TECNOLOGIA

Redes sem fios: o guia essencial para entrar na era do Wi-Fi 7

Imagine uma auto-estrada. Durante anos, circulámos numa via com duas faixas. Com o tempo, o trânsito aumentou: mais carros, camiões de mercadorias e até motociclos a ziguezaguear. A solução inicial foi alargar a estrada (Wi-Fi 5 e 6), criando faixas mais largas e sistemas de gestão de tráfego mais inteligentes. No entanto, o congestionamento manteve-se nas horas de ponta.O Wi-Fi 7 não é apenas uma repavimentação dessa estrada antiga; é a construção de um viaduto completamente novo por cima dela, com limites de velocidade que fariam corar um piloto de Fórmula 1 e um sistema de gestão de tráfego onde os semáforos nunca estão vermelhos.Para o consumidor comum, a denominação técnica deste padrão para redes sem fios, o 802.11be ou EHT (de extremely high throughput — débito extremamente alto), pode parecer apenas mais uma sopa de letras do marketing tecnológico. Contudo, esta nova geração, designada comercialmente como Wi-Fi 7, representa o salto mais significativo na comunicação sem fios da última década. Não se trata apenas de velocidade bruta, embora esta seja impressionante; trata-se, sobretudo, de latência e fiabilidade.O objectivo não é apenas permitir descarregar um filme em segundos, mas garantir que, numa casa com vinte ou trinta dispositivos ligados em rede, a videoconferência de trabalho não soluça quando alguém começa a jogar online na sala ao lado. O número de dispositivos ligados pode parece-lhe elevado, mas, na verdade, é cada vez mais comum termos muitos mais dispositivos ligados à internet do que pensamos, consequência dos aparelhos IoT, como câmaras, lâmpadas inteligentes e electrodomésticos.Mais do que velocidadePara percebermos o salto qualitativo, temos de “dissecar” as três grandes inovações que o Wi-Fi 7 traz para as redes sem fios: a largura de banda de 320 MHz, a modulação 4K-QAM e a operação multi-link (MLO).


