Não estamos a ouvir a ciência dos limites planetários, avisa Johan Rockström
Tornou-se uma palavra de ordem comum dizer que “o nosso mundo está a arder”, quando se fala em alterações climáticas. É uma piada fácil, mas nesta quarta-feira a 30.ª Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, no Brasil, ficou mesmo a arder: um incêndio obrigou a evacuar a zona azul, onde ficam os pavilhões e as áreas de negociações entre os países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.Mas o ambiente começava já a ficar ao rubro, com o impasse nas negociações sobre um roteiro para programar o abandono “ordenado e equitativo” dos combustíveis fósseis que resultou do acordo no Dubai, há dois anos.”A ciência diz-nos que já devíamos ter começado a fazer descer a curva global das emissões em 2020, para que seja possível a ‘saída ordenada dos combustíveis fósseis’ de forma a garantir que limitamos o aquecimento global dentro do limite planetário de 1,5 graus”, disse ao Azul Johan Rockström, cientista sueco que é director adjunto do Instituto Potsdam para a Investigação das Alterações Climáticas, da Alemanha, e uma das figuras que anima o Pavilhão das Ciências Planetárias na COP30.”Precisamos muito de acelerar o abandono dos combustíveis fósseis, como metas quantificadas para cada país, em cada ano. Temos de reduzir as emissões ao ritmo de 5% ao ano e, em vez disso, estamos a aumentar 1% ao ano”, afirma o cientista, uma das figuras mais reconhecidas internacionalmente na ciência climática.E, no entanto, se a ciência nos dá dados cada vez mais certos e quantificados sobre os limites do planeta, informa pouco as discussões da diplomacia climática. “Nem por isso. Acho que é a primeira vez que trazemos os limites planetários às negociações, aqui e ali, mas não o sistema total. E isso é um erro, porque podemos quantificar os limites seguros para vários sistemas”, reforça Rockström. A acidificação dos oceanos já fez com que a morte dos corais tropicais tenha atingido um limiar crítico, confirmou a equipa do Instituto de Potsdam em Outubro. Enquanto a ciência avança, os políticos continuam a tropeçar nos próprios pés na grande conferência anual do clima. Mesmo os melhores planos de redução das emissões que foram apresentados na COP30, que incluem os da União Europeia, reduzirão as emissões em 5% – mas apenas ao longo de dez anos, frisa Rockström. “Isso é dez vezes mais lento do que o que seria necessário.”Mesmo sem o incêndio na área dos pavilhões nacionais que lançou o caos na COP30, as negociações já estavam a dar para o torto, por causa do debate sobre o abandono dos combustíveis fósseis e da continuação das emissões que fazem aquecer o planeta, enquanto não largarmos o carvão, o petróleo e o gás natural.”Estes 5% ao ano nem seriam um plano ambicioso. É apenas o que a ciência nos diz que seria o mínimo exigível, para evitar que milhares de milhões de pessoas fiquem em perigo”, reforça Rockström.O abandono dos combustíveis fósseis, sem inventar mais desculpas, devia ter sido para ontem, diz o cientista. “Temos de deixar de investir no carvão. Não há nenhum cenário em que faça sentido produzir electricidade a partir de carvão, é sempre mais caro que todas as outras alternativas. Só continua a acontecer porque os países em desenvolvimento pagam taxas de juro de 15%, quando Portugal pode contrair empréstimos a um juro de 3%”, frisa, para explicar como o acesso a financiamento climático que não sobrecarregue as dívidas sobreranas é essencial para a transição ecológica.Tudo isto faz parte do “roteiro para o abandono dos combustíveis fósseis” e as discussões sobre a adaptação, que estão a travar o acordo na COP30. Tanto que a União Europeia foi brindada com a “honra” pouco invejável de ser nomeada “Fóssil do Dia” na quarta-feira pelas organizações não-governamentais presentes na COP30.Mesmo que os políticos não se mexam, as alterações climáticas continuarão o seu percurso inexorável se não pararmos de lançar gases de estufa para a atmosfera. Os sumidouros naturais de carbono, como as florestas e os oceanos, estão a dar sinais preocupantes de já não conseguirem ser tão eficazes como antigamente. Isso pode pôr em causa as previsões científicas de que dispomos.”Nenhum modelo climático do IPCC [Painel Internacional para as Alterações Climáticas] prevê que as florestas deixem de conseguir absorver 25% do carbono que emitimos. Nenhum. Mas se isso acontecer, uma redução de 5% das emissões ao ano já não será suficiente. Teremos de ir mais depressa”, avisou Johan Rockström.O Azul está em Belém do Pará para acompanhar a conferência do clima das Nações Unidas. Siga a nossa cobertura em publico.pt/COP30.A jornalista viajou a convite da Fundação Oceano Azul










