Ouvida em tribunal, Fernanda Câncio referiu-se sempre a Sócrates como “esta pessoa”
Durou menos de uma hora o depoimento que a jornalista Fernanda Câncio prestou em tribunal, esta quarta-feira, na qualidade de antiga namorada do ex-primeiro-ministro José Sócrates, principal arguido da Operação Marquês — qualidade que, aliás, preferiu não assumir.Questionada, logo de início, pela juíza Susana Seca sobre se tinha tido uma relação amorosa com o antigo líder do PS, a jornalista foi peremptória: “Prefiro não responder.”“Mas era importante”, insistiu a magistrada, explicando que não se tratava de devassar a vida privada de ninguém, mas sim de chegar a conclusões em relação às suspeitas da prática de criminalidade económico-financeira que recaem sobre Sócrates e os restantes arguidos deste julgamento. Fernanda Câncio continuou, porém, a esquivar-se: “Nunca tive vida nem economia em comum com esta pessoa. Creio que isso é suficiente.”Ao longo da hora que duraram as suas declarações, foi a expressão que usou para se referir ao antigo chefe do Governo, com quem manteve um relacionamento intermitente entre o final do século passado e 2014: “Esta pessoa.” Como quando disse que o “relacionamento próximo com esta pessoa” não durou 12 ou 13 anos: “Não foi um período de convivência contínua.” De resto, algumas revistas cor-de-rosa seguiram de perto os desaguisados do par, rompimentos e reconciliações.Mas o que os magistrados do Campus da Justiça quiseram mesmo saber foi das viagens feitas pelo casal a Espanha, Itália e ao Algarve, e quem custeou alojamentos que, no caso do resort algarvio Pine Cliffs, não são comportáveis com o salário médio de um profissional da comunicação social. E Fernanda Câncio não teve pejo em assumir, como de resto já havia feito em anteriores fases deste processo, que, uma vez que era José Sócrates quem habitualmente a convidava para ir para fora, lhe cabia a ele custear viagens e hotéis: “Como era convidada por ele, partia do pressuposto que seria ele a pagar.”Em vários destes destinos, José Sócrates e Fernanda Câncio estiveram acompanhados pelo empresário e amigo do então primeiro-ministro Carlos Santos Silva, que o Ministério Público garante ter sido seu testa-de-ferro — ajudando-o a esconder os milhões que terá recebido de luvas pagas pelo banqueiro Ricardo Salgado e pelo grupo Lena —, e também pela respectiva mulher.Fernanda Câncio garante desde sempre nunca ter desconfiado que o dinheiro que José Sócrates usava com largueza tinha, a crer na tese do Ministério Público, origem criminosa. Mas desta vez o procurador que a inquiriu em tribunal também não insistiu nesse ponto, que a antiga namorada do primeiro-ministro tentou esclarecer num artigo que publicou, em 2016, na revista Visão, onde dizia: “Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Carlos Santos Silva e José Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável.”Dois anos mais tarde, havia de escrever outro artigo sobre o assunto no Diário de Notícias num tom bem mais agreste, acusando o principal arguido da Operação Marquês de ter mentido “ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos”. E mentiu tanto e tão bem, observava, “que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de carácter”.










