TECNOLOGIA

A indústria da saudade

Vivemos num eterno remake. O cinema ressuscita os heróis da nossa infância e as playlists com as músicas mais recentes transbordam com os sintetizadores dos anos 1980 e com reinvenções um pouco dúbias.A moda, como sempre foi fazendo um pouco, recicla as tendências de décadas passadas, mas agora, com uma velocidade ainda mais vertiginosa. Mas esta obsessão pelo passado não é inocente, é o sintoma de um presente ansioso e de um futuro que desistimos de imaginar. Estamos imersos numa nostalgia que tem vindo a funcionar como um refúgio colectivo. Perante um presente marcado pela precariedade, pela crise climática e, sobretudo, por uma instabilidade política que parece intransponível, o passado surge como um lugar seguro e reconfortante. É uma versão edulcorada da história, higienizada das suas angústias e complexidades, posteriormente embalada como um produto de consumo rápido. Lembramo-nos da estética, das canções, dos filmes, mas esquecemo-nos convenientemente do seu contexto social, das lutas e das imperfeições que os moldaram.A título de exemplo, em 2024, os dez filmes mais vistos no mundo foram sequências, prequelas ou adaptações. Nenhum título original entrou no top 10. Ao mesmo tempo, mais de 70% do consumo musical nos EUA recai hoje sobre catálogo (faixas com mais de 18 meses), sinal de que a escuta também viaja para trás.

O problema é que, ao consumirmos incessantemente estas memórias curadas, corremos o risco de sofrer uma overdose de passado, uma paralisia criativa que nos impede de gerar novas linguagens e novas estéticas. Tornámo-nos curadores exímios do que já foi, mas aprendizes hesitantes do que ainda pode ser, sem imaginar novas utopias.




Esta preferência talvez não seja assim tão neutra. É aqui que a emoção se transforma em mercado. A “indústria da saudade” percebeu que é imensamente lucrativo vender-nos o nosso próprio passado. Ao fazê-lo, não nos oferece apenas entretenimento, explora a nossa ansiedade e oferece-nos um placebo emocional. Foram-nos administradas doses homeopáticas sem nos darmos conta ao longo do tempo. O problema é que, ao consumirmos incessantemente estas memórias curadas, corremos o risco de sofrer uma overdose de passado, uma paralisia criativa que nos impede de gerar novas linguagens e novas estéticas. Tornámo-nos curadores exímios do que já foi, mas aprendizes hesitantes do que ainda pode ser, sem imaginar novas utopias.Onde estão as vanguardas que rasgam com o estabelecido? Onde estão os movimentos culturais que não se definem pela referência, que se não refugiam na homenagem, mas pela ruptura? A reciclagem constante de fórmulas de sucesso, embora comercialmente segura, empobrece todo o nosso imaginário colectivo. Acostumamo-nos a um conforto estético que nos impede de sermos desafiados e ao mesmo tempo provocados por algo genuinamente novo. Esta atitude colectiva amorfa deixa um lastro visível à medida que o tempo passa. A arte e a cultura, quando presas na repetição, perdem a sua capacidade de nos ajudar a projectar o futuro.Porém, o perigo da nostalgia não é só cultural, é também político. Este anseio por um “passado dourado” é o terreno fértil onde florescem os discursos populistas e reaccionários. A promessa de “devolver a grandeza” ou de regressar aos “bons velhos tempos” é uma das ferramentas mais poderosas para manipular o descontentamento presente. Funciona porque apela a uma memória afectiva e não a uma análise crítica, vendendo uma fantasia de ordem e simplicidade para evitar o trabalho complexo de resolver os problemas de hoje e mantendo-nos au ralenti.Talvez, para sair desta paralisia, precisemos de uma “ecologia da imaginação”: escolas que ensinem a criar e não apenas a reproduzir, media que premiem a descoberta e não só a métrica e, sobretudo, políticas que troquem “formatos seguros” por experimentação. O passado é arquivo, não destino. Recuperemo-lo como matéria-prima, não como produto final. A música lembra-nos o risco do comodismo: o catálogo domina as audições, mas a história mostra que os surtos de novidade surgem quando há espaço institucional para a diferença.A memória continua a ser bastante importante, é um pilar da identidade, mas a nostalgia, quando se torna o modo de operação de uma sociedade, é uma armadilha. É a aceitação silenciosa de que os melhores dias já passaram. Não precisamos de apagar o passado, mas temos a urgência de deixar de o usar como um escudo contra as responsabilidades do presente. O futuro não pode ser construído com os olhos fixos no retrovisor. É tempo de ousar a imaginação e reclamar o nosso direito a um amanhã que ainda não conhecemos e que nos compete a nós, criar. A resposta não está num remake, está em imaginar o que ainda não tem nome.

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