Países pobres precisam de 12 vezes mais ajuda para adaptação às alterações do clima
Por muitas promessas que os países mais ricos façam, o apoio que dão aos países em desenvolvimento para se adaptarem aos efeitos das alterações climáticas fica sempre muito aquém do que seria necessário. Em 2023, foi 12 a 14 vezes mais reduzido do que as necessidades das nações mais pobres e também mais vulneráveis às alterações climáticas, diz um novo relatório das Nações Unidas.A adaptação tem sido sempre o “parente pobre” da acção climática, em comparação com a mitigação, ou seja, redução das emissões de gases com efeito de estufa, que comporta projectos de lucro mais óbvio, como o investimento em projectos de energias renováveis. Já a adaptação pode passar pelo restauro de zonas húmidas, para proteger zonas costeiras de inundações e sequestrar carbono, desenvolver uma agricultura que utilize menos água, ou apostar em soluções baseadas na natureza, para fazer descer a temperatura nos meios urbanos, ou para captar a água quando chove em excesso, criando cidades esponja.Esse subfinanciamento continua, mostra o relatório deste ano sobre as Lacunas de Adaptação – conhecido pelo nome em inglês Adaptation Gap – do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP, na sigla em inglês), lançado nesta quarta-feira, em antecipação da conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, a COP30, que se realiza em Novembro, em Belém, no Brasil. Defende claramente a necessidade de aumentar o dinheiro canalizado para estas acções.Pacto de Glasgow fica por cumprirAté 2035, os países em desenvolvimento precisavam de 310 a 365 mil milhões de dólares (266 a 313,6 mil milhões de euros). Mas o dinheiro público que os países mais ricos realmente canalizaram para projectos de adaptação às alterações climáticas nas nações em foi apenas de 26 mil milhões de dólares (22 mil milhões de euros), contabiliza o relatório.Em 2023, o montante global foi menos dois mil milhões de dólares do que em 2022, apesar de o crescimento ter sido de cerca de 7% ao ano, entre 2019 e 2023. Mas isto fica abaixo do crescimento anual de 12% que seria necessário para cumprir o Pacto Climático de Glasgow, que previa aumentar o dinheiro disponibilizado para financiar a adaptação dos países em desenvolvimento entre 2019 e 2025, chegando a 40 mil milhões de dólares (34 mil milhões de euros) este ano. Esse objectivo “pode não ser atingido”, diz o UNEP.
5000
milhões de dólares anuais são canalizados pelo sector privado para a adaptação nos países mais pobres, mas este valor pode aumentar
A lacuna de financiamento anual para adaptação até 2030 anda entre 284 e 339 mil milhões de euros (244 mil milhões e 291 mil milhões de euros), diz o relatório.O valor com que as nações mais ricas se comprometeram na COP29, em Baku, no ano passado, foi de canalizar para os países mais vulneráveis 300 mil milhões de dólares anuais até 2035. Mas esta soma seria tanto para adaptação às alterações climáticas como para a mitigação (redução das emissões).Por outro lado, é preciso considerar a inflação nestas metas, salienta o UNEP. Se a taxa de inflação da década passada for prolongada até 2035 (de 3%), a estimativa da necessidade de financiamento anual para a acção climática nos países em desenvolvimento aumenta para 440 a 520 mil milhões de dólares.
Em Kingston, na Jamaica, antecipando a chegada do furacão Melissa
Octavio Jones/REUTERS
“Um impulso global”“Precisamos de um impulso global para aumentar o financiamento da adaptação – tanto de fontes públicas como privadas – sem fazer crescer o peso da dívida das nações mais vulneráveis”, disse Inger Andersen, directora executiva do UNEP.“A realidade é simples. Mesmo com orçamentos reduzidos e outras prioridades a competir pelos recursos financeiros, se não investirmos na adaptação [às alterações climáticas] agora, os custos vão escalar todos os anos”, alerta.Há estudos que estimam em 140 mil milhões de dólares (120 mil milhões de euros) por ano os prejuízos causados por fenómenos meteorológicos extremos relacionados com as alterações climáticas entre 2000 e 2019. E a previsão, diz o relatório, é que esses custos aumentem para 1,7 biliões (milhões de milhões) e 3,1 biliões de dólares por ano até 2050, à medida que aumenta a temperatura média global devido aos efeitos na atmosfera das emissões de gases com efeito de estufa.Isto porque quanto mais elevada for a temperatura média global, menos eficazes são as medidas de adaptação climática. Por exemplo, com um aquecimento de 1,5 graus, as medidas de adaptação relativas à água podem ser 90% eficazes. Mas se a temperatura média do planeta aumentar dois graus, a eficácia desde para 69%, e para apenas 46% se o aquecimento global chegar a quatro graus.
A realidade é simples. Se não investirmos na adaptação [às alterações climáticas] agora, os custos vão escalar todos os anos
Inger Andersen
E o sector privado?Os Estados continuam a ser os maiores financiadores dos planos de adaptação dos países mais vulneráveis, mas é preciso haver uma maior contribuição do sector privado, realça o relatório do UNEP. Apenas cinco mil milhões de dólares anuais são canalizados por empresas e outras entidades de direito privado para este fim. Mas, potencialmente, o financiamento privado representar muito mais, entre 15% e 20% das necessidades.Bancos multilaterais de desenvolvimento, como o Banco Mundial, são uma importante parte do financiamento público. Mas com uma ressalva: grande parte do financiamento internacional para projectos de adaptação passa por empréstimos, e 58% desses contratos contribuem para aumentar a dívida dos países em desenvolvimento, naquilo que o UNEP chama “armadilha do investimento na adaptação”.O Mapa de Baku a Belém, com o objectivo de conseguir canalizar 1,3 biliões de dólares até 2035 para as nações mais vulneráveis às alterações climáticas poderia ser a tão necessária grande reviravolta. Mas é preciso evitar aumentar o peso da dívida dos países mais pobres e vulneráveis, que torna difícil que invistam em adaptação, salienta o relatório.Outra fonte de financiamento de projectos são os fundos internacionais, como o Mecanismo Global para o Ambiente, o Fundo de Adaptação ou o Fundo Verde para o Clima. Aqui há uma boa notícia: o valor mobilizado aumentou para perto de 920 milhões de dólares em 2024. É um aumento de 86% em relação à média dos últimos anos, de 494 milhões de dólares, entre 2019 e 2023. “Mas isto pode ser apenas um pico, porque as restrições financeiras emergentes tornam o futuro incerto”, lê-se no relatório.










