“Tiro ao lado”: novos planos dos países não estão nem perto de manter o clima estável
As novas promessas climáticas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris tiveram impacto mínimo nas projecções de aquecimento global, segundo o relatório anual do Programa das Nações Unidas para Ambiente (UNEP, na sigla em inglês). Mesmo que cada uma das metas nacionais seja escrupulosamente cumprida, ainda assim a trajectória de aquecimento global continua muito perigosa, com um aumento de temperatura média entre 2,3 e 2,5 graus Celsius até o final do século – quando o objectivo era manter abaixo de 1,5 graus, por comparação aos níveis pré-industriais.Intitulada Off the Target – algo como “tiro ao lado” ou “fora do alvo” –, a edição deste ano do relatório Emissions Gap Report revela valores mais simpáticos do que os do ano passado, que sugeriam um aumento de 2,6 a 2,8 graus Celsius da temperatura média global se os países seguissem à risca as suas metas climáticas, conhecidas por NDC, sigla em inglês para “Contribuições Nacionalmente Determinadas”.Não é, contudo, motivo para comemorar: a redução é em grande parte atribuída a ajustes metodológicos e não a avanços reais nas políticas climáticas. Com a saída iminente dos EUA do Acordo de Paris, parte desse progresso será revertido, subtraindo cerca de 0,1 grau Celsius à melhoria. É um pouco como ter uma dieta equilibrada em Novembro e, depois, exagerar nas festas de fim de ano – entre o diminuir e o aumentar, o ponteiro da balança quase não sai do sítio.“É um progresso, mas ainda está longe de ser suficiente”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, numa mensagem transmitida durante a apresentação do relatório esta terça-feira. “Os compromissos actuais dos países ainda apontam para uma ruptura climática”, frisou, lembrando que os cientistas já confirmaram que a ultrapassagem temporária da meta dos 1,5 graus Celsius “é inevitável”.Falhar três vezes“A conclusão é que o mundo teve três oportunidades para cumprir as promessas do Acordo de Paris – e falhou sempre no alvo”, escreve Inger Andersen, directora executiva da UNEP, no prefácio do relatório. “Embora haja progresso, este avanço é insuficiente. Precisamos de cortes de emissões sem precedentes, num prazo cada vez mais apertado e num contexto geopolítico cada vez mais desafiador”, avisou a responsável.Até 30 de Setembro de 2025, apenas 60 países tinham submetido ou anunciado novas NDC com metas para 2035. Além da falta de ambição nas promessas, o relatório revela uma grande distância entre a teoria e a prática: os países não estão nem sequer no bom caminho para cumprir as metas para 2030, que dirá as promessas de 2035.Para alcançar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, as emissões globais em 2030 precisariam de cair 40% em relação aos níveis de 2019. Este corte drástico é pouco realista e, por isso mesmo, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse recentemente que “falhámos” a meta de 1,5 graus Celsius.“É indispensável mudar de curso para que ultrapassemos o limiar de 1,5 graus o menos possível, e durante um período curto, para evitar pontos de não retorno, como na Amazónia. Não quero ver a floresta amazónica transformada numa savana”, afirmou Guterres numa entrevista conjunta ao jornal britânico The Guardian e à plataforma brasileira Sumaúma, um projecto jornalístico independente focado na Amazónia.O que é overshoot?O relatório conclui que o mundo ultrapassará a marca de 1,5 graus Celsius de aquecimento nas próximas décadas, ainda que temporariamente – ultrapassagem temporária a que os cientistas chamam de overshoot.Reverter essa ultrapassagem exigirá cortes rápidos e drásticos nas emissões, para minimizar os danos e evitar a dependência excessiva de tecnologias de remoção de carbono – que, de resto, ainda nem sabemos bem se funcionam em larga escala. Estas soluções tecnológicas, nos cálculos actuais, teriam de eliminar permanentemente o equivalente a cinco anos de emissões globais para cada 0,1 grau Celsius de aquecimento revertido.Cada fracção de grau evitada representa menos mortes de seres vivos e prejuízos económicos e ambientais, especialmente para nos países mais vulneráveis. Isto porque a subida da temperatura média global torna os fenómenos climáticos extremos mais frequentes e intensos – desde cheias repentinas a ondas de calor, passando por violentos furacões como o Melissa, que deixou um rasto de destruição em Cuba, no Haiti e na Jamaica.“A acção climática não é filantropia, é interesse nacional”, avisa Inger Andersen no relatório. Um cenário de acção rápida e robusta a partir de agora poderia limitar a ultrapassagem da a cerca de 0,3 grau Celsius, com 66% de chance de retorno à meta de 1,5 graus Celsius até 2100.Desde a adopção do Acordo de Paris há uma década, as projecções de temperatura caíram de 3 a 3,5 graus Celsius para os actuais 2,3-2,5 graus Celsius. Isto significa, garantem os autores do relatório, que o Acordo de Paris funciona – o que falta é mesmo vontade política.As tecnologias de baixo carbono também funcionam e estão mais acessíveis, com energia solar e eólica em franca expansão em muitos países, incluindo Portugal. O desafio, segundo o documento da UNEP, pertence ao domínio da política e das finanças. É preciso, alertam, por um lado apoiar a transição e a adaptação nos países em desenvolvimento e, por outro, reestruturar a arquitectura financeira internacional.O papel decisivo do G20Os países do G20 terão um papel decisivo. Este grupo, que reúne as principais economias do mundo, representa 77% das emissões globais (se excluirmos a União Africana, que agrupa 55 nações do continente).Embora sete países do G20 tenham submetido novas metas para 2035 e outros três tenham anunciado intenções, nenhum deles está no caminho para cumprir sequer os compromissos de 2030. As emissões do G20 cresceram 0,7% em 2024, revelando a urgência de uma viragem radical por parte dos maiores emissores.O Emissions Gap Report é divulgado pouco antes da Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP30), que neste ano decorre na cidade brasileira de Belém, no coração da Amazónia, de 10 a 21 de Novembro.O objectivo do documento é oferecer aos decisores políticos e técnicos um documento actualizado sobre os cenários futuros de emissões e o impacto da acção climática na subida da temperatura média global.










