Greve Climática Estudantil: “A vida de todos nós depende do fim do fóssil até 2030”
Numa tarde no início de Novembro, no Beco do Alfurja, em Lisboa, alguns membros da Greve Climática Estudantil (GCE) encontram-se para uma sessão de materiais. Em torno de uma lona azul, fazem faixas, bandeiras e tambores caseiros; a cor preta é predominante nestes objectos. A mensagem é clara: pedem o fim do uso de combustíveis fósseis até 2030 através de uma transição justa.É este o ponto de partida para a acção que o colectivo vai realizar em conjunto com a Climáximo, de 17, segunda-feira, a 21 de Novembro. Pretendem paralisar diversas escolas do ensino secundário em Lisboa.Para 22 de Novembro, dia em que deverá terminar a Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP30), está a ser preparada a marcha “O nosso futuro não está à venda”.
As reivindicações da GCE são conhecidas. “Escrevemos uma carta que entregámos ao Governo em Dezembro do ano passado: os estudantes exigem o fim ao fóssil até 2030, a nossa vida e o nosso futuro dependem disso”, explica Catarina Bio, uma das porta-vozes do colectivo, adiantando que a carta deixou clara a intenção de paralisar escolas como protesto, caso o pedido não fosse atendido.Segundo a estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), o Governo português está consciente de que existe “a ciência e a tecnologia necessárias para garantir esta transição justa.” A paralisação serve para reforçar este ponto: “Ao fecharmos as nossas escolas, expomos à sociedade que estamos a estudar para um futuro que não existe.”Para além das acções nas escolas, haverá mesas redondas nas faculdades de Letras e de Ciências da Universidade de Lisboa, assim como nas faculdades de Ciências Sociais e Humanas e de Medicina da Universidade Nova de Lisboa.Ponto de viragem“Neste momento vivemos um ponto de viragem”, explica o estudante de biologia André Sousa, um dos membros da GCE que encontramos na sessão de materiais daquela tarde de domingo, no beco em Alfama. “Por exemplo, a biodiversidade está a sofrer um declínio muito elevado”, continua Vasco Lourenço, outro membro do colectivo, que regista a sessão com fotografias. “Tivemos um declínio de quase 70% das espécies ao longo dos últimos 100 anos. É gigante.”
No caso específico da GCE, a prioridade é o foco no fim ao uso de combustíveis fósseis até 2030, “porque na base das alterações climáticas estão efectivamente os combustíveis fósseis”
Daniel Rocha/PUBLICO
Enquanto estudantes de biologia, Vasco e André integram o grupo de trabalhos da GCE que recolhe evidência científica. Uma das ferramentas que Vasco Lourenço destaca é o Our World In Data, uma página online que conta com investigadores da Universidade de Oxford, para divulgar estatísticas em gráficos.”É difícil traduzir todos estes modelos e complexidades”, diz. Simplificar demasiado pode ser perigoso: “Quando generalizamos, acaba por não ser o mais correcto, porque a informação não é generalista.” Há ainda a questão do impacto que estes dados têm — ou não — na população. “Podemos mostrar os gráficos e dizer claramente que a temperatura aumenta e o nível de carbono na atmosfera também”, diz o estudante de biologia. “Mas as pessoas têm que [ser capazes de] associar o que está a acontecer na parte natural [fenómenos extremos, desastres, etc.] com as emissões que estamos a causar.”Construir movimentoA escolha do Beco do Alfurja como ponto de encontro não foi ao acaso: a poucos metros, encontra-se a sede da associação GAIA — Grupo de Acção e Intervenção Ambiental, que serve de local de reunião para vários colectivos, como o Movimento Referendo pela Habitação, Rebenta, Stop Despejos, Climáximo, Todxs, Colectivo Ruptura e, claro, a Greve Climática Estudantil.A GCE começou a dar os seus primeiros passos em 2019, no âmbito dos protestos convocados a nível mundial pelo movimento espoletado pela então adolescente Greta Thunberg. Realizaram-se quatro greves em Portugal nesse ano: 15 de Março, 24 de Maio, 27 de Setembro e 29 de Novembro.No ano seguinte, a pandemia da Covid-19 resultou em menos acções e uma redução dos membros do colectivo, mas isso não impediu os estudantes de prosseguirem. Apesar de acreditar que “vários jovens já se resignaram à ideia de que não vai haver um futuro”, Catarina Bio afirma que “é essencial criar um movimento de jovens que não apenas percebe que é preciso o fim ao fóssil até 2030, como tem esperança que o podemos garantir.”
