TECNOLOGIA

Cancro colorretal: novos desafios exigem novas respostas

O cancro colorretal é uma das doenças oncológicas mais frequentes — os dados da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC) mostram que, em 2022, foi o mais frequente em Portugal (15,2%), sendo a terceira causa de morte por cancro no nosso país, e foi, durante décadas considerado uma doença das pessoas mais velhas. E ainda que a idade se mantenha como um dos fatores de risco, têm sido notificadas taxas crescentes de incidência daquilo que chamamos cancro colorretal de início precoce, ou seja, antes dos 50 anos.Esta é a nova realidade: nas últimas três décadas tem-se registado um aumento consistente dos casos em adultos jovens, sobretudo nos países ocidentais. Uma tendência preocupante, que desafia as conceções tradicionais sobre esta doença e nos coloca perante um cenário que exige uma reflexão, sobretudo no sentido de identificar todas as razões que estão na origem desta mudança.Para já, sabe-se que fatores como o sedentarismo, uma dieta pobre em fibras e rica em alimentos processados, o excesso de peso, o consumo de álcool e tabaco, bem como as alterações no microbioma intestinal (conjunto de microrganismos que habitam no nosso intestino) poderão desempenhar, aqui, um papel importante.


A boa notícia é que estes são fatores modificáveis — ou seja, podemos agir sobre eles. É fundamental promover hábitos de vida mais saudáveis e, ao mesmo tempo, sensibilizar médicos e doentes para sintomas que muitas vezes passam despercebidos nos mais jovens: alterações persistentes do trânsito intestinal, sangue nas fezes, dor abdominal inexplicável ou perda súbita de peso. Reconhecer estes sinais precocemente pode ser determinante, já que cerca de um em cada quatro diagnósticos ainda ocorre em fases avançadas, quando a doença já se espalhou para outros órgãos (metástases).Em cerca de 10% dos casos, existem fatores genéticos que aumentam o risco de cancro colorretal. Algumas mutações hereditárias podem transmitir-se entre gerações, elevando significativamente a probabilidade de desenvolver a doença. Por isso, quem tem familiares diretos com este diagnóstico deve informar o seu médico e iniciar o rastreio mais cedo.O rastreio é uma das ferramentas mais poderosas na luta contra o cancro colorretal, permitindo detetar lesões numa fase inicial — ou até preveni-las. Em Portugal, recomenda-se o início do rastreio aos 50 anos (ou antes, em casos de risco familiar). No entanto, várias sociedades médicas internacionais já sugerem começar aos 45 anos, uma mudança que, embora positiva, aumenta a procura por colonoscopias e outros meios de diagnóstico. Atualmente, o programa nacional de rastreio é gratuito e abrangente, mas ainda longe de atingir o objetivo de cobrir 90% da população — as taxas atuais rondam apenas 41%.O rastreio começa habitualmente com um teste de sangue oculto nas fezes. Se o resultado for positivo, o passo seguinte é a colonoscopia, um exame realizado com sedação leve ou anestesia ligeira e em ambiente seguro, que permite observar o cólon e remover eventuais pólipos ou lesões suspeitas durante o mesmo procedimento.A investigação científica tem avançado a passos largos, oferecendo métodos de prevenção, diagnósticos mais precoces e tratamentos cada vez mais eficazes e personalizados e menos agressivos. Dependendo do estádio da doença, as opções terapêuticas abrangem desde as abordagens clássicas — como a cirurgia, potencialmente curativa nos estádios iniciais, ou a quimioterapia como complementar da cirurgia ou em fases mais avançadas, com novos fármacos que permitem prolongar a vida mantendo a sua qualidade —, até inovações que traduzem décadas de investigação científica e que estão a mudar o paradigma do tratamento, graças aos novos fármacos com mecanismos de ação mais precisos e eficazes e que num futuro não muito distante poderão mesmo evitar a cirurgia nalguns casos muito particulares e selecionados.A medicina de precisão assume crescente protagonismo, oferecendo tratamentos individualizados para cada doente. Porque, hoje, a oncologia já não encara o cancro colorretal como uma entidade única, mas como um conjunto de doenças diferentes, caracterizadas por alterações genéticas e moleculares específicas. E é com base nessa informação individual que os médicos podem escolher tratamentos adaptados a cada caso — a chamada medicina de precisão, modelo que aumenta as hipóteses de sucesso e reduz efeitos secundários, permitindo terapias mais eficazes e seguras.Há algo que continua nas nossas mãos: a prevenção. O papel do doente revela-se fundamental, sobretudo quando se trata de reduzir o risco de cancro colorretal. Embora seja impossível eliminar totalmente a probabilidade de desenvolver a doença, múltiplas estratégias contribuem para reduzir o risco e manter a saúde de uma forma global, adotar uma alimentação rica em frutas, legumes e fibras, a manutenção de um peso saudável, moderação do consumo de álcool e cessação tabágica. Medidas que, aliadas ao cumprimento dos rastreios recomendados pelas organizações internacionais e nacionais — Direção-Geral de Saúde (DGS) — e em última análise pelo médico assistente, podem efetivamente compor uma estratégia poderosa de proteção e fazer a diferença na prevenção desta patologia.Esta responsabilização coletiva torna-se imperativa face à transformação do perfil epidemiológico do cancro colorretal, que, como já vimos, afeta crescentemente adultos mais jovens. O rastreio é a chave da prevenção, a colonoscopia é segura, eficaz e indolor, e os avanços na investigação oferecem novas terapias capazes de transformar a vida dos doentes. Esta tríade — informação, prevenção e diagnóstico precoce — continua a representar a estratégia mais eficaz no combate a esta doença (e a outras também).O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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