CIÊNCIA

Nas ruas de Belém, povos de todo o mundo gritaram por justiça climática

A capital do estado brasileiro do Pará, Belém, transformou-se no epicentro do activismo climático na manhã deste sábado com uma enorme Marcha Global por Justiça Climática. A marcha organizada pela Cúpula dos Povos, espaço da sociedade civil alternativo à 30.ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), mobilizou mais de 50 mil pessoas de todo o mundo, incluindo líderes e movimentos de 65 países, de acordo com a organização. Frases de ordem como “o que acontece na Amazónia não fica só na Amazónia” ou “a periferia não é a margem, a periferia é o centro” dão o tom das reivindicações.Depois de quatro anos em que a ONU poder-se-á ter “desacostumado” de grandes protestos durante as conferências do clima, a mobilização é o auge de uma semana agitada na COP30, que contou com uma tentativa de entrada de manifestantes não registados na Zona Azul, onde decorrem as negociações, e um protesto do povo Munduruku que, na sexta-feira, dificultou a entrada no recinto durante algumas horas, resultando na garantia de Lula da Silva de protecção de dois territórios indígenas daquela etnia.A jovem ribeirinha Sabrina Conceição não veio do outro lado do mundo, mas teve que viajar quase mil quilómetros desde a sua comunidade em São Domingos, no município de Belterra, às margens do rio Tapajós, até à capital do estado do Pará. “É a primeira vez que faço uma viagem para longe”, conta a jovem de 20 anos, que segura uma faixa das “Mulheres empreendedoras da floresta”.


Marcha Global durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) defendeu pela justiça climática e protecção territorial
REUTERS/Adriano Machado

São duas dezenas de mulheres de várias comunidades do Pará que formaram este colectivo para representar as comunidades ribeirinhas, povoações que vivem nas margens dos rios, dependentes da pesca, da colheita de produtos como açaí e castanha e da agricultura familiar​. “Cada dia tenho aprendido mais com essas mulheres, tem sido uma experiência muito incrível”, relata. Os problemas, descreve Sabrina Conceição, são “bem idênticos”: precisam de mais apoio para os seus meios de subsistência, de cultivo e extracção de produtos silvestres, numa altura em que a desflorestação e a poluição “vão crescendo cada ano que passa”. E a cada ano que passa, descreve, o clima “vai esquentando mais”.“Guardiões da vida”Amplificando as vozes da sociedade civil em nome de uma transição justa, em particular para o Sul Global, o grande objectivo desta Marcha Global por Justiça Climática, de acordo com a organização, é reforçar “a urgência de fazer com que as vozes da rua – dos atingidos, das periferias, dos povos indígenas e dos trabalhadores – sejam escutadas nas mesas de negociação da COP30”.


As ministras brasileiras Marina Silva e Sônia Guajajara
EPA/ANDRE BORGES

Também as ministras brasileiras do Ambiente, Marina Silva, e dos povos indígenas, Sônia Guajajara, marcaram presença, reconhecendo as ruas como um espaço fundamental para a democracia e a justiça climática.“Nós, povos indígenas, que sempre estivemos aqui, nos juntamos neste momento para receber o mundo”, afirmou Sônia Guajajara. “Aqui se tornou, neste momento, a Zona Azul da COP30, onde se encontram os guardiões e as guardiãs da vida”, afirmou ainda, numa referência a uma área da COP30 de acesso restrito apenas a negociadores e observadores aprovados pelas delegações nacionais, sobre a qual recaem críticas de não haver representação suficiente dos povos indígenas.Marina Silva lançou farpas às conferências do clima dos últimos anos, “em outras realidades políticas do mundo, onde as manifestações eram feitas apenas dentro do espaço da ONU”. Nas três COP anteriores, no Egipto, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão, a sociedade civil não pôde organizar protestos fora do recinto da conferência. “Agora, no Brasil, um país do Sul Global, de uma democracia conquistada e consolidada, sejam bem-vindos às praças.”A ministra do Ambiente repetiu as palavras do Presidente Lula da Silva de que a prioridade deve ser o fim da dependência dos combustíveis fósseis. “Nós temos que fazer o mapa do caminho para a transição, para o fim da dependência de carvão, de petróleo e de gás”, afirmou – uma reivindicação, contudo, que contrasta com as decisões do país de fazer novas prospecções de petróleo. Ouvir todas as vozesAo longo do percurso de mais de quatro quilómetros, o PÚBLICO cruza-se com Puwe Puyanawa, que veio de Mâncio Lima, localidade do Norte do estado do Acre, na fronteira com o Peru, a três mil quilómetros de distância.Membro do povo Puyanawa no Acre, “José Luís” Puyanawa (o seu nome português) ressalta que “mudança climática é um tema para todos”. As mudanças no seu dia-a-dia saltam à vista, desde a seca e a desflorestação que ameaçam a segurança alimentar até à contaminação das águas em resultado da mineração.“As vozes de muitos líderes não estão conseguindo ser ouvidas”, lamenta, num aceno à falta de participação concedida aos povos indígenas nas decisões sobre os seus territórios, que ficam restritas a políticos e empresários. As comunidades indígenas e ribeirinhas, explica, continuam “cuidando da floresta, independentemente da COP”. As comunidades estão preparadas para contribuir, defende, e “o mundo precisa reconhecer isso”.


Cicatrizes de Belo MonteUm dos grandes dilemas da transição energética que o mundo atravessa para reduzir o consumo de combustíveis fósseis está relacionado com os projectos de energias renováveis, com a destruição de valores naturais para a exploração dos minerais da transição (como o lítio) e a construção de barragens ou grandes parques solares e eólicos.Natural de Altamira, às margens do rio Xingu, André Moura, do Movimento dos Atingidos por Barragens, fala sobre as promessas nunca cumpridas de compensações pela perda de terras dos povos tradicionais e ribeirinhos afectados pela construção da enorme hidroeléctrica de Belo Monte. A cidade de Altamira foi altamente pressionada por um crescimento substancial num curto período de cinco anos, sem condições para acolher todas as comunidades que foram relocalizadas.O colombiano Daniel Medellin, de 31 anos, estuda há oito meses na Universidade Federal do Pará em Altamira e também acredita que o “caos” da cidade “vem da bagunça gerada por Belo Monte”. “Famílias que há três ou quatro gerações que nascem na mesma casa, vizinhos que se separaram… Nesse processo de relocalização quebraram muitas relações culturais”, lamenta. “As pessoas falam que tem perturbado o seu bem-estar e o seu bem viver”, nota, referindo-se à filosofia indígena de buen vivir, que dá prioridade à vida em harmonia com a natureza e com a comunidade.Também alguns “resguardos indígenas” foram relocalizados, criando aldeias em outros lugares e quebrando “essa relação intercultural sociedade-natureza”. “É muito difícil de recuperar a mesma estabilidade cultural”, explica. “Não é o mesmo solo, há um equilíbrio que não existe mais.”Todas as lutasDaniel Medellin carrega consigo uma bandeira da Palestina. “É muito grande o valor de falar de Palestina na COP, onde se decide o futuro dos recursos naturais”, declara.Neste momento, as economias do Norte global parecem mais focadas no “mercado da guerra”, que é “dos mais poluentes do mundo”, alerta o estudante de mestrado em biodiversidade e conservação. Mas não é apenas pela dimensão ambiental que a luta do povo palestiniano é importante para o movimento ambientalista: “Quem luta pela justiça ambiental e não luta pela justiça social… como disse Chico Mendes, ecologia sem luta de classes é jardinagem.”O PÚBLICO viajou a convite da Agência para o Clima

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