DAVID MELAR: arquitecto de livros

54David Melar nasceu em Toledo, Espanha, em 1980. Formado em Arquitectura, pela Universidade Politécnica de Madrid, chegou a Moçambique como voluntário, participando na construção de escolas, centros de saúde, maternidades e outros equipamentos de carácter social, num percurso iniciado no bairro de Muhalaze. Foi docente de Arquitectura na UCM, onde actualmente exerce funções como assessor da Reitoria para a Área de arquitectura, engenharia e projectos.Entre os seus trabalhos, destacam-se os projectos de reconstrução da Igreja de Macúti, da Escola da Catedral e da Escola de Artes e Ofícios, atingidas pelo ciclone Idai, bem como a ampliação da Faculdade de Ciências de Saúde, na cidade da Beira.Paralelamente à arquitectura, cultiva a escrita, alimentada pelo contacto com diferentes realidades humanas e culturais. É autor de “Latitud Todo Sur” (Espanha, 2006), “Fragmentos de Insónia Debaixo da Mobília” (Fundza, 2023) e “O Náufrago do Barco Engarrafado” (2026), tendo também participado em diversas antologias poéticas. Numa conversa a três vozes – com a cumplicidade de Luís Taiado – revisitámos a última aventura literária de David Melar Cuartero!Como é que um arquitecto espanhol acabou a lavar pratos em Londres e a sonhar com Moçambique? Um náufrago não decide onde naufragar. Como eu me afundava um pouco no inglês – o grande oceano por onde passam as possibilidades do século XXI – e queria sair dessa ilha em que me sentia quase mudo, meti-me noutra: Inglaterra. Para sobreviver, lavei loiça durante dez meses. Foi assim, com as mãos na água, que me ocorreu o título “O náufrago do barco engarrafado”, para um “blogue” onde comecei a lançar crónicas, artigos, ideias, poemas… como quem procurava estender um fio de comunicação até gente desconhecida. Escrevemos sempre para desconhecidos.Precisava do inglês para me devolver ao mundo, mas onde eu verdadeiramente queria naufragar era em Moçambique.O que procurava em Moçambique e o que encontrou que não estava à espera?Procurava viver uma verdade que fosse minha. Percebi muito cedo que a minha vida na Espanha não condizia com o mundo à minha volta nem com as pessoas que nele viviam. Ser náufrago é algo pessoal e intransferível. Procurava viver sem artifícios, mais humanamente. Viver mais com a terra e menos com o plástico. Procurava viver mais como pessoa sem adjectivos e menos como consumidor. Poderíamos dizer que procurava menos tudo e mais nada. Leia mais…

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