<em>Lobby </em>dos combustíveis fósseis reforçado na cimeira do clima: 1602 participantes
Mais de 1600 representantes de empresas ligadas aos combustíveis fósseis garantiram acesso à 30.ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), que decorre em Belém do Pará, no Brasil, até 21 de Novembro. Este número, calculado pela coligação Kick Big Polluters Out (KBPO), representa a maior concentração proporcional de lobistas na história destas conferências desde que a KBPO iniciou a sua análise.A análise da lista provisória de participantes mostra que o número de lobistas de combustíveis fósseis (carvão, petróleo ou gás natural) supera o de quase todas as delegações nacionais. O Brasil é o único país a enviar um grupo maior, com 3805 pessoas.Proporcionalmente, esta concentração de lobistas marca um aumento de 12% em comparação às negociações climáticas do ano passado, calcula a KBPO. Em jeito de comparação: os lobistas receberam dois terços mais passes para a COP30 do que o total de delegados das dez nações mais vulneráveis ao clima, que somam 1061 credenciais.A presença maciça da indústria, com quase um em cada 25 participantes a representar sectores ligados à produção e consumo de combustíveis fósseis, intensifica o debate sobre a necessidade de um quadro de responsabilização para proteger as negociações da chamada “captura corporativa”.Galp não veio à COPA influência é exercida através de diversas vias, incluindo grandes associações comerciais. A International Emissions Trading Association, por exemplo, trouxe 60 representantes, incluindo delegados de gigantes do petróleo e gás como a ExxonMobil, BP e TotalEnergies.Adicionalmente, cerca de 599 lobistas obtiveram acesso através de credenciais de “party overflow”, que lhes permitem entrar nas salas de negociação caso sejam convidados.No caso de Portugal, a delegação nacional conta com oito pessoas ligadas a empresas que a coligação KBPO classifica como ligadas aos combustíveis fósseis: seis da EDP, uma da REN e uma da Mota Engil ATIV 1. A Galp, que tem grandes interesses no Brasil, não está entre os delegados que declararam a sua filiação. Portugal tem ainda um funcionário da EDP credenciado pela delegação brasileira.Outros exemplos incluem a delegação francesa, que integrou 22 delegados de combustíveis fósseis, cinco dos quais da TotalEnergies, incluindo o seu CEO Patrick Pouyanné. O Japão trouxe 33 lobistas e a Noruega 17, seis dos quais são executivos seniores da Equinor.ContradiçõesOs membros da coligação KBPO criticam veementemente o acesso concedido à indústria, especialmente num ano que se prevê ser um dos mais quentes registados. Tom Goldtooth, da Rede Ambientalista Indígena, considera “pouco ético dar acesso a estes grandes poluidores que continuam um caminho de ecocídio e genocídio”.Já o líder da iniciativa para um Tratado sobre Combustíveis Fósseis, Kumi Naidoo, resume: “Não estamos aqui para negociar com incendiários; estamos a construir um futuro à prova de fogo sem eles.”A presença excessiva da indústria ameaça os objectivos da COP30, que o Brasil tem divulgado como um momento crucial para a concretização do Acordo de Paris. Mas as contradições já tinham começado muito antes, com a escolha da agência de relações públicas Edelman para conduzir a comunicação da COP30. A Edelman é conhecida por ter entre os seus clientes a Shell, das maiores empresas de combustíveis fósseis do mundo.São vários paradoxos que colocam em causa a promessa de uma “COP da verdade”, que tem a integridade da informação como um dos pilares centrais, nomeadamente o combate à desinformação e ao greenwashing.Obstrução climáticaA COP30, focada na concretização dos compromissos assumidos no contexto do Acordo de Paris, decorre em meio a uma onda renovada de esforços dos interesses de combustíveis fósseis para atrasar o progresso. Observadores e cientistas têm vindo a alertar que alguns destes actores utilizam esforços deliberados para estagnar, diluir ou redireccionar a ambição climática, um fenómeno que os investigadores chamam de “obstrução climática”.A Rede de Ciências Sociais Climáticas (CSSN, na sigla em inglês) lançou recentemente um estudo onde identifica 14 tácticas recorrentes de obstrução, com os países mais ricos e os produtores de combustíveis fósseis a exercerem uma influência desproporcional.O estudo antecipa que tácticas como os atrasos processuais, que se manifestam em “debates intermináveis sobre regras”, voltem a surgir. Já a manipulação da agenda, especialmente por parte dos países que são grandes produtores de combustíveis fósseis, procura “manter tópicos como a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis ou o financiamento climático totalmente fora da mesa”.Na agenda desta COP30, há cinco pontos da agenda considerados particularmente vulneráveis pelos investigadores da CSSN, do qual se destaca o Objectivo Global sobre Adaptação, uma das grandes prioridades da COP30, onde a obstrução pode surgir como a “armadilha do perfeccionismo”, através de “pedidos de dados intermináveis” ou esforços para manter o objectivo “tão vago que perca totalmente o significado”.Reformar a COP?Face à incapacidade da comunidade internacional de gerar cortes de emissões à velocidade necessária para manter o aquecimento do planeta no limite de 1,5°C, como previsto no Acordo de Paris, líderes globais e cientistas exigem uma “revisão fundamental da COP” para combater a obstrução climática e acelerar a acção, numa carta promovida pelo Clube de Roma que conta com a assinatura de nomes como Ban Ki-moon, antigo secretário-geral das Nações Unidas, Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda, e Christiana Figueres, uma das arquitectas do Acordo de Paris, enquanto líder da Convenção do Clima da ONU.A primeira medida exigida é a “melhoria do processo de selecção das presidências da COP”, através de critérios de elegibilidade rigorosos que “excluam países que não apoiam a eliminação progressiva das energias fósseis”. As próprias reuniões da COP devem ser transformadas em encontros “mais pequenos, mais frequentes e orientados para soluções”, onde os países são responsabilizados “em linha com a ciência mais recente”.Para contrariar directamente a “captura corporativa”, exige-se a adopção de “regras mais fortes de transparência e divulgação” para “melhorar a gestão dos interesses corporativos”.










