CIÊNCIA

<em>Mobbing</em>: quando as alcunhas no trabalho doem mais do que parece

Há feridas que não se vêem. São as que nascem das palavras.No trabalho, há quem carregue todos os dias um rótulo que não escolheu, um nome que começou em tom de brincadeira, mas ficou colado à pele como um autocolante velho. Chamam-lhe mobbing, um termo moderno para uma prática antiga: a violência psicológica no local de trabalho. Não é novidade, apenas lhe demos, finalmente, um nome. Durante anos, disfarçou-se de humor, de “ambiente descontraído” ou de “modo de integrar”, mas quando o riso só serve para um lado, deixa de ser piada.Quem trabalha em Portugal já ouviu, e talvez já disse, uma dessas alcunhas. Parecem inofensivas, mas raramente o são, servem para reduzir alguém a um detalhe físico, um traço, uma diferença. E repetidas vezes, mesmo com um sorriso, transformam-se numa forma silenciosa de humilhação. Curiosamente, raramente se ouve o contrário, ninguém chama “a mais competente”, “o mais dedicado” ou “a inspiração do grupo”. Somos rápidos a ridicularizar e lentos a reconhecer. A cultura laboral portuguesa ainda confunde ironia com proximidade e crítica com humor, o problema é que esse humor tem consequências. Num tempo em que tanto se fala de discriminação, rotular alguém com uma alcunha é, na verdade, uma forma de discriminar, de forma pejorativa e disfarçada de leveza. Porque não há nada de inocente em reduzir uma pessoa àquilo que a distingue, sobretudo quando isso a faz sentir menos.A ciência confirma o que a experiência mostra. Um estudo de Zhang e Du (2024) revela que, quando as alcunhas partem de superiores hierárquicos, os trabalhadores sentem-se menos respeitados e menos seguros. Em Portugal, a RH Magazine (2025) identificou a aparência física como a principal causa de discriminação no trabalho, e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (2024) concluiu que um em cada três trabalhadores se sente discriminado.Essas “brincadeiras” que parecem leves são, na verdade, pequenas pedras acumuladas até se tornarem peso. O impacto vai muito além do desconforto momentâneo, as alcunhas criam fronteiras invisíveis. Fazem com que alguns se calem nas reuniões, evitem o convívio ou se sintam sempre observados. Um nome que era só “graça” passa a lembrar, todos os dias, o lugar onde não se pertence.O mobbing não se resume a insultos directos, é a repetição da desvalorização, o isolamento, a ironia constante. É o riso fácil que deixa o outro pequeno, é a falta de empatia disfarçada de espírito de equipa. E não, isto não é “falta de sentido de humor”. É falta de respeito. Quando o local de trabalho se transforma num palco de troças, perde-se o essencial: a humanidade.Um ambiente de trabalho saudável é aquele onde as pessoas se sentem seguras para ser quem são, sem medo de serem ridicularizadas. É um espaço onde o respeito não é um detalhe, mas a regra, onde se elogia o esforço, se reconhece o mérito e se cuida do outro sem paternalismo. Porque a saúde mental começa aí, na forma como olhamos e falamos uns com os outros.Talvez o primeiro passo para mudar seja simples, chamar as pessoas pelo nome, valorizar antes de criticar. E lembrar que, no fim, um local de trabalho saudável não se mede pela produtividade, mas pela dignidade com que todos são tratados.

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