TECNOLOGIA

Em família, pelo mundo maia de mochila às costas

Após uma escala de um dia em Londres e mais de dez horas de viagem, chegámos à Riviera Maia, no México. Assim que saímos do aeroporto, o calor húmido sentiu-se logo na pele. Praias, hotéis, resorts e entretenimento são a identidade de Cancún, mas a nossa diversão era outra, e por isso apanhámos o autocarro para Tulum, em direcção ao sul.Tulum é uma pequena cidade que, embora com muito turismo, fora da zona hoteleira ainda se consegue sentir alguma essência mexicana. Ficámos num pequeno aparthotel no centro, onde ainda é possível receber ajuda dos locais, comer em pequenos restaurantes familiares e comprar o pequeno-almoço numa das poucas padarias existentes. Sim, porque o pequeno-almoço por estas bandas é igual ao almoço: guisado de frango, panuchos (tortilhas recheadas com feijão e carne), tamales (massa de milho recheada com carne e vegetais) ou os famosos tacos com vários ingredientes.Já instalados, tentámos ir até Cobá, local onde se encontra aquela que é a mais alta pirâmide do Iucatão, a Nohoch Mul, com cerca de 42 metros. Mas era domingo e o transporte de ida e volta ficava tardio e passava com pouca frequência. Resolvemos aproveitar para conhecer as ruínas maias de Tulum. Apanhámos um colectivo para a Zona Arqueológica de Tulum e visitámos a única cidade maia construída na costa, hoje património da UNESCO. Sobre os penhascos que dão para uma praia, lá em baixo, estão instalados os templos do Deus do Vento, do Castelo e dos Frescos.Não podíamos deixar de conhecer os cenotes, as piscinas naturais de água doce, e acabámos por visitar os da Casa Tortuga. O percurso levou-nos por uma pequena travessia na selva, onde, de repente fomos surpreendidos por macacos que passavam de árvore em árvore, mesmo por cima das nossas cabeças.


As ruínas maias de Tulum
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De regresso ao centro de Tulum, deixámo-nos levar pelo movimento das ruas. À noite, na praça central, onde fica o Palácio Municipal, as famílias juntavam-se a conversar nas esplanadas enquanto as crianças brincavam em parques infantis e diversões instaladas.Dois dias no México e é altura de continuar a jornada. Comprámos bilhetes de autocarro para a Cidade do Belize e rumámos ao sul.Antes de passar a fronteira, fizemos uma pequena paragem em Chetumal, uma pequena cidade costeira, perto do Belize, para trocar de motorista. A viagem prosseguiu, chegámos à fronteira, e no posto fronteiriço do México fomos surpreendidos com o pedido de pagamento de uma taxa para podermos sair do país. Só a Maria, com oito anos, tinha isenção. Não havia pagamento com cartões, já não tínhamos pesos e estávamos no meio de um descampado sem nenhum banco ou comércio. Convenci o guarda a aceitar euros, lá nos deixaram seguir viagem.Belize: um mundo diferenteEntrámos no Belize e tudo nos pareceu diferente, apenas a paisagem permaneceu a mesma. As pessoas são maioritariamente negras, fala-se inglês, as construções fazem lembrar outros países colonizados pelos britânicos, casas de madeira com telhados de zinco em cima de estacas palafitas.Chegámos finalmente à Cidade do Belize e aqui deu-se um turbilhão de sentimentos. O autocarro parou num largo em terra batida, cheio de buracos, com um edifício lateral a que chamavam gare. Estávamos sem Internet, apenas com um mapa impresso em papel com o local onde iríamos ficar alojados. Começámos a atravessar a cidade, as ruas eram sujas, construções velhas e pessoas de cara fechada. Sinceramente, seguimos a medo.


