“Está na hora de acabar com o nós e eles”, diz Tiago Nacarato, em turnê pelo Brasil
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O cantor e compositor português Tiago Nacarato, 35 anos, pôs mais uma vez o pé na estrada, reforçando os laços artísticos que unem Brasil e Portugal. Segundo ele, que iniciou nesta quarta-feira (29/10), em Belo Horizonte, Minas Gerais, sua quinta turnê pelo país, a música é uma ponte que deve aproximar as duas nações, espantando para bem longe qualquer sentimento de xenofobia. Filho de imigrantes brasileiros, o artista, que nasceu e vive no Porto, acredita que não existe diferença entre “nós e eles”, e que tudo não passa de uma política populista de direita.”Eu fico muito revoltado com isso. Os imigrantes não são o problema. Pelo contrário, eles resolvem muitas questões de um país em desenvolvimento, que se quer mais rico. O que está a acontecer são medidas populistas de uma direita que surge agora”, avalia ele. “A música e a cultura deveriam ser um sinal de que somos todos irmãos. Está na hora de acabarmos com essas diferenças, acabar com isso de ‘nós e eles’. É algo que não faz sentido. Nós vivemos com ideias do mundo todo, com tecnologias de países diferentes do nosso. São carros chineses, telemóveis [celulares] chineses. Essa questão é nonsense”, acrescenta.Ao lado do trompetista português Diogo Duque, que mora em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, o cantor, cujo sobrenome é italiano, percorrerá 13 cidades de várias regiões brasileiras. A última apresentação será em 20 de novembro, no Rio. Os shows, de acordo com Nacarato, são uma mistura intimista de canções autorais e releituras de clássicos da música brasileira. Só que, desta vez, em dueto.“Para esta turnê, acrescentei um músico que toca trompete, flauta e piano. Mas será uma coisa muito parecida com aquilo que eu tenho feito nas minhas apresentações anteriores”, explica ele.
Tempos da ditaduraSobre a música portuguesa não chegar ao Brasil com a mesma força que a brasileira é tocada em Portugal, o cantor culpa o regime autoritário de Salazar, que durou de 1933 a 1974. “Concordo cem por cento com isso. Mas é fácil de explicar o porquê. De alguma forma, nós ficamos órfãos de cultura, de liberdade e de criatividade com o Salazarismo. O Salazar foi muito decidido a acabar com tudo que não fosse fado, com tudo que ele achasse que não fosse português de raiz”, lamenta.Ele acrescenta: “No Brasil, o samba quando surgiu, a polícia também não queria, mas houve resistência, houve a continuidade daquilo, a ponto de o samba ser um dos ritmos mais ouvidos no mundo inteiro. Acho que é a mesma coisa com o forró, o baião. Em Portugal, a gente se resignou”, ressalta.Nacarato, que teve seu primeiro violão aos 16 anos, ganhou projeção nacional quando participou do The Voice Portugal, em 2017. No início, ele confessa que estava com receio de aparecer num reality musical na TV.
Tiago Nacarato pensa em se mudar para o Rio de Janeiro para difundir seu trabalho pelo Brasil
Divulgação
“Foi uma grande rampa de lançamento. A experiência toda foi muito positiva, apesar de eu estar com pé atrás. Hoje, penso diferente. Em 2017, estava mais fechado a novas possibilidades, estava um bocado receoso. Mas depois acabou por tudo ser maravilhoso. O programa me deu muita visibilidade e saí de lá cheio de amigos”, elogia.Mudança para o BrasilDe tanto cruzar o Atlântico — a primeira turnê foi em 2018 —, o cantor já pensa em morar no Brasil. “Acho que está chegando esse momento. Estou inclinado a ir para o Rio de Janeiro, que é uma cidade muito bonita e, de lá, facilmente estamos em São Paulo. São dois polos muito fortes da música. Gosto de Belo Horizonte também, onde tenho amigos, mas sinto que, profissionalmente, seria melhor ir para o Rio”, ressalta. “Talvez passe janeiro e fevereiro do ano que vem lá”, frisa.Nacarato admite que tem curiosidade em conhecer melhor o carnaval brasileiro, apesar de não gostar de lugares com muita gente. “Já passei um pré-carnaval no Rio. Fui à quadra da Portela e tudo. Mas tenho vontade também de ir a Olinda, por causa do frevo”, planeja.Com dois álbuns lançados, Lugar Comum (2019) e Peito Aberto (2022), este último gravado no estúdio de Rui Veloso, o cantor lembra que recebeu seu primeiro cachê como músico aos 18 anos. À época, ele estudava cinema na Universidade Católica do Porto.
“Eu recebi uma proposta para tocar num cruzeiro. Então, congelei a matrícula na faculdade e fui. Mas deu ruim nesse cruzeiro e acabei arranjando um trabalho na praia. Ou seja, ficar tocando o fim de semana inteiro. Foi assim que eu ganhei o meu primeiro cachê”, diz.
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