Nvidia, a história da empresa que vale 5 biliões de dólares
A ascensão da norte-americana Nvidia, empresa que desenvolve chips, tem sido vertiginosa, sobretudo na última década. Fundada em 1993, a Nvidia nasceu num pequeno escritório em Santa Clara, Califórnia, pelas mãos de três engenheiros — Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem — que acreditavam que o processamento gráfico, então restrito a nichos profissionais e videojogos rudimentares, seria a base da computação do futuro. Passados 32 anos, a Nvidia foi a primeira empresa a atingir a capitalização bolsista de cinco biliões de dólares, cerca de 4,3 biliões de euros.Dos videojogos ao domínio do silícioNos anos 90, o mercado das placas gráficas era um campo de batalha entre vários fabricantes: 3dfx, S3 Graphics, Matrox, Trident, e a canadiana ATI dominavam a atenção dos entusiastas. A Nvidia entrou nesse universo em 1995 com a NV1, uma placa que misturava gráficos, som e até compatibilidade com a consola Sega Saturn, mas que não convenceu o público. A verdadeira viragem chegou em 1999, quando lançou a placa gráfica GeForce 256, com um processador que foi considerando o primeiro GPU moderno — graphics processing unit ou unidade de processamento gráfico, termo que a própria empresa cunhou.Essa inovação transformou o mercado e marcou o início da hegemonia tecnológica da Nvidia. A concorrência começou a desaparecer: a 3dfx, fabricante das míticas placas gráficas Voodoo, faliu em 2000 e foi adquirida pela própria Nvidia, enquanto a ATI, criadora dos processadores gráficos Radeon, resistiu até ser comprada pela AMD, em 2006 — a única verdadeira concorrente da Nvidia actualmente no segmento dos GPU. A empresa californiana consolidou-se como líder incontestada do segmento de processadores gráficos, impondo um ritmo de inovação anual com nomes de código que se tornaram referência: GeForce, Tesla, Fermi, Pascal, Turing, Ampere, Hopper e, mais recentemente, Blackwell.
A reinvenção em torno da inteligência artificialDurante anos, a Nvidia viveu do sucesso das suas placas gráficas para videojogos, mas Jensen Huang percebeu cedo que o verdadeiro potencial dos GPU estava para lá do entretenimento. Ainda em 2006, a empresa lançou a plataforma CUDA, que permitia usar o poder massivo dos processadores gráficos para cálculos científicos e aplicações de computação paralela. Foi esse passo que, mais tarde, colocaria a Nvidia no centro da revolução da inteligência artificial (IA).Quando a aprendizagem de máquina e outros algoritmos baseados em processamento de dados começaram a transformar a investigação e os negócios, já a empresa tinha uma vantagem tecnológica difícil de alcançar. Os data centers (grandes servidores) de IA, que treinam modelos com biliões de parâmetros, passaram a depender dos processadores da Nvidia. A arquitectura Hopper, lançada em 2022, e a sucessora Blackwell, em 2024, tornaram-se a base de quase todas as infra-estruturas de IA generativa — desde os supercomputadores da OpenAI (criadora do ChatGPT) e da Google, até às redes de investigação médica e científica.O crescimento em bolsa acompanhou essa dependência global. A Nvidia demorou trinta anos a atingir o primeiro bilião de dólares em capitalização de mercado, em 2023. Mas bastaram meses para chegar aos dois biliões, no início de 2024, e apenas semanas para cruzar as marcas dos três e quatro biliões. Agora, ao atingir os cinco, a empresa consolida uma posição quase simbólica: é a locomotiva da economia da IA.Jensen Huang, o arquitecto de uma visãoDesde o primeiro dia, a Nvidia teve um único CEO. Jensen Huang, engenheiro taiwanês naturalizado americano, é hoje uma das figuras mais influentes da indústria tecnológica. Conhecido pela sua comunicação carismática e pelo característico blusão de cabedal, Huang construiu uma cultura empresarial de inovação contínua e risco calculado. É também o grande responsável pela diversificação da Nvidia, com investimentos em áreas como a condução autónoma, o design industrial assistido por IA e a simulação de mundos virtuais através da plataforma Omniverse.Sob a sua liderança, a empresa manteve-se fiel ao modelo “fabless” — sem fábricas próprias, delegando a produção à TSMC, em Taiwan — e apostou num ecossistema integrado de hardware e software que a tornou praticamente intocável. Enquanto rivais como a Intel tentam recuperar terreno, e a AMD luta por quotas no segmento dos servidores e processadores gráficos, a Nvidia tornou-se o “fornecedor essencial” de uma nova era de computação.
Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, ganhou o estatuto de super-estrela. Nos eventos onde participa, normalmente vestindo um casaco de pele preto, é recebido em apoteose pelos fãs
Ann Wang / REUTERS
Mais, num género de acertar de contas com a história, a Nvidia acabou por investir na Intel já este ano, uma acção que, segundo muitos analistas, terá salvo a empresa que criou a arquitectura base dos PC, o x86, e produziu processadores como os 486, os Pentium ou os Core. Em 1993, ano da fundação da Nvidia, a Intel era a maior empresa de semicondutores do mundo, com uma avaliação bolsista acima dos 14 mil milhões de dólares. Mesmo já no início deste século, a Nvidia continuava a ser vista com um género de David e a Intel um grande Golias.O xadrez geopolíticoO sucesso, porém, traz desafios. Os processadores Blackwell, desenhados para IA generativa, estão sujeitos a controlos de exportação dos Estados Unidos para a China. O próprio Presidente norte-americano, Donald Trump, referiu esta semana que planeia discutir com Xi Jinping a questão da venda destes chips, que Pequim considera estratégicos.
Apesar das incertezas políticas, os investidores continuam optimistas. As acções da Nvidia subiram cerca de 5% esta quarta-feira, ultrapassando os 211 dólares (cerca de 180 euros) durante a manhã, impulsionadas por notícias de uma parceria com a Nokia avaliada em mil milhões de dólares para o desenvolvimento de redes 5G e 6G concebidas desde a origem para integrar IA.A era dos cinco biliõesCom esta nova valorização, a Nvidia distancia-se da Apple, actualmente com quatro biliões de dólares, e da Microsoft e Alphabet, ambas entre os três e os quatro biliões de dólares. Trinta anos depois de ter sido apenas uma startup a tentar sobreviver num mercado novo, mas saturado, a Nvidia é hoje o epicentro da revolução tecnológica mais relevante do século XXI.