Comecemos pela largura de banda. Nas gerações anteriores (Wi-Fi 6 e 6E), os canais de comunicação tinham uma largura máxima de 160 MHz. Pense nestes canais como estradas por onde passam os dados. O Wi-Fi 7 duplica esta capacidade para 320 MHz. É, literalmente, duplicar o número de faixas. Isto permite que muito mais informação flua simultaneamente, o que faz diferença em aplicações exigentes como o streaming de vídeo em 8K ou em realidade virtual (VR) e aumentada (AR), que exigem débitos enormes sem compressão de dados excessiva. No entanto, é importante notar que estes canais de 320 MHz são exclusivos da banda de 6 GHz — uma frequência que, como veremos adiante, nem todos os routers ditos “Wi-Fi 7” suportam.Em segundo lugar, temos a modulação 4K-QAM. Se os 320 MHz representam a largura da estrada, o QAM (sigla em inglês para modulação de amplitude em quadratura) dita a quantidade de carga que cada camião que circula nesta estrada pode transportar. O Wi-Fi 6 utilizava 1024-QAM. O Wi-Fi 7 eleva a fasquia para 4096-QAM. Em termos práticos, isto significa um aumento de 20% na densidade de dados transportados em cada sinal. É uma optimização de eficiência pura: mesmo que não tenhamos mais espectro disponível, conseguimos “empacotar” mais informação no mesmo espaço hertziano (as radiofrequências).Finalmente, a “jóia da coroa”: o MLO (de multi-link operation). Até agora, quando ligávamos um smartphone ao router, este escolhia uma banda (2,4 ou 5 GHz) e ficava “preso” nela. Se essa banda ficasse congestionada, o desempenho caía até o dispositivo decidir mudar. Com o MLO, o Wi-Fi 7 permite que um dispositivo se ligue a múltiplas bandas simultaneamente. Imagine um carro que consegue usar duas estradas ao mesmo tempo para chegar ao destino: se uma tiver trânsito, os dados fluem pela outra instantaneamente. Isto reduz drasticamente a latência e aumenta a fiabilidade da conexão a níveis quase comparáveis aos de um cabo de rede Ethernet.O que é preciso para ter Wi-Fi 7Não basta um router novo, seja fornecido pelo operador ou adquirido pelo próprio utilizador, para tirar partido do desempenho extra. A criação de uma rede Wi-Fi 7 doméstica eficaz depende de uma tríade de condições: a ligação à internet, o router e os dispositivos cliente.Primeiro, a ligação à internet. Ter um router capaz de debitar uma velocidade de 1 Gbps é, em larga medida, inútil se o acesso à internet lá de casa estiver limitado a 100 Mbps. O Wi-Fi 7 brilha verdadeiramente em ligações de fibra óptica de 1 Gbps ou superiores. Se o contrato com o operador for inferior a isto, as vantagens de velocidade máxima não serão perceptíveis na navegação web, embora as melhorias na gestão da rede local (transferência de ficheiros entre computadores em casa, por exemplo) se mantenham.Segundo, o ecossistema. O Wi-Fi 7 exige que tanto o emissor (router) como o receptor (computador portátil, smartphone, tablet) sejam compatíveis. Tentar usar um portátil com cinco anos numa rede Wi-Fi 7 resultará numa ligação Wi-Fi 5 ou 6. O modo de Wi-Fi usado é definido pelo mínimo múltiplo comum. De outro modo, um computador com Wi-Fi 5 ligado a uma rede Wi-Fi 7 irá funcionar em Wi-Fi 5. E o contrário também é verdade: um smartphone com Wi-Fi 7 ligado a uma rede Wi-Fi 6 vai usar este último standard. Felizmente, isto também significa que os diferentes padrões de Wi-Fi são compatíveis entre si, pelo que não tem de se preocupar com a mistura, na mesma rede, de dispositivos que suportam padrões diferentes.Felizmente, o mercado já começou a mexer-se. Smartphones como os Google Pixel 8, 9 e 10, a série Samsung Galaxy S24 e S25 e os iPhone 16 e 17 já suportam Wi-Fi 7. Nos computadores, é necessário garantir que possuem placas de rede compatíveis e, crucialmente, o sistema operativo actualizado. O Windows 11, na sua versão 24H2, é praticamente obrigatório para tirar partido de todas as funcionalidades, pois o suporte no Windows 10 é limitado ou inexistente.Por último, a infra-estrutura física. A banda de 6 GHz, onde o Wi-Fi 7 atinge o seu potencial máximo (nos routers que a têm), tem um alcance físico menor do que as bandas de 2,4 ou 5 GHz. As ondas de rádio de frequência mais alta têm mais dificuldade em penetrar paredes de betão ou tijolo. Isto significa que, numa casa portuguesa típica, com construção robusta, um único router Wi-Fi 7 pode não ser suficiente para cobrir todas as divisões com a velocidade máxima. Poderá ser necessário investir num sistema mesh (malha), constituído por vários routers, ou aceitar que, ao afastar-se do router, o dispositivo cairá para a banda de 5 GHz, perdendo parte da velocidade teórica, mas mantendo a conexão e as restantes vantagens.Mais desempenho ou menor preço?Quando analisamos a primeira vaga de routers com uma nova tecnologia, é comum encontrarmos produtos imaturos ou excessivamente caros. No entanto, a Asus tem um historial de solidez neste segmento. Para esta análise, colocámos lado a lado dois expoentes desta nova geração: o Asus RT-BE88U, um router de alta performance destinada a entusiastas, e o Asus RT-BE58U (o modelo que sucede ao popular AX58U), destinado ao consumidor doméstico que procura actualizar a rede sem ir à falência.Há, contudo, um “elefante na sala” que deve ser abordado imediatamente: ambos estes routers são dual-band. Isto significa que operam nas frequências de 2,4 GHz e 5 GHz, mas não incluem a nova banda de 6 GHz.Poderá o leitor perguntar: “Mas o Wi-Fi 7 não exigia 6 GHz?” Tecnicamente, não. A norma Wi-Fi 7 (802.11be) aplica as suas melhorias de eficiência (como o 4K-QAM e o MLO) às bandas já usadas. Mas isto tem uma consequência: sem a banda de 6 GHz, não temos acesso aos canais ultralargos de 320 MHz. Estamos, portanto, perante uma implementação de Wi-Fi 7 focada na eficiência e latência, e não na velocidade bruta teórica máxima que a norma permite. É uma distinção crucial.Quando os cabos também importamAsus RT-BE88U369,90 eurosO RT-BE88U não é discreto. Com o um design em preto e dourado, antenas angulares e dissipadores de calor visíveis, grita “performance”. Mas onde este router realmente se destaca não é apenas no Wi-Fi, mas na conectividade cablada.A Asus continua a oferecer uma das melhores interfaces de gestão do mercado. A instalação inicial, quer via aplicação móvel, quer via browser, é intuitiva. O utilizador é guiado passo a passo, e funcionalidades como a detecção automática do tipo de WAN (ligação à internet) funcionam sem falhas. Para o utilizador avançado, o RT-BE88U é um sonho: suporte para VLANs, múltiplas redes de convidados com o novo “Guest Network Pro” (que permite criar redes dedicadas para IoT ou para crianças com regras específicas) e integrações VPN robustas (WireGuard e OpenVPN), que correm directamente no router sem falhas de desempenho.Performance e velocidadeAqui reside o paradoxo. Como router Wi-Fi, é excelente na banda de 5 GHz, tirando partido do 4K-QAM para espremer até ao último megabit. Nos nossos testes, a curta distância, as velocidades reais roçaram os 3,5 Gbps (gigabits por segundo), o que é notável. O MLO funciona aqui agregando as bandas de 2,4 e 5 GHz, o que oferece uma estabilidade a toda a prova. No entanto, a verdadeira mais-valia deste equipamento são as portas de rede. Ele vem equipado com uma porta 10 Gbps WAN/LAN e uma porta 10 Gbps SFP+ (fibra), além de quatro portas 2,5 Gbps e quatro portas de 1 Gbps. O que, na prática, permite até usar este router como base de uma rede de uma pequena empresa.Isto torna o RT-BE88U numa “bomba” para quem tem um servidor doméstico (NAS) ou um PC de secretária de alto desempenho. Permite criar uma rede interna a de altíssimo débito, algo que routers concorrentes de preço superior muitas vezes ignoram. A ausência da banda 6 GHz é sentida apenas se tivermos dezenas de vizinhos com Wi-Fi 5/6 a causar interferência na banda de 5 GHz; caso contrário, a força bruta deste router compensa.