Caye Caulker, Belize
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Procurámos um banco para levantar dinheiro e comprar um cartão para o telemóvel. Um rapaz todo sujo, veio na nossa direcção de bicicleta e perguntou-nos se precisávamos de ajuda. Desconfiados, dissemos que não. Progressivamente, fomo-nos apercebendo de que as pessoas ajudavam com toda a simpatia e boa vontade, não queriam nada em troca. Houve quem parasse o carro no meio da estrada para sair e vir-nos indicar o hotel onde íamos ficar, ou o guarda-costas de um juiz (pelo menos, vestia uma toga e soubemos depois que o edifício de onde ele saíra era o Tribunal Superior do Belize) que nos veio dizer que ponte tínhamos de atravessar para seguir na direcção certa.No dia seguinte, apanhámos um barco e fomos até Caye Caulker, uma ilha no mar das Caraíbas onde a vida corre descontraída. Praia, boa gente, pouco turismo, um ambiente simplesmente espectacular. Numa barraca na praia, almoçámos frango assado e lagosta. O dia passou-se na praia, em águas azul-turquesa povoadas de pequenos peixes e de pessoas bem-dispostas, que entre risos, nos iam contando histórias das suas vidas.Enquanto esperávamos no cais para regressar à Cidade do Belize, eu e a Maria desviámo-nos para um dos marinheiros passar com um carrinho de carga. Vendo a pressa com que saímos da sua frente, disse-nos aquilo que melhor define o Belize: “Calma, não precisam ter pressa, tenham o tempo que quiserem, há tempo para tudo.”Na Cidade do Belize, toda a gente nos cumprimentou e estiveram sempre prontos a ajudar com um sorriso que contagia. O Belize foi uma boa surpresa. Pouco turismo, boas praias e gente simpática que ajuda de coração.


Guatemala: as ruínas de TikalTrês dias depois, e com muita pena nossa, deixámos o país. Apanhámos um autocarro que nos levaria à Guatemala. A meio da viagem, no rio Mopan, passámos a fronteira com a Guatemala sem contratempos e três horas depois chegávamos à cidade de Flores, que iria servir de base para visitarmos Tikal, um dos sítios arqueológicos mais impressionantes do mundo maia.Flores é uma ilha encantadora, no lago Petén Itzá, símbolo da resistência indígena maia, conquistada pelos espanhóis em 1697 e posteriormente abandonada. Hoje, a ilha, com as suas ruas empedradas e casas coloridas, ainda guarda traços da época colonial. É um ponto de encontro de viajantes de todo o mundo.


A cidade de Flores
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Não podíamos esperar mais e no dia seguinte logo pela manhã fomos em direcção a Tikal. Apanhámos um minibus que nos levaria pelo meio da selva até Tikal, na Reserva da Biosfera Maia. Até lá, é um pouco mais de uma hora de viagem. Com a ajuda de uma guia, fomos percorrendo o parque.Um dos momentos esperados foi o da chegada à praça central, um lugar magnífico. Numa das extremidades está o Templo do Jaguar, a pirâmide número um, a mais emblemática e fotografada deste parque e da Guatemala, construída para homenagear o grande governante Jasaw Chan K’awiil I, que reinou durante o século VIII. Junto às ruínas ouviam-se os gritos roucos dos macacos-aranha que vão acompanhando toda a visita e que, por vezes, se viam a saltar de ramo em ramo no alto das árvores. A certa altura, a guia disse-nos para esperar, pois o rugido que se ouvia parecia ser o de um jaguar. Esperámos um pouco e acabámos por avançar mais lentamente.A maior parte das ruínas de Tikal ainda se encontra tapada pela selva, propositadamente, para as edificações se manterem preservadas.


Ruínas de Tikal, Templo do Jaguar
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No dia seguinte, ainda fomos até San Miguel, nas margens do lago Petén Itzá, onde a Maria acabou por fazer amizade com uma menina da mesma idade, e mantiveram contacto até hoje.Viajámos para Antígua durante a noite com uma breve paragem na Cidade da Guatemala.


