Afinal, qual a diferença entre um brasileiro e um português?
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Enquanto isso, na clareira da floresta, muito próximo ao mar, no começo do século XV…– Toc, toc, toc!– Boa tarde, chamo-me Mathias da Cunha! Com quem tenho o gosto em falar?– Meu nome é Baturité!– Baturité? Ai que nome tão esquisito! Bem se vê que não é cristão! Mas isso já vai logo tudo mudar…– Ai, sim! Mudar? Então por quê?– O caso é que eu vim de Portugal para instalar a civilização nesta terra de atrasados ou assim me disseram. A verdade é que ela me parece bem como está e até hoje não entendi o que é essa tal de civilização, porque só vejo uma miséria pegada! Mas o senhor entende, eu preciso ganhar o meu dinheirinho que estamos mesmo à rasca lá na minha terra, não há ocupações para ninguém, e minha família está toda a passar muita fome… Bem, deixemos de histórias: onde está o responsável pela área para darmos início ao Protocolo de Ocupação Burocrática e Emigração (POBE)?– O cacique, se calhar? Não sei… Tampouco sei se ele é esse tal responsável pelo por-no-colo…– Pôr-no-colo? Então que é isso? Você já está a acabar assim com a língua? É que vocês não sabem nem falar direito… Isto é mesmo uma terra de ninguém… Olha lá, ó Baturité, vou te dizer uma coisa e ficas lá com ela: a vida é muito, muito difícil… Eu não mando nada! Eu sou a pequena peça de engrenagem usada — e muito! — até agora e que, a partir de hoje, vai nos usar a ambos. Lá na minha aldeia, eu era explorado pela corte de Lisboa. Aqui, disseram-me que serei um explorador oficial. Já viste? É uma promoção. Talvez seja o nosso único tipo de promoção: trocar de lado no chicote, mantendo o tédio e as injustiças. Somos emigrantes, mas com um chicote.– Estou a perceber, Mathias… Mas está muito melancólico com o seu fado! Isso nem lhe faz bem! Olhe que a sua vida não é lá muito diferente da minha… bem, sei pouco a respeito, mas do que sei… Só sei que nada sei! Contudo, meu amigo, não se iluda: meu povo já tem os seus capatazes mandões e violência e injustiças… Com isso já estamos algo acostumados.– Ah, é? Que interessante! Mas olha que o nosso método ainda vai ser pior… Vamos eliminar quase a totalidade destes povos, inclusive o seu, e ainda exigir que nos agradeçam, porque trouxemos a civilização… Somos uns emigrantes refinados, está a ver? Nós não queremos respeitar a cultura de vocês, queremos eliminá-la e roubarmos, no caminho, o que pudermos. Mas nem isso vai dar lá muito certo…– Então não vai dar certo por quê? Parece-me uma coisa que eu, se tivesse cá comigo esse bacamarte…– Porque somos pobres de espírito e de dinheiro… Devemos muito e teremos de roubar muito para pagar as dívidas e a nós, os pobres, que somos pobres lá e que nem fizemos, realmente, dívidas nenhumas, só nos resta continuarmos pobres cá… E os ricos? Bem, esses vão ficar ainda mais ricos. É a vida, está a ver? Além disso, porque vamos ficar por cá e reproduzirmos cá o sistema de lá, acharemos que somos originais. E seremos outros, no fundo, sendo os mesmos! Isso vai ser mesmo uma desgraça… Já não se saberá o que há de português ou não nessas pessoas… Realmente tens razão, ó Batu, ando um bocado melancólico… Deve ser esta brisa do mar, este pôr do sol atrás do morro… Mas há uma coisa interessante, Baturité, o bom e muito cristão Rei de Portugal ordenou que a exploração seja, acima de tudo, enfadonha e baseada na ignorância: uma verdadeira Inércia Administrativa.– Então o verdadeiro presente que o amigo me traz não são esses espelhos nem essas facas, mas o elitismo duradouro documentado?– O amigo Baturité é mesmo inteligente, pá! Exatamente! Vamos plantar cá o germe de um sistema que garanta a opressão dos menos favorecidos por séculos. Seus futuros líderes não precisarão de força; precisarão de alvarás, certidões e, o mais importante, de uma cadeia de carimbos que justifique o motivo de a massa estar sendo explorada. É mais seguro. E sempre haverá quem os convencerá que a culpa é mesmo de vocês e quanto mais pobre, mais culpado… Pois, tá a ver? Eu mesmo… bem, não quero pensar. O que importa é que agora sou emigrante e colonizador!– Perde-se a terra e a liberdade, mas em troca, alguns poucos tornam-se opressores melhores, mais sofisticados, com mais papelada.– É o legado, amigo Batu. O sistema tem pressa, mas exige lentidão no seu desenvolvimento. Agora, preciso encontrar o tal cacique, foi cacique que disse, não foi? Ai, essa língua esquisita de vocês… Nunca vão aprender a falar português direito… Bem espero que ele assine o Termo de Confirmação da Dívida e Submissão ao Ócio do Trabalho Alheio. Sem a assinatura, a exploração ocorre apenas pelo caixa 2, o que não é válido para fins de contabilidade real. Vamos emigrar para cá, mas legalmente!– Eu podia assinar por ele… Pronto, isso se me conseguir alguma vantagenzita… Porque, olhe lá: alguém vai se importar em saber? E depois, são tantos caciques e todos terão de assinar, não é?– Perfeito. Já está mesmo a agir como um de nós… Ai que orgulho! Parabéns. Agora, antes de violaremos as mulheres de vocês e roubarmos e pilharmos e impormos os nossos costumes e ficarmos por cá a espera de sermos outros, temos de esperar a segunda via do requerimento. E não há nada que possamos fazer enquanto isso…
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