Crise climática tornou seis vezes mais prováveis as condições que alimentaram o furacão <em>Melissa</em>
O furacão Melissa, que deixou um rasto de destruição nas Caraíbas no final de Outubro, foi intensificado de forma significativa pelas alterações climáticas provocadas pela actividade humana. A conclusão é de um novo estudo do grupo World Weather Attribution, que analisou os impactos deixados pela tempestade sobretudo na Jamaica e no leste de Cuba, onde milhões de pessoas foram expostas a fortes ventos e chuvas torrenciais.“A chegada catastrófica do furacão Melissa à Jamaica não é uma anomalia, é um sinal de alerta. Quando uma tempestade pode intensificar-se explosivamente de 112 para 297 quilómetros por hora, em menos de três dias, sobre águas oceânicas que estão cerca de 1,5 Celsius mais quentes do que o normal, estamos a testemunhar a nova e perigosa realidade do nosso mundo em aquecimento”, afirma Jayaka Campbell, da Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica.Os resultados mostram que as condições atmosféricas e oceânicas que favoreceram o desenvolvimento do furacão Melissa são hoje cerca de seis vezes mais prováveis devido à subida da temperatura média global.“Este é o furacão mais forte que já atingiu a Jamaica”, afirmou Campbell numa conferência de imprensa online, recordando que o Melissa atingiu a costa sudeste da Jamaica, no dia 28 de Outubro, já como um furacão de categoria 5 — a classificação mais intensa e destrutiva da Escala de Saffir-Simpson.Efeito amplificadorA investigação foi elaborada por 20 cientistas de universidades e agências meteorológicas de Cuba, da Jamaica, da Irlanda, dos Países Baixos, Estados Unidos e do Reino Unido. A equipa combinou três métodos distintos para avaliar o papel das alterações climáticas na formação e intensificação do furacão.Segundo os modelos utilizados, as alterações climáticas aumentaram em 7% a velocidade máxima dos ventos e em 16% a intensidade da precipitação extrema. Observações históricas indicam ainda que a quantidade de chuva acumulada em cinco dias na Jamaica e no leste de Cuba é actualmente entre 20% e 50% superior ao que se registava em tempos pré-industriais.Embora os modelos climáticos tenham limitações para estimar com precisão este tipo de eventos em regiões pouco estudadas, os investigadores afirmam, num comunicado, que os dados disponíveis apontam claramente para o efeito amplificador das alterações climáticas na intensidade da chuva provocada por Melissa.Intensificação rápidaO furacão passou rapidamente de uma tempestade com ventos de 110 quilómetros por hora para uma força devastadora de 225 quilómetros por hora em apenas 24 horas, num fenómeno conhecido como “intensificação rápida”. Estes fenómenos estão a tornar-se cada vez mais frequentes com a crise climática.Apesar dos avisos meteorológicos e da preparação das populações, os danos foram extensos em vários países das Caraíbas, incluindo a República Dominicana e o Haiti. Registaram-se menos 61 mortos, milhares de pessoas foram retiradas das próprias casas, e os prejuízos económicos ascendem a milhares de milhões de euros — o que corresponde a uma fracção significativa do PIB das nações afectadas.“O que vemos com o furacão Melissa e outras tempestades recentes é que estão a tornar-se tão intensas que em breve poderão empurrar milhões de pessoas para além dos limites da adaptação”, alerta a co-autora Friederike Otto, investigadora do Instituto Grantham, do Imperial College London, no Reino Unido, e líder do World Weather Attribution. “A menos que deixemos de queimar carvão, petróleo e gás, veremos cada vez mais países a atingir esses limites.”