“Há vários movimentos a trabalhar com coisas diferentes, porque não se consegue fazer tudo”, explica Vasco Lourenço. No caso específico da GCE, a prioridade é o foco no fim do uso uso de combustíveis fósseis até 2030, “porque na base das alterações climáticas estão efectivamente os combustíveis fósseis”.Legislação em incumprimentoVasco é natural de Sines e vê com preocupação as ameaças ambientais que assolam o seu distrito, Setúbal. “Estão a sufocar as cidades do meio. Na zona de Tróia, começaram a construir e foi o que foi. Começaram a ir para a Comporta, o que também destruiu uma data de pinheiros e outras árvores”, descreve.Uma exploração intensiva de citrinos na zona de Alcácer ameaça os aquíferos e, “em Melides, uma firma estrangeira comprou cerca de 400 hectares de terra numa zona que é considerada reserva natural”, relata.No fundo, conclui, existe um contra-senso a nível legislativo: “Temos todos estes documentos que dizem que é preciso proteger o ambiente, mas depois acontece o oposto do que está decretado.” “As coisas estão a piorar, mas os países estão cada vez mais a aprovar projectos no sentido oposto”, lamenta. “Isso é um grande problema, porque estamos num mundo globalizado — tem que haver movimentos locais para que isto não descambe ainda mais.”Vontade popularA acção pela via legal é uma fonte de esperança, como tem sido o caso do processo movido pelas associações Último Recuso, Zero e Sciaena contra o Estado português por incumprimento da Lei de Bases do Clima. “Mostra que há vontade de fazer coisas e que há legislação por onde pegar”, reconhece André Sousa.Vasco Lourenço nota que a opinião pública já reconhece as alterações climáticas, com alguns estudos que “mostram uma sólida maioria da população portuguesa a responder que é preciso tomar acções concretas.” Este apoio popular é determinante para a acção climática, porque “acaba por fazer muita pressão no poder”.“Temos que evitar que o fim ao fóssil até 2030 seja um tiro no pé”, acrescenta André, sublinhando que é preciso que a transição seja socialmente justa. “Eles precisam de aceitar que é assim que tem que ser.”
“Sim, porque ainda vivemos numa democracia, não é? E aquilo que o povo pede devia ser feito, mas muitas vezes não é”, responde Vasco.Mitigar não é suficienteSegundo estes estudantes de Biologia que integram a Greve Climática Estudantil, a transição que o colectivo exige tem de ser estrutural. “Ninguém quer fazer investimentos perante os quais não se sinta obrigado politicamente, mas é preciso perceber que já não há mitigação que consiga salvar o planeta”, afirma André Sousa.
“Quando percebemos a urgência do que está em cima da mesa, conseguimos agir”
Catarina Bio
“No caso dos incêndios florestais, por exemplo, as pessoas dizem muitas vezes que isso é apenas uma questão de ordenamento de território — e também é. Mas a intensidade vai ser cada vez mais elevada”, explica Vasco Lourenço, sublinhando que é preciso abordar estes problemas também de uma perspectiva global. “É a mesma coisa com o recente tipping point dos corais: os corais conseguem adaptar-se, mas não se tivermos várias ondas de calor por ano.”“Já estamos a reivindicar o fim aos combustíveis fósseis desde 2019 e ainda não recebemos qualquer indicação do Governo de que vai tentar reduzir o recurso a estes combustíveis nos prazos indicados pela ciência”, relata Catarina Bio. “A vida de todos nós depende disto — e quando percebemos a urgência do que está em cima da mesa, conseguimos agir”, defende.A acção rápida perante problemas complexos não é sequer inédita, diz: “Durante a pandemia da Covid-19, construímos hospitais de campanha em semanas e criámos uma vacina em menos de um ano. Isto era visto como impossível, mas deixou de ser quando percebemos que era uma emergência real.”










