TECNOLOGIA

Centro de dados de Sines será “a primeira fábrica de IA na Europa”

Ninguém se surpreende que a edição deste ano da Web Summit, em Lisboa, tenha a inteligência artificial num papel principal. No debate global, emergem dois titãs incontestáveis — os Estados Unidos e a China — que dominam o desenvolvimento de grandes modelos de linguagem e hardware de ponta. A questão é: poderá a Europa, e por arrasto Portugal, aspirar ainda a um papel relevante neste cenário?Especialistas presentes no evento respondem que sim, embora com nuances. A Europa talvez não vença a corrida pela velocidade pura (“quem cria o maior modelo primeiro”), mas pode liderar a médio prazo no que mais importa às pessoas: a aplicação prática, a integração e a regulação da IA na sociedade.
A vantagem de “chegar depois”Num painel sobre o futuro da IA na Europa, Omer Wilson (chief marketing officer da Start Campus) e Daniel Bathurst (chief product officer da Nscale) trouxeram uma visão pragmática e optimista. Defendem a tese que a Europa não precisa de replicar o modelo americano ou chinês, mas sim de traçar um caminho próprio, centrado na especialização e na sustentabilidade.Bathurst referiu que “pudemos estudar o que se fez nos EUA e China”, sublinhando que o continente pode aprender com os sucessos e falhas dos pioneiros. Wilson reforçou a ideia: “O facto de a Europa chegar depois não é necessariamente mau. Isto é uma maratona, não uma corrida de velocidade.”Para Omer Wilson, a vantagem europeia poderá estar na forma como a IA se desenvolve e interage com as pessoas. Nesse campo, o continente poderá estar bem posicionado.O que muitos vêem como um obstáculo burocrático — a regulação — pode, segundo o responsável, tornar-se uma vantagem competitiva. Com o quadro legislativo aberto pelo artificial intelligence act da União Europeia, a Europa poderá definir o padrão global de uma IA fiável, segura e ética. “A regulação pode ser, a longo prazo, positiva. Porque todos vão acabar por tratar deste assunto. A Europa está, simplesmente, a adiantar-se”, afirmou.IA “made in Portugal” Para que esta visão de uma IA aplicada e regulada se torne realidade, é necessária uma infra-estrutura física robusta. É aqui que Portugal assume um papel central.Omer Wilson foi directo ao afirmar que o centro de dados anunciado para Sines representa “a primeira fábrica de IA na Europa” — uma metáfora para a infra-estrutura de computação de alto desempenho optimizada para cargas de trabalho de IA.O projecto da Start Campus ganha uma dimensão transformadora com o investimento já confirmado da Microsoft, de cerca de 9 mil milhões de euros, destinado à criação de um hub de computação em Sines, em parceria com a Nscale. A instalação contará com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia, tornando-se um dos principais motores de computação do continente.“Portugal é Singapura da Europa”A escolha de Portugal não é acidental. Wilson, um britânico que e mudou de Singapura para Portugal, considera que o país é “um género de Singapura da Europa”, destacando um conjunto de condições estratégicas ideais para centros de dados de IA, notoriamente exigentes em termos de energia, arrefecimento e conectividade.O CMO da Start Campus deu alguns exemplos: cerca de 81 % da energia em Portugal ter origem renovável, a competitividade do preço da electricidade e a facilidade de arrefecimento com recurso à água do mar, em Sines — factores decisivos para servidores que operam 24 horas por dia.A estes argumentos junta-se a qualidade da engenharia, a inovação tecnológica e a conectividade internacional. “Portugal é um óptimo lugar para se estar”, concluiu Wilson.

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