A nostalgia como sintoma contemporâneo
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Há um sentimento que atravessa o tempo presente com a delicadeza de uma névoa: a nostalgia. Ela surge como uma sombra discreta no cotidiano, insinuando o desejo de regresso a um tempo em que tudo parecia mais inteiro. Mas o que se busca, na verdade, não é o passado em si, e sim a sensação de continuidade que ele representa.Clinicamente, percebo que muitos procuram esse regresso simbólico. Não é o passado que os chama, mas a estabilidade que ele promete. Vivemos num tempo que dissolveu as margens. O futuro é instável, o presente se multiplica e o passado surge como tentativa de recompor um eixo perdido. A nostalgia, nesse contexto, não é apenas lembrança: é defesa.Ela protege do excesso de velocidade e de estímulos que o mundo impõe. Funciona como uma pausa inconsciente, uma tentativa de reencontrar o sentido da continuidade. Quando a vida psíquica se fragmenta, o sujeito busca abrigo no que já conhece. É um movimento de autopreservação diante da ansiedade do novo.Mas há um risco nesse retorno. A nostalgia pode aprisionar o sujeito num tempo que já não o contém. O apego à lembrança impede o gesto de criação. Quando o passado se transforma em ideal, o presente perde espessura e o futuro deixa de ser possível. Elaborar essa perda é o trabalho terapêutico: distinguir o que é memória viva do que é repetição.As redes sociais amplificam essa tendência. O passado é constantemente reeditado, filtrado, partilhado. A memória se torna espetáculo. E, nesse processo, a nostalgia deixa de ser experiência íntima e passa a ser produto cultural. O sujeito consome lembranças para não enfrentar o vazio do agora.A nostalgia coletiva revela um sintoma mais amplo: a dificuldade de sustentar a impermanência. Há um desejo de fixar a experiência, de deter o fluxo, de encontrar uma narrativa linear onde o tempo já é descontínuo. Essa resistência ao movimento é também resistência à transformação.O papel da psicoterapia é devolver à memória sua função simbólica. Recordar não é reviver, é reelaborar. O passado só se torna fértil quando permite reconfigurar o presente. O trabalho de análise oferece esse espaço de travessia, onde o sujeito pode olhar para trás sem se perder, e reconhecer que o tempo não é prisão, mas passagem.Talvez a nostalgia seja o sintoma de uma sociedade que perdeu o ritmo da espera. Vivemos para o imediato e, ao não suportar a ausência, buscamos refúgio na lembrança. A cura possível está em se reconciliar com o inacabado, em aceitar que o tempo não devolve, apenas transforma.O que chamamos de nostalgia pode ser, no fundo, o luto por uma experiência de continuidade que já não existe. Aceitar essa perda é também abrir espaço para um novo modo de presença. O passado não volta, mas pode servir como chão. É nele que aprendemos a sustentar o agora.
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