<em>Outro Lear</em>: uma releitura contemporânea da tragédia de Shakespeare
Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
Entre o delírio e a lucidez, um rei sem trono revisita os escombros da própria mente. É com essa imagem que Outro Lear, criação do diretor Roni Sousa e interpretação de Humberto Pendrancini, reinventa a tragédia clássica de William Shakespeare numa chave contemporânea, poética e profundamente humana.O espetáculo integra a programação do Festival Política, em Loulé, onde será encenado nesta quinta-feira (23/10), às 21h30, e segue depois para Lisboa, com apresentação na Fábrica do Braço de Prata no domingo (26/10), às 19h.A história da peça parte da perda do poder, da razão e da identidade. Num cenário minimalista e denso, a montagem desloca o eixo da narrativa clássica para o homem por trás da coroa: um Lear despojado, contemporâneo, que se confronta com os próprios fantasmas num espaço suspenso entre a memória e a ruína.“O que nos interessa é o colapso, o político, o emocional, o humano”, explica Roni Sousa, mestre em Artes Cênicas pela Universidade Nova de Lisboa. Criador e diretor com trajetória marcada pela pesquisa de linguagens híbridas entre teatro, cinema e performance, Sousa conduz, na peça, um trabalho de depuração e escuta cênica, em que o gesto e o silêncio ganham o mesmo peso da palavra. “Em Outro Lear, o palco é também um espelho partido, onde se refletem as nossas fragilidades coletivas”, acrescenta.Colapso das certezasNo centro da cena está Humberto Pendrancini, referência do teatro brasiliense, que dá corpo e voz a esse rei reinventado. O ator transita entre a fragilidade e a fúria com rigor técnico e densidade emocional, conduzindo o público a um mergulho visceral no território onde poder e vulnerabilidade se confundem. “Lear é, hoje, qualquer um de nós diante do colapso das certezas”, observa. “É um corpo em ruína que ainda tenta compreender o mundo.”A montagem, que une força interpretativa e precisão estética, propõe uma reflexão sobre o envelhecimento, a perda de relevância e os limites da sanidade, temas universais que, no texto de Shakespeare, ganham agora ressonâncias do presente.Outro Lear não busca reconstruir a tragédia, mas deixá-la em aberto, fragmentada, inquieta, pulsante. O resultado é um espetáculo poético e visceral, que transforma o clássico numa experiência contemporânea de vulnerabilidade e resistência.
App PÚBLICO BrasilUma app para os brasileiros que buscam informação. Fique Ligado!










