Entre a NATO e a Rússia, a Turquia procura um lugar na nova geopolítica mundial
Os principais diplomatas dos países árabes encontraram-se em Istambul há duas semanas para discutir o complicado processo de cessar-fogo em Gaza, para onde Recep Tayyip Erdogan, o Presidente turco, já propôs o envio de soldados — a que Israel se opôs — juntamente com a força internacional de paz anunciada pelos Estados Unidos. Uma semana antes, também em Istambul, a Turquia anunciou a continuação do cessar-fogo entre o Paquistão e o Afeganistão.Estes esforços diplomáticos são apenas algumas das jogadas de uma Turquia que, perante o momento de transformação geopolítica que o mundo vive, procura “aumentar a sua influência como potência regional”, aponta Sinan Ülgen, antigo diplomata turco e investigador do think tank Carnegie Europe, em declarações ao PÚBLICO.Com o segundo maior Exército da NATO e uma das maiores indústrias de produção de drones do mundo, a Turquia mantém-se um aliado estratégico para vários países, incluindo os 27 Estados-membros da União Europeia. O PÚBLICO questionou dois especialistas sobre quais são, afinal, as ambições de Erdogan e porque é que o futuro da Turquia é essencial para a Europa.A neutralidade na UcrâniaA estratégia da Turquia passa por “ser amiga de todos e irritar o mínimo possível, mantendo a flexibilidade estratégica e maximizando os ganhos de curto prazo”, diz Grégoire Roos, director do Programa Rússia e Europa da Chatham House, um think tank britânico, referindo-se à estratégia de Erdogan na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.“A Turquia manteve-se formalmente comprometida com a sua pertença na NATO e condenou oficialmente a invasão russa da Ucrânia, mas recusou-se a impor sanções a Moscovo. Essa decisão tornou o país num verdadeiro cruzamento geopolítico para russos e outros na região”, afirma.Desde 2021 que a Turquia tem fornecido drones militares à Ucrânia, emergindo como um dos líderes mundiais nesta indústria, enquanto continua a importar energia e a atrair turismo e fluxos de capital russo, tornando-se num dos principais parceiros económicos de Moscovo.
Mas este “jogo cuidadoso” que a Turquia tem mantido entre a NATO e Moscovo poderá ter um limite, avisa Roos. Em Setembro, por exemplo, Donald Trump, o Presidente dos EUA, pediu a Erdogan, num encontro entre os dois líderes na Casa Branca, a suspensão de importações de energia russa em troca do levantamento das sanções militares impostas à Turquia em 2020.“Não se pode dizer que a Turquia e a Rússia sejam amigas; são antes vizinhos estratégicos”, continua Roos, reforçando ainda que “não existem amigos propriamente ditos nas relações internacionais, especialmente nos dias de hoje.”Médio Oriente em mudançaO 7 de Outubro de 2023, quando o Hamas atacou Israel, resultou no enfraquecimento da posição do Irão no Médio Oriente, nomeadamente na influência de milícias que se movimentam no território — e deixou a Turquia “atenta à situação de países como a Síria”, lembra Roos, onde se observou ainda a queda do regime de Bashar al-Assad, em 2024. Recentemente, Ancara renovou o mandato de destacamento das suas forças militares noutros países do Médio Oriente, entre os quais o Líbano e o Iraque.No entanto, ambos os especialistas notam que a Turquia tem um modo diferente de operar na região. O objectivo da Turquia “não é preencher o vazio deixado pela Rússia e pelo Irão no Médio Oriente”, analisa Ülgen. A Turquia “não intervém apenas militarmente, como Moscovo, mas tenta fazer “state-building” [criar um Estado através de mecanismos legais]. Em vez de apenas apoiar as Forças Armadas, procura ajudar as instituições sírias, prestar serviços básicos, treinar forças de segurança”, continua o especialista e ex-diplomata.Também Roos acredita que o interesse em relação à Síria passa pela estabilidade do país vizinho, garantindo, assim, o controlo das rotas migratórias, algo que tem coordenado com o Qatar. Desde 2016 que a Turquia mantém um acordo migratório com a União Europeia, no sentido de conter os fluxos de migrantes que atravessam o mar Mediterrâneo. Em troca, Ancara recebe benefícios financeiros e políticos. Entre estes estaria a aceleração do processo de adesão do país à União Europeia, que terá financiado o país em mais de nove mil milhões de euros.Foco na EurásiaMas o foco não está apenas no Médio Oriente. Neste momento, os interesses da Turquia “deslocam-se cada vez mais para a Eurásia”, afirma Roos, garantindo que os países da Ásia Central têm uma enorme relevância estratégica devido aos recursos energéticos e à sua posição geográfica, que faz a ligação física entre a China e os mercados ocidentais.“Há dois desenvolvimentos recentes que ilustram este interesse”, continua. “Primeiro, a Organização dos Estados Túrquicos, que reforça a influência de Ancara na região pós-soviética, tradicionalmente sob domínio russo; o ‘Corredor do Meio’, que liga a China, o Cáucaso, a Turquia e a Europa, apresenta-se como uma alternativa à Nova Rota da Seda chinesa.”No mês passado, no dia 6 de Outubro, Erdogan esteve presente na 12.ª conferência da Organização dos Estados Túrquicos, da qual fazem parte a Turquia, o Azerbaijão, o Cazaquistão, o Uzbequistão, a Quirguízia (Quirguistão), o Turquemenistão e a Hungria — este último como país observador. Em Gabala, uma pequena cidade no Azerbaijão, os vários líderes destes países discutiram o futuro da região da Ásia Central “não apenas enquanto plataforma de cooperação, mas como um “centro geopolítico sério”, disse o Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev.
A afinidade cultural e linguística poderá dar uma certa vantagem aos turcos, que competem com a China e a Rússia pela região. A Índia também desempenha um papel cada vez mais importante, especialmente com o Corredor Índia – Médio Oriente – Europa (IMEC, na sigla em inglês).“A Turquia obtém gás do Azerbaijão e do Turquemenistão, tem investimentos e empresas de serviços na região, e quer atrair esses países para a sua órbita, afastando-os de Moscovo e Pequim”, observa Ülgen, do Carnegie Europe.Para a Europa, esta região tem uma enorme relevância estratégica, a começar pela “oportunidade para reduzir dependências energéticas”, acredita Roos, que relembra que Bruxelas apenas trocou uma dependência pela outra, quando passou do GNL (Gás Natural Liquefeito) russo para o norte-americano.Ambos os especialistas em geopolítica concordam que, com o esforço de guerra na Ucrânia, Moscovo já não tem a influência histórica que chegou a ter sobre esta região, e aqueles países procuram agora fortalecer parcerias com a Turquia, ou até com países da UE.“A Turquia, que tem muitas fragilidades económicas, precisa da Europa para consolidar o seu papel económico e político; e a Europa precisa da Turquia para recuperar relevância geopolítica num mundo em que as alianças transatlânticas tradicionais estão em declínio”, conclui Grégoire Roos.










