CIÊNCIA

Anjo da noite

Quando aos oito anos me perguntaram o que queria ser, esperavam as respostas de sempre — bombeiro, polícia, astronauta — e eu, sem hesitar, disse que queria ser chulo, machista e putanheiro, os três ofícios em plena comunhão, como se recitasse uma oração antiga. O meu pai, coitado, tapou com a mão sapuda os dentes que se lhe escapavam de riso, e a minha mãe, num gesto de fúria ou de fé, ergueu o braço direito aos céus e deixou-o cair, seco, certeiro, um home run perfeito à minha fronha, embora nunca tivesse visto basebol na vida. A tacada bastou para me colocar fora dos limites da vocação. Não se falou mais do assunto. Nunca mais. E o meu desejo profissional foi ficando ali, enterrado no recalcamento, até aos quarenta, quando apareceu a Érica — que nome bonito, Érica — e eu, contei-lhe as minhas tormentas de divórcio a contragosto, e percebi que os papéis estavam trocados: que era ela quem precisava de um amigo que escutasse as aventuras da noite, nem sempre inocentes, nem sempre limpas, e que faziam dos meus sofrimentos um brinquedo ao pé da grande engrenagem da vida. Através da nossa amizade recuperei o desejo antigo, o da infância, e tornei-me mais do que um amigo, quase um pai, para ela e para outras raparigas solitárias, frágeis, de olhos cansados e sonhos turvos. Nunca tive más intenções, nunca. Quis apenas proteger aquelas raparigas de uma vida mais exposta ao risco, à violência, ao abuso. Senti nisso uma espécie de missão, uma vocação tardia, talvez religiosa, recompensada por uma ninharia pecuniária, claro — porque também eu preciso de comer — e um dia percebi que já não podia servir dois senhores, o dia e a noite, o trabalho e o chamamento, e escolhi, sem arrependimento, ser o que no fundo sempre fui: um anjo da noite.

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