Meter a COP30 na Rua da Betesga
A COP30 está prestes a abrir as suas portas. No dia 10 de Novembro de 2025, a conferência iniciará oficialmente os trabalhos para aqueles que conseguirem estar presentes. O repto que dominou a preparação da COP30 pode resumir-se numa provocação: COP ou laptop?Como tantos outros milhares de potenciais participantes, irei acompanhar o evento à distância. Desde o início da organização da COP30, o dilema de como receber um número tão significativo de delegações vindas de todas as partes do mundo, na cidade de Belém, no Brasil, que não possui infra-estruturas de alojamento à altura das necessidades impostas pela magnitude do evento, é uma verdadeira pedra no sapato da presidência da COP30.Com a chegada dos representantes dos Estados Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), incluindo vários chefes de Estado, membros de agências das Nações Unidas, delegações de ONG, lobistas e activistas do clima, o problema parece não ter sido solucionado a tempo.A organização das Nações Unidas chegou mesmo a recomendar oficialmente que as suas agências e organismos parceiros reduzissem o número de membros das delegações. A imprensa brasileira noticiou que, através de um documento datado de 9 de Setembro, Simon Stiell, o secretário executivo da UNFCCC, endereçou uma recomendação aos Chefes do sistema das Nações Unidas, indicando que, tendo em vista as limitações da capacidade em Belém, as equipas deviam ser revistas e diminuídas sempre que possível.Na verdade, apesar do apelo lançado pela presidência da COP30, nas cartas divulgadas publicamente que incentivavam uma participação efectiva, os preços exorbitantes da hospedagem e os desafios logísticos na cidade amazónica, agravados pelos cortes de financiamento às ONG por parte dos seus doadores, contribuíram significativamente para a redução do número de participantes que lutam pela justiça climática.
É a ironia de uma conferência global sobre justiça climática que exclui precisamente os que vivem na linha da frente da emergência.
De forma paradoxal, lobistas e representantes de grandes interesses económicos garantem a sua presença nas salas de negociação, com recursos financeiros para suportar qualquer custo. Como afirmou muito recentemente António Guterres, Secretário-Geral da ONU, durante uma entrevista divulgada no jornal Guardian: “Todos sabemos o que os lobistas querem. É aumentar os seus lucros, com o preço a ser pago pela humanidade”.Assim, a COP30 arrisca-se a tornar-se um palco desigual, onde o acesso depende muito mais da capacidade económica dos participantes do que de uma legítima representação baseada na urgência climática. Neste jogo de forças, são os países mais vulneráveis que enfrentam maiores dificuldades para fazer ouvir as suas propostas, o que tem vindo a alimentar um elitismo sustentado pelo financiamento que garante a presença de delegações e representantes. É a ironia de uma conferência global sobre justiça climática que exclui precisamente os que vivem na linha da frente da emergência.Como se não bastasse, outro alerta foi divulgado esta semana com a publicação do relatório de síntese da UNFCCC, reforçando a urgência da acção e expondo ainda mais a incoerência de uma conferência que exclui os mais atingidos.De facto, apenas 64 dos 197 países actualizaram as suas metas para o combate ao aquecimento global entre 1 de Janeiro de 2024 e 30 de Setembro de 2025, cobrindo cerca de 30% das emissões globais em 2019. Com base neste conjunto limitado de dados, não é possível tirar conclusões globais abrangentes.O adiamento por parte de muitos países na apresentação das suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês) já fazia prever dificuldades em alcançar uma abordagem conclusiva. Contudo, o maior entrave é o impacto directo que essa ausência terá nas negociações durante a COP30. Na prática, 70% das emissões globais permanecem sem qualquer compromisso claro, o que mina a confiança em qualquer projecção e enfraquece o esforço colectivo para travar a emergência climática.Esta ausência de compromissos vinculativos por parte da maioria dos países não só compromete a eficácia das negociações, como agrava o risco de ultrapassarmos limites críticos do sistema climático.Como alertou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, nessa mesma entrevista, é “absolutamente indispensável mudar de rumo para garantir que o período em que ultrapassamos os limites climáticos seja o mais breve e menos intenso possível, de modo a evitar pontos de ruptura como o da Amazónia. Não queremos ver a Amazónia transformada numa savana, mas esse é um risco real se não mudarmos de direcção e se não reduzirmos drasticamente as emissões o mais rapidamente possível”.Estamos quase a começar a COP30, e se milhares de pessoas, entre elas técnicos das agências da ONU e activistas do clima, não vão ter a oportunidade de estar presentes na cidade de Belém, pelo menos que os responsáveis dos Estados Partes, especialmente aqueles que têm maior responsabilidade por serem os principais emissores de gases com efeito de estufa, não façam desta COP mais um fracasso no financiamento climático. A humanidade agradece!










