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O preço de uma janela em Lisboa

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Acordou sensível a todos os ruídos e movimentos da casa. Tudo era sentido com precisão: o som das teclas marteladas pelos dedos do colega no quarto ao lado, que trabalhava remotamente em outro fuso horário, a voz estridente da namorada do companheiro de casa do quarto da frente, a outra companheira de casa, que tinha horários atípicos e entrava e saía aos rompantes, quando bem entendesse, e, por fim, a jovem intercambista do Erasmus, que acabara de fazer uma entrevista para integrar a casa e com quem, talvez, viesse a dividir o quarto em breve, para poupar uns trocados.Passou um filme em sua mente tentando fazer uma retrospectiva que ligasse os pontos entre o momento em que deixara o seu país e a sucessão de acontecimentos que a levavam ao limiar de estar a ponto de compartilhar não só mais a casa, mas, também, o quarto. E em troca de quê? De uma folga no orçamento que daria algum respiro para as suas necessidades. Mas sua privacidade não era também uma necessidade? Ou, na escala das outras necessidades, passou a ser negociável? Perdeu a prioridade?Chegou à casa por indicação dos amigos de alguém, não sabia bem de quem, afinal, hoje em dia, era raríssimo encontrar quartos livres no bairro. Antes, a vida não era assim… Quando chegou a Lisboa, com as economias que trazia do outro lado do Atlântico, ainda conseguia alugar um T1 com uma janela enorme que dava para ver o Tejo se confundir com o horizonte. Aos poucos, o senhorio foi reajustando os preços, até que a escolha de permanecer ali se tornou insustentável. Quando saiu de lá, a casa e a janela que a acolheram em sua chegada a Lisboa receberam de pronto um casal de alemães.O mesmo senhorio tinha mais apartamentos no mesmo edifício e, antes de partir, ainda via por lá alguns conterrâneos. Hoje em dia, perdeu o contato com todos da antiga vizinhança. Agora, quase todos os apartamentos do antigo senhorio foram alugados por holandeses e alemães.


Saiu de um T1 e foi morar provisoriamente num +1. Sabe, daqueles que anunciam como T1+1? Então, ela alugava o +1. Compartilhava a cozinha, mas tinha entrada independente, uma pequena janela em seu cômodo e um banheiro próprio. O bairro era bom e o apartamento ficava perto do metrô, então, por um tempo, valeu a escolha. Foi bom enquanto durou: os senhorios, um casal de aposentados que usava os arrendamentos para complementar a reforma, decidiram ajustar o preço.O novo valor não caberia em seu bolso, mas nem tentou negociar, já que, nesse ponto, não eram tão diferentes os dois lados do Atlântico: sabia que era apertado viver só com o dinheiro da aposentadoria, tanto por lá quanto por cá. No último ano, a região ficara mais valorizada com o aumento da procura por estrangeiros com maior poder de consumo, e o +1 passou a custar um pouco mais do que um T0.De novo, a mudançaPrecisou mudar de casa novamente. Aceitou que o preço de continuar a viver em Lisboa era abrir mão da autonomia de que desfrutara nos últimos anos. Chegara a hora de dividir a casa. Alugou um quarto numa casa com todos os espaços comuns compartilhados. O banheiro e a cozinha eram divididos por quatro pessoas. Para quem trabalhava fora e cedo, cabia uma atenção especial ao tempo de uso da casa de banho, para que um não atrasasse o outro.O seu quarto, com um janelão que a encantara desde a primeira visita, era arejado, tinha uma vista agradável e recebia o sol da manhã. Ser acordada com sol na pele, para ela, tinha um valor particular. O apartamento era bem localizado, perto do metrô. O preço do aluguel cabia no bolso, e os companheiros de casa estavam bem alinhados entre si e às regras do convívio. Todos esses astros alinhados ao mesmo tempo faziam de seu quarto um achado para os tempos atuais em Lisboa.Pensou que dividir casa com tanta gente lhe custaria mais, afinal, morara sozinha durante a maior parte da vida. Ainda assim, para a sua condição de imigrante, a sua configuração de moradia era um privilégio. Estava longe da precariedade das habitações hiperlotadas e dos sistemas de camas quentes, práticas que se tornaram recorrentes entre comunidades migrantes frente aos altos custos de moradia em Lisboa e adjacências.


Em sua configuração atual, a convivência não era um problema. Começou a ficar incomodada com as pequenas coisas, não pelos outros, mas pelas necessidades que, a cada ano, renegociava consigo mesma para fazer Lisboa caber no bolso.Desde que viera para Portugal, nunca recuperara o mesmo poder de consumo que tivera um dia do outro lado do Atlântico. Também estava longe de voltar a ter o mesmo capital social de antes. Apesar dos anos fora do país, ainda se sentia meio desarvorada, deslocada, “dentro e fora” dos dois lados do oceano. Patinava para caber cá, mas, também, já estranhava quando ia lá ter.Lisboa, um playgroundLisboa parecia o playground de uns e o lugar de sobrevivência de outros. Para quem trazia dinheiro de fora e tinha capital social na cidade, Lisboa era uma festa. Para quem dependia das economias pessoais e do ordenado mínimo português, a história já era outra, sem contar a dificuldade de entrar no mercado de trabalho português. Quando não era por causa de documentos, era por causa da língua. Língua!? Mas nós não falamos a mesma língua? E, se já era difícil para quem vinha da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), nem se comparava com a vida dos que nem falam português…Apesar disso, uma vez cá, como não se encantar por Portugal? O clima é bom, a gente é querida, o país é lindo, a cultura é rica e a comida dispensa comentários. Tantos Portugais para desbravar. Portugal não é só Lisboa, e é muito mais do que só paisagem.Dia desses, fazendo as contas, viu que pouparia quase 200 euros caso se mudasse para um quarto sem janelas, desses que só têm parede e, com sorte, uma brechinha para ventilação sobre a porta. Era um quarto pequeno, onde só cabiam um armário de duas portas e uma cama de solteiro.Quanto custa a sua janela? A dela custava uns 200 euros. E, agora, ponderava o que preferia: abrir mão da janela, economizar 200 euros e continuar a ter um quarto só seu, ou manter a janela e correr o risco de, além de dividir a casa, começar a dividir também o quarto, para gastar menos. Ganhar mais, no momento, não era uma opção elegível. O seu contexto só dava fôlego para cortar.Levou o assunto para a amiga de infância e escutou, não a resposta que queria, mas a que precisava: “Abrir mão das coisas que te fazem bem é o que você mais tem feito desde que foi morar em Portugal. Não desista da sua janela”. Por fim, a jovem do Erasmus acabou por não fechar o negócio e escolheu uma residência estudantil, dessas que já incluem tudo e que ficam perto do campus universitário. Os pais podiam pagar.Sem saber os próximos passos, fechou os olhos para o que não controla, bateu o pé e decidiu bancar os 200 euros da janela. Não era só o valor da janela. Era o valor de ainda ter uma vista, de ainda poder olhar para o horizonte, de ainda poder acordar com o toque dos raios do sol na pele. Era o valor do “ainda”.Por quanto tempo essa escolha “ainda” seria elegível, sustentável? Ao longo dos anos, já se despedira de outras escolhas que, com o tempo, se tornaram insustentáveis. Decidiu que, dessa escolha, se necessário fosse, preferia se despedir aos pouquinhos. Do amanhã, não sabia, mas só por hoje, a sua janela foi a sua aposta.
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