As várias portas de rede de alto desempenho são adequadas a utilizadores que têm PCs ou até mesmo servidores em casa. Apesar do desempenho do Wi-Fi 7, a rede por cabo ainda consegue atingir maior performance
DR

As quatro antenas externas são removíveis (o que é raro actualmente) e oferecem uma cobertura vasta. A tecnologia RangeBoost+ da Asus parece fazer diferença, conseguindo manter um sinal utilizável em zonas da casa onde outros routers falham. É ideal para habitações de média a grande dimensão (até 150-180 metros quadrados num único piso).A opção racionalAsus RT-BE58U115,90 eurosSe o router anterior até pode ser considerado um excesso para a grande maioria das casas portuguesas, o RT-BE58U representa a voz da razão. Compacto, com antenas fixas e um design mais sóbrio, procura democratizar o acesso ao Wi-Fi 7.A base de software é a mesma do irmão mais crescido, o que é um ponto muito positivo. O utilizador tem acesso à mesma app Asus Router, aos mesmos controlos parentais gratuitos (AiProtection) e à facilidade de configuração. A diferença nota-se no hardware: o processador é menos poderoso (embora competente) e a memória é menor. Numa utilização diária — streaming de vídeo 4K na sala, dois telemóveis no Instagram e um portátil em teletrabalho —, o utilizador não notará qualquer soluço. O router gere o tráfego com mestria.


As portas de rede deste modelo são mais parcas em quantidade e velocidade, mas servem perfeitamente para as necessidades das maioria das instalações domésticas
DR

Velocidade e limitaçõesSendo um router económico, as velocidades teóricas são mais modestas. A porta WAN, a que “recebe” a internet, é de 2,5 Gbps (óptimo para preparar o futuro), mas as portas de rede LAN são de 1 Gbps (a porta WAN também pode ser usada como LAN). Nos testes, a velocidade Wi-Fi é sólida, mas não bate recordes. A vantagem do Wi-Fi 7 aqui é, mais uma vez, o MLO, que ajuda os dispositivos compatíveis a manterem-se ligados mesmo quando o sinal flutua. É um router que “simplesmente funciona”, mas não espere transferir ficheiros gigantescos instantaneamente como no 88U.O alcance é surpreendentemente competente. Por vezes, routers mais simples têm menos problemas de sobreaquecimento e mantêm uma performance estável. Cobre perfeitamente um apartamento T2 ou T3 típico. Se a casa for maior, a compatibilidade com AiMesh permite comprar um segundo BE58U e expandir a rede facilmente, uma solução muitas vezes mais barata e eficaz do que comprar um único router topo de gama.Veredicto A escolha entre estes dois modelos depende inteiramente do perfil do utilizador.O Asus RT-BE88U é, ironicamente, a melhor escolha para quem privilegia as ligações por cabo e quer um Wi-Fi extremamente robusto, mas não se importa de prescindir da banda de 6 GHz. É um equipamento para “power users”, jogadores e quem tem servidores em casa. A inclusão de portas 10G justifica, por si só, o preço elevado para este nicho. Mas um router Wi-Fi 7 de alto desempenho sem 6 GHz…O Asus RT-BE58U é a compra sensata. Traz as vantagens de latência e gestão do Wi-Fi 7 para as massas. Para quem tem uma ligação de 500 Mbps ou 1 Gbps e comprou recentemente um smartphone ou portátil novo, este router oferece uma actualização notável face aos routers normalmente fornecidos pelos operadores, garantindo maior segurança e estabilidade sem exigir um doutoramento em redes para configurar.Em suma, o Wi-Fi 7 chegou, mas nestes modelos apresenta-se numa versão “lite” (sem 6 GHz). Ainda assim, as melhorias na gestão de tráfego e latência são reais e palpáveis.

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