DESPORTO

Em defesa do direito a informar com isenção e liberdade

…Sim, é verdade que está a decorrer uma gigantesca ofensiva transnacional contra a credibilidade e isenção da imprensa livre (como afirma Pedro Adão e Silva na sua crónica Não teremos sempre a BBC). E não, não é verdade que “em nome do combate à extrema-direita” tudo seja “permitido” (como afirma Maria João Marques no seu artigo A queda da BBC, concluindo abusivamente que um erro comprovado da agência britânica há cinco anos justificaria a dita ofensiva).Sim, houve erros de informação num programa da BBC que denunciou o golpismo de Trump contra o resultado de eleições livres (mas a verdade é que essa agência, perante os factos comprovados, tirou deles as consequências correctivas que se impunham). Mas não é verdade que Trump não queira querido desvirtuar os resultados da eleição. E a pretensa “bondade” da campanha ultradireitista em curso é falsa: não quer defender o direito de informar com isenção e liberdade.





O que se passou em 2020 com a notícia da BBC não pode ser minimamente confrontado com o oceano de ruidosas atoardas e falsidades com que, todos os dias, a agenda trumpista invade o mundo. Perante esta gigantesca campanha (a partir da agenda do seu ideólogo, Bannon) que visa as instituições democráticas à escala global, que fazer? Perante a mentira, os fakes e a desinformação em doses industriais, ainda é possível que alguém de bom senso (e, vá lá, de isenção) queira ver na presente campanha contra a BBC a correcção de qualquer “enviesamento sistémico” das sempre malfadadas “esquerdas”, e não a etapa de uma batalha que tem outra cartilha, outros memos e outros objectivos? Pedro Adão e Silva enumera-os…Sempre apreciei no PÚBLICO a sua capacidade de pôr em confronto as mais variadas ideias e temas e de convidar a nossa inteligência à reflexão a partir da leitura de posicionamentos distintos (ou mesmo antagónicos). Por isso, a radical paragona apresentada pelos dois artigos citados – um, de serenidade na defesa da imprensa livre, o outro, inflamado no seu “cruzadismo anti-esquerdas” – leva-me a lembrar outras derivas da história recente que têm feito estragos e explicam muito da ascensão extremista neste tempo de refluxo em que é imperativo tocar a rebate para defender valores constitucionais e direitos elementares adquiridos.Uma dessas derivas foi a pandemia de covid-19, que agudizou a verborreia negacionista e gerou uma gritaria insana, grosseira, mentirosa, cheia de calúnias que logo se virou contra as tutelas da Saúde e as instituições do Estado democrático, tanto a nível local como global, culpando-as de imaginários planos conspirativos e galvanizando os descontentes e desinformados para grandes cruzadas ditas “anti-sistema” (mas que são, na realidade, antidemocráticas: vejam-se os EUA de hoje).Perante estas evidências, em que a agenda Bannon-Trump e seus seguidores multiplicam campanhas de ódio assentes nos fakes, na calúnia, na falsificação da história, na desmemória colectiva, no branqueamento de criminosos, no ataque às organizações que defendem os trabalhadores, e numa desinformação como nunca vista, que fazer? Os resultados estão a todos patentes nesta fase da história da Humanidade em que as extremas-direitas (mais ou menos declaradamente fascistas) ganham terreno na Europa, nos EUA e outras partes do mundo. No caso português, são muitas as evidências: cartazes racistas, comportamentos parlamentares inaceitáveis, agressões verbais e físicas, apoio a grupos neonazis (alguns, armados), fakes espalhados aos quatro ventos, ataques ao Estado Social, etc., etc., estão à vista de todos.Por isso, defender os valores do 25 de Abril e a Constituição de 1976 (e não a de 1933) passam a ser prioridades máximas da democracia. E, claro, defender uma imprensa livre que, por ser livre, não se deixe intimidar no seu dever de enfrentar as bestas da desinformação e da mentira.

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