Enquanto isso, a arte é provocada a ter medo
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Enquanto voa o míssil com capacidade nuclear, reativando as ameaças de 30 anos atrás, aviões caem; ambientalistas começam a se manifestar na COP30; descobre-se a palavra-chave de acesso à segurança do Louvre ser “Louvre”; Nova York escolhe para prefeito um muçulmano; o mundo ainda busca entender a chacina carioca; um novo atropelamento proposital ocorre na França; despenca uma torre medieval em Roma; mais um furacão devasta o planeta, desta vez, Melissa; 30 mil raios caem em uma só noite portuguesa; morre mais uma mulher grávida sem que se definam os responsáveis… Enquanto essa pequena parte da vida nos atravessa e desaparece, a arte segue emparedada por uma guerra cultural que não precisaria ser dela.Uma das maiores complexidades da criação artística é a de, uma vez proposta ou realizada, depender de um universo de sistemas legitimadores. Alguns recusarão essa afirmação. Mas, na realidade das coisas, os artistas dependem de instituições, apoios, verbas, autorizações. E isso provoca outra perspectiva ao fazer: a de ser, de alguma maneira, uma resposta ou contrarresposta aos múltiplos poderes à sua volta. Não bastam, portanto, a inquietação, o interesse, a criatividade, a técnica; é preciso haver o desenrolar de diversos acordos estéticos, mercadológicos e políticos. A autorização, de forma geral, nunca é dada com sorrisos.Há poucos meses, a Bienal de São Paulo, entre as mais importantes reuniões de artistas visuais internacionais, viu algumas das escolhas do atual curador serem questionadas. O camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, conhecido sobretudo por seu trabalho em Berlim, optou por não nomear e legendar as obras expostas de forma explícita e direta. Grupos se dividiram entre os apoiadores da experiência de lidar com as criações sem artifícios moderadores e os que compreendem o deslocamento da informação torná-la uma imensa obra do curador, repartida em pedaços por ele apropriado.A discussão é difícil e existem bons e péssimos argumentos de ambos os lados. Lembrei-me de Paulo Herkenhoff, em 1998, na mesma Bienal, incluir entre as obras, no último andar do Pavilhão, um vídeo seu, no qual caminhava, corria e dançava pela exposição sem público, carregando uma bandeira vermelha (se a memória não me trai). Mas era, então, a chamada Bienal da Antropofagia, e nada mais justo, diante do princípio escolhido, o curador fazer de si e do evento um ato antropofágico.Não é o caso da Bienal recente, cujo tema é Nem todo viajante anda estradas: da humanidade como prática. No gesto realizado, pode se pensar o andar por entre as obras como uma deriva, tornando-o correto. Também se perguntar qual humanidade se pratica quando se subtrai o artista de sua arte, revelando-o errado. Pronto, um problema sem solução possível de agradar a ambos os lados só possível de ser resolvido pelo assumir de uma decisão.Esse é um dos poderes envolvendo as criações atuais, a institucionalização curatorial em obrigações com seu empregador e onipotente em seus argumentos. Os artistas, submetidos aos dois espectros de interesses, passam a ser apenas meios de concretizar as ideias de alguém a serviço de algo. Enquanto o público, manipulado pela própria discussão, impõe ainda mais violência à discussão ao requer uma verdade única à subjetividade do simbólico. Com isso, a arte se perde no caminho, muito antes de construir a estrada de sua própria humanidade.Recentemente, Milo Rau, encenador e dramaturgo, de quem já falei em outra crônica para este jornal, viu seu espetáculo O Julgamento de Pelicot ser desconvidado de Bitef (Belgrade Internacional Theatre Festival, na Sérvia). O problema não era o espetáculo; não lhes incomodou a história de violência contra a mulher e como lidarmos com o horror de algo assim ocorrer tão próximo de nós, com a encenação do julgamento. Foram suas palavras. Seus posicionamentos políticos contra o fascismo crescente na Europa, suas denúncias sobre a mineração de lítio.Se há o poder curatorial do festival de convidar e desconvidar, permitir e censurar, há também o poder de quem se impõe ao próprio festival. E, nesse caso, os poderosos são aqueles que dominam a