Desde que regressou à Casa Branca, Donald Trump tem tentado mediar um cessar-fogo para a guerra que dura há quase quatro anos, mas não alcançou qualquer progresso. Ao longo dos últimos meses, o Presidente norte-americano tem alternado entre posições mais próximas de Moscovo, chegando a fazer eco das exigências do Kremlin, e outras mais duras, sobretudo depois de se deparar com a intransigência russa em aceitar um cessar-fogo.Desde Julho que não há encontros entre a Rússia e a Ucrânia para discutir uma solução para o conflito. Em Agosto, Trump encontrou-se com o Presidente russo, Vladimir Putin, no Alasca, onde lhe foram apresentadas as condições de Moscovo para pôr fim à invasão, que coincidem largamente com aquelas que figuram no plano agora divulgado.

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