Na ilha de Flores
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No chicken busChegámos a Antígua. Nesse dia, ia haver festa, por isso, a praça central estava vedada e toda enfeitada. Apesar dos terremotos (1717, 1751 e 1773) que assolaram a cidade, ainda hoje aquela guarda o esplendor de quando foi capital da Capitania Geral da Guatemala. As ruas são de pedra irregular ladeadas por casas baixas, quase todas pintadas em tons vivos com grandes portas de madeira e janelas com grades de ferro forjado.O ex-líbris da cidade é o Arco de Santa Catalina, construído no século XVII, fazia parte do Convento de Santa Catalina Virgen y Mártir, que abrigava freiras em clausura. Mas há mais para ver, a Catedral de San José no Parque Central, o Convento de la Merced, as ruínas do Convento de Santa Clara, o Miradouro do Cerro de la Cruz e o mercado que é passagem obrigatória, um lugar vibrante onde se sente a mescla da cultura indígena com o legado colonial, sobretudo na gastronomia.Da cidade vêem-se os vulcões Áqua, Acatenango e Fuego, este último activo e onde, por vezes, é possível ver pequenas erupções, sobretudo à noite.No dia seguinte, fomos para o lago Atitlán, mais precisamente para Panajachel. Acordámos cedo e fomos apanhar um chicken bus. Trata-se de autocarros escolares dos EUA, daqueles amarelos, que são pintados com várias cores, com cromados, muitas luzes e bandeirolas, e assim se transformam no meio de transporte público mais tradicional da Guatemala. Uma viagem pode demorar mais ou menos tempo, dependendo do número de transbordos que se faz. O mesmo trajecto pode variar de dia para dia.


Pelo lago Petén Itzá
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Apanhámos o primeiro chicken bus, sempre com música alta, mas a viagem foi correndo bem até mudarmos para o segundo. A camioneta já ia cheia, apesar de o homem que cobrava o bilhete continuar a dizer que ainda cabiam mais. Sentei-me ao lado de um mexicano que estava de visita à Guatemala e também fazia questão de experimentar a loucura daqueles transportes.A meio da viagem íamos cinco num assento para dois. Continuavam a entrar e a sair pessoas mesmo com a camioneta em movimento. Depois de quatro transbordos, chegámos a Panajachel, nas margens do lago Atitlán. O lago, cujo nome vem do idioma nahuatl, significa “lugar entre as águas”. É talvez um dos mais bonitos do mundo. Ao seu redor, os vulcões Atitlán, Toliman e San Pedro erguem-se como sentinelas.Instalámo-nos numa casa perto do lago e fomos explorar a vila. Tal como em Antígua, aqui, sobretudo as mulheres, ainda vestem os trajes tradicionais, bordados à mão com cores fortes e desenhos simbólicos, sobretudo pássaros. Ouvem-se falar línguas maias, o espanhol só é falado com os estrangeiros.


No lago Atitlán, Guatemala
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Entre línguas maiasNos dias seguintes explorámos o lago Atitlán. Há táxis marítimos para turistas, mas nós preferimos ir com os locais. A primeira paragem foi em Santa Cruz la Laguna, uma pequena povoação no cimo de uma encosta, a cerca de 1600 metros de altitude, onde é raro encontrar alguém que fale espanhol. Aqui fala-se kaqchikel, uma das 24 línguas maias. O centro da aldeia é peculiar, um campo de jogos ladeado por uma igreja, uma escola, a câmara e a polícia. No campo estavam crianças a ter uma aula de Educação Física.Descemos a encosta, apanhámos outro barco e fomos a San Marcos la Laguna, uma pequena aldeia famosa pelos retiros de meditação, ioga e terapias alternativas. Neste povoado de ruas estreitas tem-se a sensação de isolamento e contacto com a natureza.No outro extremo do lago, está Santiago Atitlán. Culturalmente muito rica, é conhecida pela devoção a Maximón, uma figura que combina crenças indígenas e católicas, representado por uma figura humana vestida com roupas coloridas e chapéu, a quem os crentes oferecem velas, dinheiro e tabaco a troco de protecção.A viagem estava a chegar ao fim. Antes do regresso, voltámos a passar pela Cidade da Guatemala, onde fomos surpreendidos com um sismo de magnitude 5,3 na escala de Richter. O abalo, ainda que breve e com algumas réplicas, deixou-nos apreensivos. Mas daqui voámos para o México e depois de regresso a Portugal.A Guatemala é um país de gente simpática e acolhedora. Não há muito turismo, talvez por isso seja um país tão genuíno e especial.


Vulcão Atitlán à vista
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