CIÊNCIA

Zohran Mamdani e a história de uma América dividida

Para os democratas, ou para uma ala específica dos democratas norte-americanos, a vitória de Zohran Mamdani em Nova Iorque não é apenas mais um resultado, mas a síntese da insatisfação de um eleitorado que se materializou na opção por um rosto novo para enfrentar Donald Trump. E também a expressão de uma outra maneira de fazer política à esquerda que aceita confrontar Trump e nos seus termos.Porque Mamdani, um político assumidamente inexperiente, venceu pelo seu carisma, sim, pela narrativa de ruptura, idem, mas também por se posicionar como o anti‑Trump. Sem pedir desculpas, com um discurso bastante próximo do do socialismo europeu e com medidas revolucionárias para a agenda norte-americana normativa – o que leva os críticos a apelidarem-no de comunista –, ele quis ser o candidato que personifica a crítica ao nacionalismo, à intolerância, à promiscuidade com os tech bros​, à especulação imobiliária e ao espectáculo de poder que o Presidente parece encarnar.O seu estilo mistura salpicadelas de populismo de esquerda com apelos ao centro‑esquerda, temperados pelo talento evidente nos seus discursos. Mas eis as questões: será este o caminho que os democratas devem seguir para derrotar Trump ou Mamdani é o produto de um lugar liberal como Nova Iorque? E será que Mamdani não ganhou como ganhou por falta de comparência de um adversário da linha clássica democrata, porque Cuomo tinha na sua esteira casos de assédio?Mamdani, que é mais combativo e mais visceral, aproxima‑se do trajecto de figuras como Gavin Newsom, que protagonizam uma esquerda assertiva e agressiva, e que acreditam que a resposta ao MAGA passa por criar clivagens, reafirmar conflitos e identidades por oposição. Num verbo: polarizar.Essa estratégia tem obviamente proveitos imediatos, porque incendeia a base, capta descontentes e torna a disputa personalizada. Mas, por outro lado, será que arriscar a polarização não se traduzirá, em eleições nacionais, na perda dos moderados e dos mais velhos que procuram pragmatismo e desprezam o lado performativo e idiossincrático desta arte?É verdade que o eleitorado mostra, aqui e ali, sinais de rejeição das linhas sociais e económicas pelas quais Trump cose as suas decisões, mas ninguém sabe se esta descredibilização é coisa do momento ou se terá continuidade.As dúvidas são políticas e estratégicas: derrotar Trump exige deslegitimar o seu showmanship e as suas falhas, mas também oferecer alternativas de governação credíveis. A pista de Mamdani acerta no diagnóstico do ressentimento anti‑Trump e no enfado dos democratas que procuram um novo antídoto para o MAGA. Falta agora saber se acerta também na prescrição: unir uma cidade e tornar esta experiência-piloto replicável numa América dividida.

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