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Vaticano devolve 62 artefactos aos povos indígenas do Canadá. Cem anos depois

Foi há já mais de três anos, em Julho, que o então Papa Francisco pediu “perdão pelo mal cometido” contra os povos indígenas do Canadá, reconhecendo o papel nefasto da Igreja Católica, tanto na gestão de internatos onde crianças oriundas destas comunidades “sofreram abusos físicos e verbais, psicológicos e espirituais”, como na cooperação com outras políticas de “destruição cultural”. Agora, o seu sucessor, Leão XIV, reforça-lhe o gesto há muito esperado, com a restituição de 62 artefactos de valor identitário que foram retirados a estes povos há mais de 100 anos para integrarem a Esposizione Missionaria Vaticana, que reuniu em Roma entre 80 e 100 mil peças oriundas de África, das Américas, da Ásia e da Oceânia, um projecto do Papa Pio XI que tinha por objectivo demonstrar o alcance das missões católicas.No sábado, o líder da Igreja entregou simbolicamente este lote de bens culturais à Conferência Canadiana de Bispos Católicos para que esta entidade os faça chegar a quem de direito, promovendo a reconciliação possível com as comunidades a que pertencem originalmente. Segundo um comunicado conjunto do Vaticano e dos bispos canadianos, Leão XIV quer que esta restituição represente “um sinal concreto de diálogo, respeito e fraternidade”.Deste conjunto de objectos, precisa a televisão britânica BBC, faz parte um par de luvas bordadas da nação cree e um caiaque inuíte que era usado na caça à baleia no extremo norte do Canadá, assim como jóias várias e um cachimbo cerimonial.Embora tenham sido levados para Roma à revelia dos povos indígenas a que pertencem, na sua maioria, e mesmo tendo o Papa Francisco reconhecido publicamente na sua “peregrinação penitencial” ao país em 2022 as responsabilidades imputáveis à Igreja Católica naquilo que uma comissão nacional de verdade e reconciliação no Canadá chamou de “genocídio cultural”, o custo do repatriamento destes bens já foi pré-pago pelas comunidades destas Primeiras Nações, que têm prevista uma série de cerimónias por todo o país antes de se proceder à devolução oficial, de acordo com a CBC News.


Foi precisamente a esta companhia que assegura o serviço público de informação do Canadá que a embaixadora do país junto da Santa Sé, Joyce Napier, fez saber que os itens a restituir estão em reserva em Roma, integrando a colecção etnográfica do Vaticano desde a década de 1970 — chamam-lhe o Museu Anima Mundi — e deverão ser enviados para casa a 6 de Dezembro.Até aqui, estes bens têm sido descritos em toda a informação que lhe está oficialmente associada como “presentes” oferecidos à Igreja pelos líderes indígenas, uma palavra que parece tragicamente desfasada da realidade, quando estes povos se encontravam subjugados ao ponto de lhes serem retiradas à força as suas crianças para que fossem “reeducadas” à luz de valores que não eram os das comunidades em que tinham nascido.Reparação históricaLembrava este sábado o diário norte-americano The New York Times que milhares destas crianças morreram nos já referidos internados católicos em que eram obrigados a renunciar à cultura dos seus pais, avós e outros antepassados devido a negligência, incêndios acidentais, doenças, desnutrição e outras formas de abuso, incluindo o sexual, uma situação que encontra paralelo na história dos povos indígenas australianos, por exemplo.Leão XIV incumbiu a Conferência Canadiana de Bispos Católicos de receber os bens e de os entregar às comunidades, o que será feito, numa primeira fase, confiando o lote de artefactos a uma organização nacional de defesa dos direitos dos povos indígenas, que se encarregará de os distribuir.Esta devolução integra uma campanha de reparação histórica de largos anos promovida pelas Primeiras Nações do Canadá com o apoio do Governo. O seu ministro dos Negócios Estrangeiros veio agora elogiar a iniciativa do líder da Igreja, classificando-a como um “passo importante que honra a diversidade do património cultural dos povos indígenas e apoia os esforços contínuos em prol da verdade, da justiça e da reconciliação”, escreve a BBC.De lembrar que os artefactos foram levados para Roma quando a lei canadiana e a Igreja Católica impediam as comunidades indígenas de levar a cabo rituais relacionados com a sua cultura e a sua prática espiritual, rituais esses que implicavam o uso de muitos dos bens que em breve lhes serão restituídos.O gesto do Papa Leão XIV, embora bem recebido, mereceu críticas, algumas verbalizadas ao New York Times por Cody Groat, professor de História e de Estudos Indígenas na Western University, Ontário.


Groat, membro da Six Nations of the Grand River, a maior comunidade de representantes das Primeiras Nações do Canadá, ele próprio descendente de sobreviventes do regime de reeducação promovido pela Igreja, repudiou o facto de o Vaticano ter optado por transferir os bens numa primeira fase para os bispos canadianos, ao invés de os restituir directamente aos povos indígenas.“Não querem que o Vaticano repatrie [os artefactos] directamente para as comunidades e nunca chegaram a explicar porquê”, disse o professor Groat ao diário norte-americano. “Muitas Primeiras Nações afirmam que, [assim], a Igreja quer manter o poder na relação [com os povos indígenas]”, acrescentou, não deixando de considerar, no entanto, “significativa” e “consequente” esta restituição ordenada pelo Papa.Procurando justificar a estratégia adoptada para esta devolução, a embaixadora Joyce Napier sublinhou que as peças estarão muito pouco tempo e apenas formalmente ao cuidado dos bispos, uma vez que na chegada ao país serão confiadas de imediato ao Museu de História do Canadá, em Gatineau, na província do Quebeque. As peças serão, depois, distribuídas pelos povos de origem, num “processo 100% liderado pelas comunidades indígenas”, garantiu a embaixadora canadiana no Vaticano.Não fica por aquiA devolução de artefactos agora anunciada, embora importante, não porá fim aos pedidos de restituição destes povos ao Vaticano, que deverá ter outras peças a eles ligados no acervo do seu museu. Cody Groat espera, no entanto, que de futuro as falhas agora identificadas no processo possam vir a ser corrigidas.Em 2022, o Papa Francisco abriu a porta a estas e outras devoluções ao assumir a participação da Igreja na política de assimilação forçada imposta às comunidades indígenas com o objectivo de eliminar todos os vestígios das suas tradições ancestrais.Pedindo “perdão” por três vezes, “com vergonha e clareza”, perante uma plateia composta por muitos sobreviventes e seus descendentes, Francisco assumiu o “erro devastador” da sua Igreja e fê-lo num local particularmente simbólico, aquele em que funcionou o internato Ermineskin, uma das cerca de 130 escolas onde as crianças retiradas às comunidades entre o final do século XIX e a década de 1990 — foram cerca de 150 mil — eram confinadas. A última fechou as portas em 1996, há apenas 29 anos.Perto de várias destas instituições foram encontradas os restos mortais de mais de 1300 pessoas em 2021, na sua esmagadora maioria de crianças, naturalmente. Nalguns casos havia, para além de sepulturas, valas comuns. “Estou triste, peço perdão”, disse no ano seguinte o Papa, assumindo que a marginalização sistemática das comunidades indígenas contribuiu para o apagamento e menorização das suas culturas e que o seu pedido de desculpas era “apenas o primeiro passo” no sentido da “cura”. Leão XIV deu agora mais um, mas, garantem as comunidades nativas canadianas, é preciso que continue a caminhar.

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