Não falem em nome dos jovens — e citem bem os dados
Uma coisa é o que se diz. Outra a realidade. E ainda temos a versão de quem queira convencer que a realidade é outra. Os jovens, nas últimas eleições, votaram mais à direita — AD e Chega à cabeça, com mais de 50%. Têm uma predisposição para diferentes modalidades de trabalho, os níveis de emigração equiparam-se aos de países em guerra e os dados do desemprego jovem têm de ser mais bem analisados.Nas últimas legislativas, em 2024, o perfil dos eleitores jovens foi claro: entre os 18 e os 34 anos de idade, quem obteve a maior votação foram a AD (28%) e o Chega (25%). É verdade que o PS foi o terceiro, com 13% dos jovens, mas mais de 50% foram de centro-direita e direita. O número é expressivo. Perfil sociológico, medidas fiscais da AD ou Tiktok do Chega — pode e deve-se estudar o porquê, não se pode é fugir ao facto de em quem estão os jovens a votar.
Outro dado sobre “os jovens” de que se fala é o do desemprego jovem acima de 20% (estando nesse valor subjacente os atuais 21,6% entre 16-24 anos). Obviamente alto. O que quero apontar é que se fala com frequência deste número como se ele estivesse associado à emigração jovem e “aos jovens em geral”, o que não é verdade. Mais: este dado, quando se vão buscar dados mais granulares, e ao compará-los com a Europa, vê-se que é influenciado por, até aos 19 anos, o valor ser de 38%. Obviamente que nesta idade há um perfil não só de menor formação como até há perfis de abandono escolar e de exclusão social. Ao falar-se deste número, devia, por isso, falar-se de retenção escolar, de orientação profissional, de zonas de exclusão social.Quando olhamos para o patamar seguinte (25-34 anos), o caso muda de figura: o desemprego passa para 7,3%. Claro que esta percentagem não tem em conta a emigração, e a emigração jovem é um flagelo — não esqueçamos que o stock de emigração de Portugal se compara com países em guerra. Mas, de novo, temos de analisar o número e o contexto: é nesta faixa etária que tem de se analisar a competitividade do país, o local de esperança de desenvolvimento de projecto de vida, da dissociação entre a formação e a necessidade empresarial, e entre a expectativa salarial e o salário real. Mas o que não podemos fazer é “atirar” valores de 20% como se estivéssemos a falar para esta faixa dos 25-35 anos. Não podemos admitir que as pessoas não sejam capazes de compreender isto quando se apresentam os dados. E quando atores políticos põem tudo no mesmo saco não contribuem para as soluções. E não compreendem certamente as singularidades “dos jovens”.
Há outro erro frequente: falar sobre os jovens como se fossem um grupo homogéneo nas expectativas face à modalidade de trabalho. Nada mais errado. Recentemente, um estudo da OCDE revelou que 39% dos jovens na União Europeia preferem estar em autoemprego (quando, na verdade, estão 7%). Isto implica uma reflexão fundamental sobre o que é ser profissional liberal, sobre a flexibilidade laboral (tão em voga neste dias), sobre a atualidade dos modelos de proteção social. Significa, sobretudo, que muitos atores políticos, quando falam “no que os jovens querem”, no que deve ser o modelo laboral ou em “quem os jovens votam”, projetam as suas opiniões, e não atendem ao que existe realmente.Infelizmente, a abstenção nos jovens eleitores é maior do que na média da população. É lamentável, pela representatividade, porque uma sociedade quer-se participada, nomeadamente por aqueles que terão o seu percurso ainda por percorrer e que podem ter uma palavra nesse rumo. Mas talvez a dissociação entre o que se diz e o que é contribua para afastar mais os jovens. Numa sociedade com um baixo nível de participação cívica, o afastamento face às eleições é natural, mas isso corrói a base da democracia.Os jovens votam sobretudo AD e Chega, muitos preferem flexiblidade e autoemprego do que “um emprego para a vida”, e o desemprego dos primeiros anos decorre, sobretudo, de problemas de exclusão e formação, num país que tem stock de emigração que se compara com o de países em guerra. Os dados estão aí. Quando não há contraditório, os soundbites e factóides ganham. E, por vezes, as profecias autocumprem-se. Mas, para já, os dados continuam a ser o que são.A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990









