CIÊNCIA

Casas para refugiados LGBTQ+ no Quénia estão “sobrelotadas” devido aos cortes na ajuda internacional

Terry Namalo, uma mulher trans ugandesa, deixou o campo de refugiados de Kakuma, no Quénia, em Setembro, “quando a fome se tornou insuportável”, e dirigiu-se para uma casa segura em Nairobi, juntando-se a dezenas de outros refugiados LGBTQ+ obrigados a sair devido aos cortes na ajuda internacional.“Este ano tem sido difícil para os refugiados no campo por causa da redução das rações alimentares”, disse a jovem de 25 anos. “Há refugiados que passam dias sem comer, e os que conseguem comprar algo têm de se contentar com uma refeição por dia.”Do Quénia ao Bangladesh, os refugiados têm visto as suas rações de comida diminuírem devido ao colapso do financiamento vindo dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. O presidente Donald Trump reduziu drasticamente o orçamento da ajuda externa e encerrou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) no início deste ano.Em Junho, o Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas anunciou a redução da ajuda alimentar e monetária em Kakuma, no campo de Dadaab e no assentamento de Kalobeyei para os níveis mais baixos de que há registo.Lucretia, coordenadora do grupo de defesa dos direitos LGBTQ Queers of Kakuma, conta que entre Junho e Outubro o grupo ajudou 200 refugiados queer vulneráveis a mudarem-se para casas seguras em Nairobi.“A crise alimentar no campo agravou a situação dos refugiados queer, que já eram vulneráveis. Estão a ser visados, atacados, e outros refugiados roubam-lhes a pouca comida que têm”, contou Lucretia, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome por razões de privacidade, à Fundação Thomson Reuters, em Nairobi.Agora, as casas seguras na capital estão perigosamente sobrelotadas.“O número de pessoas a sair de Kakuma é tão grande que as casas seguras existentes não conseguem dar resposta”, afirmou Craig Paris, director executivo da Coligação de Refugiados da África Oriental​ (RefCEA).“Não estamos apenas preocupados com a falta de comida, mas também com a pressão sobre os serviços de água, saneamento e higiene”, acrescentou, alertando para o risco de doenças como a cólera.Desde Junho, duas casas seguras em Nairobi receberam 300 pedidos de acolhimento de refugiados vindos de Kakuma, onde vivem cerca de 300 mil pessoas.“Os pedidos são esmagadores. A nossa casa segura só tem capacidade para 40 pessoas, mas neste momento estamos a alojar 96”, disse Gregory, responsável pela angariação de fundos no abrigo Kipepeo, que preferiu não revelar o apelido.Segundo explicou, tiveram de ajustar os planos de alimentação e de dormida para acomodar o excesso de pessoas. “De momento, só conseguimos oferecer jantar aos refugiados. Temos três pessoas a dormir num colchão e outras no chão, sem nada.”Rhoda, que se mudou de Kakuma para o Kipepeo, disse que é difícil obter produtos de higiene menstrual. “No nosso abrigo, os poucos produtos menstruais disponíveis não chegam para todas as mulheres. Temos alguns pensos higiénicos reutilizáveis que estamos a partilhar, o que é pouco higiénico”, lamentou.Medos relacionados com a segurançaAs organizações de refugiados queer sob a alçada da RefCEA lançaram uma campanha de angariação de fundos online para abrir um abrigo destinado a 50 homens trans e fornecer ajuda alimentar a refugiados queer em Nairobi e na cidade de Eldoret, no oeste do país.“Recebemos relatos de agressões sexuais dentro das casas seguras, e a maioria das vítimas, segundo os nossos registos, são homens trans”, disse Paris. “Queremos garantir-lhes um espaço verdadeiramente seguro.”A 28 de Setembro, a polícia invadiu um abrigo nos arredores da cidade após ter recebido queixas sobre o número de pessoas que entravam e saíam do recinto. Charity, administradora do abrigo que também pediu anonimato, afirmou que o local deixou de admitir novos refugiados após o incidente.Alguns refugiados nas casas seguras têm medo de sair à rua por receio de ataques. Outros, como Dennis Beto, não têm escolha.Beto, oriundo do Uganda, mudou-se de Kakuma para Nairobi no final de Setembro. Mas o abrigo onde está não tem condições para o alimentar, por isso trabalha num mercado próximo como carregador, ganhando 300 xelins quenianos por dia (cerca de 2,33 dólares), o suficiente para três refeições, disse.Muitos dos seus amigos nas casas seguras encontraram emprego em restaurantes, supermercados e barbearias, graças ao plano governamental Shirika, lançado em Março, que facilita o acesso dos refugiados ao mercado de trabalho.Lucretia, do Queers of Kakuma, afirmou que as casas seguras já enfrentavam dificuldades antes, pois dependem de organizações afectadas pelos cortes de financiamento impostos pela administração Trump.Mercy Juma, chefe de comunicação do PAM no Quénia, disse que a situação em Kakuma dificilmente mudará sem novas fontes de financiamento. “Sem financiamento adequado, a situação só irá piorar para os refugiados”, alertou.

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