O que a inteligência artificial não pode ensinar sobre o coração

O maior risco da inteligência artificial não é substituir os seres humanos. É fazer com que os seres humanos comecem a agir como máquinas. Tive essa reflexão recentemente, depois de uma palestra sobre tecnologia.
Fui falar sobre inteligência artificial, seus avanços e suas possibilidades na medicina. Mas, ao final, percebi que a questão mais importante talvez não estivesse na tecnologia. Estava em nós mesmos.

A inteligência artificial consegue analisar milhões de dados em poucos segundos, reconhecer padrões, calcular probabilidades e encontrar respostasem uma velocidade impressionante. E isso já está transformando a medicina, inclusive a cardiologia. Mas há coisas que nenhuma máquina consegue fazer.
Uma inteligência artificial não tem valores. Não percebe verdadeiramente o que existe por trás de um sorriso. Não compreende o significado de um silêncio. Não sente compaixão, não perdoa, não encontra significado para a própria existência. Essas características podem parecer distantes de uma discussão sobre prevenção cardiovascular, mas talvez não sejam.

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A ciência tem produzido evidências de que a maneira como pensamos, sentimos e nos relacionamos com a vida pode ter alguma relação com a saúde do coração.
Um estudo publicado neste ano, utilizando dados do Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA), acompanhou 4.326 pessoas durante 19 anos. Nesse período, foram registrados 879 eventos cardiovasculares.
Os pesquisadores observaram que o otimismo atenuou a associação entre a desvantagem socioeconômica da vizinhança e a ocorrência de doenças cardiovasculares, enquanto a raiva pareceu amplificar esse risco. O efeito protetor associado ao otimismo foi ainda mais evidente entre participantes negros.

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É um resultado particularmente interessante porque nos lembra de algo que a cardiologia vem discutindo cada vez mais: a saúde não depende apenas de colesterol, pressão arterial, glicemia, alimentação ou atividade física. O lugar onde vivemos, as condições sociais e econômicas e as experiências que acumulamos também fazem parte da equação.
Mas a forma como enfrentamos essas circunstâncias talvez também importe. Otimismo não significa ignorar problemas ou acreditar que tudo dará certo, mas permite manter a possibilidade de que as coisas possam melhorar, mesmo diante das dificuldades. E isso parece ter relevância para o coração.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada no JAMA Network Open já havia encontrado associação entre otimismo e menor risco de eventos cardiovasculares. Foram analisados 15 estudos, envolvendo 229.391 participantes, com acompanhamento médio de 13,8 anos. No conjunto dos trabalhos, o otimismo esteve associado a um risco 35% menor de eventos cardiovasculares.

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Os próprios autores, entretanto, ressaltaram a necessidade de compreender melhor os mecanismos dessa associação e de estudar intervenções capazes de promover o otimismo.
Não significa que pensar positivo seja uma receita contra o infarto. Nem que emoções negativas, isoladamente, sejam responsáveis por uma doençacardiovascular. Significa que talvez estejamos diante de uma dimensão do cuidado que durante muito tempo ficou em segundo plano.

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E aqui entra a espiritualidade, não necessariamente no sentido religioso, mas como uma dimensão relacionada a propósito, significado, conexão, valores e à maneira como cada pessoa interpreta sua própria existência.
Isso é importante porque cuidar de uma doença cardiovascular não é apenas prescrever um medicamento. É fazer com que aquela pessoa compreenda por que precisa tomá-lo, encontre razões para mudar hábitos, enfrente as dificuldades e permaneça vinculada ao tratamento.
Uma máquina pode sugerir qual medicamento apresenta maior probabilidade de funcionar para determinado perfil de paciente. Mas ela não pode responder à pergunta mais humana de todas: por que vale a pena cuidar de mim?

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Quanto mais eficientes se tornam as ferramentas tecnológicas, mais precisamos preservar aquilo que não pode ser automatizado. Máquinas calculam. Humanos perdoam. Máquinas reconhecem padrões. Humanos encontram significado. Máquinas processam informações. Humanos estabelecem vínculos. Máquinas podem sugerir o tratamento. Humanos precisam encontrar motivos para segui-lo.
A tecnologia pode nos ajudar a compreender cada vez melhor o coração, identificar riscos antes que eles se manifestem, encontrar padrões que nossosolhos não conseguem perceber e auxiliar diagnósticos e decisões terapêuticas.
Mas existe uma consequência paradoxal desse avanço: quanto mais a tecnologia se aproxima daquilo que fazemos com dados, mais valor ganham aquelas características que nenhuma máquina possui, que é a humanidade na relação médico paciente. Precisaremos de algoritmos cada vez mais inteligentes e de seres humanos cada vez mais humanos.
*Diandro Marinho Mota é cardiologista e assessor científico da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) para Tecnologia e Inteligência Artificial aplicada à Cardiologia.

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