economia e a política. Na confusão de nunca descobrirmos quem surgiu primeiro, as reações se tornam impossíveis de serem efetivas.Resposta à proibiçãoA resposta mais contundente e imediata à proibição foi dada pelo artista visual, encenador de teatro e ópera alemão Ersan Mondtag, quando, entre outras coisas, apontou tratar-se de pressão política disfarçada de procedimento, apenas porque alguém, em uma sala de reuniões, teve medo; e de ser preciso cuidar dos festivais para não serem ferramentas de marketing, ou chegaremos a um futuro com edifícios vazios ocupados por palavras cuidadosas.Com esse ímpeto, Milo Rau e outros se reuniram para criar o Resistance Now Together, após a demissão de Matej Drlička, em 2024, então diretor-geral do Teatro Nacional Eslovaco, em Bratislava. O coletivo iniciado para denunciar o desmantelamento cultural atual no Leste Europeu tem servido de alerta a uma percepção mais alargada: a arte ser objeto direto de ataque por líderes e estruturas não democráticas. Agora, a Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT) da Romênia junta-se ao grupo.Não se pode ter medo de defender a arte, os artistas, a liberdade e a democracia, e nem deixar de perceber tudo estar interligado de forma inesperável. O silenciamento de um ressoa imediatamente no do outro. Então, recupero mais uma lembrança, esta dos tempos em que o antigo governo brasileiro destruiu o Ministério da Cultura. O secretário, não mais ministro, durante encontro dos representantes da cultura em Paris, distorceu os fatos e acusou a esquerda de impor sua agenda política de forma perigosa.Eu, ainda integrado à recém-formada AICT Brasil, cobrei ao grupo nossa resposta oficial. Mas não veio. No silêncio havia sobretudo medo. Usei a Antro Positivo para oficializar uma carta à Unesco e à ONU, após conseguir os contatos certos. Nunca tivemos qualquer resposta. E nem por isso deixamos de seguimos com a urgência e risco necessários. Sem muito mais como lidar com o silêncio, afastei-me da associação.Aqui está um terceiro tipo de poder imposto aos artistas, desta vez, favoravelmente, em sua direção. O poder de quem vai na frente, exposto, alerta, perigoso. De certo modo, são esses, artistas ou não, os temidos pelos poderes autoritários. E se temem, é porque algo resulta.Poderes econômicosA arte, por fim, estará inevitavelmente presa aos poderes econômicos e ideológicos determinando o funcionamento das instituições e dos eventos? É preciso reconhecer, antes, a arte ter se transformado em uma espécie de moeda em circulação para a manutenção de seus interesses. Isso independe dos artistas, de como as obras são expostas, das participações, pois são impositivos anteriores e invisíveis, quase sempre percebidos somente após expropriados de seus sentidos e, então, exposto.A arte, quando não limitada por silêncios e censuras, pode existir, enquanto experiência, ao deslocamento, ao desvio, para ampliar a percepção crítica, e, os artistas, ativistas de uma proposição anárquica coletiva e inesperada. Isso se constitui na prática ao se ressignificar as estruturas produtivas e as maneiras de lidarmos com os artistas e suas produções. Um anarquismo que rompa as legitimações e suas hierarquias fabricadas de conhecimento e práxis. Portanto, ao libertar-se do medo, ainda que ele se mantenha como a sombra do fascismo que nos olha e se prepara para sorrir.Todo apoio a Milo Rau, aos artistas do cinema americano perseguidos por suas opiniões, aos que estão sendo recusados em exposições internacionais, aos que tiveram filmes cancelados, aos que perderam seus espaços e seus recursos. Há de surgir com isso um novo caminho para a arte poder, enfim, voltar a ser um desconfiar do desenho de humanidade que encontramos e do modelo civilizatório liberal atual, e não o desafio de apenas tentar sobreviver para, minimamente, ainda existir.Sugestões de leituras:> Seeing Power: Art and Activism in the Twenty-first Century, de Nato Thompson. Melville House, 2014.> After Art, de David Joselit. Princeton University Press, 2012.> Art Power, de Boris Groys. The MIT Press, 2008.> One Place after Another: Site-Specific Art and Locational Identity, de Miwon Know. The MIT Press, 2004.
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