Ter câncer de intestino, ou câncer colorretal, antes dos 50 anos não está associado a melhores taxas de sobrevida do que ser diagnosticado com a doença depois dessa idade.
Em parte, isso acontece porque quem está nessa faixa etária frequentemente não é incluído nas recomendações habituais de rastreamento da condição, o que pode aumentar o risco de descobrir o tumor em estágio avançado. Mas esse não é o único motivo pelo qual a doença é considerada mais agressiva nesse público, aponta pesquisa recém publicada na revista científica Nature Medicine.
Segundo o estudo, diferenças biológicas nos tumores diagnosticados precocemente, ou seja, antes dos 50 anos, ajudam a explicar por que o câncer pode ter um tratamento desafiador entre os mais jovens.
Os pesquisadores analisaram 189 tumores de pacientes com idades entre 29 e mais de 90 anos. Desses, 54 deles receberam o diagnóstico antes dos 50 anos, e 135, a partir dessa idade.
Por meio de uma técnica chamada sequenciamento de RNA de núcleo único, os pesquisadores investigaram quais tipos de células estão presentes nos tumores e como elas se comportam.
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De maneira geral, eles observaram que tumores de pacientes jovens e mais velhos compartilham características importantes. Porém, algumas diferenças chamaram a atenção, principalmente na composição do microambiente tumoral, ou seja, no conjunto de células e estruturas que envolvem e interagem com as células cancerígenas.
Um dos principais achados foi a maior quantidade de estroma nos tumores de pacientes jovens. O estroma é formado por tecidos e células que dão sustentação ao tumor. Quando está aumentado ou sofre alterações, ele pode favorecer condições que ajudam o tumor a invadir outros tecidos e apresentar resistência aos tratamentos.
“O aumento do conteúdo estromal em relação ao conteúdo de células epiteliais foi uma característica notável dos tumores de câncer colorretal de pacientes jovens em nosso atlas e tem sido associado à resistência à quimioterapia em vários tumores sólidos”, escreveram os autores no estudo.
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De acordo com os pesquisadores, essa característica possivelmente contribui para a menor sobrevida nos pacientes diagnosticados antes dos 50 anos, apesar do aumento da intensidade da dose de tratamento.
O estudo também identificou maior atividade da chamada transição epitélio-mesenquimal (TEM) nos tumores de pacientes jovens. A TEM é um processo no qual células epiteliais, que normalmente apresentam características de organização e adesão umas às outras, passam a adquirir características de células mesenquimais, com maior capacidade de movimentação.
No câncer, esse processo pode facilitar a invasão dos tecidos vizinhos e contribuir para a disseminação da doença, a famosa metástase.
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Segundo os autores, a pesquisa fornece hipóteses para possíveis mecanismos que impulsionam o estágio avançado e a menor sobrevida em pacientes mais jovens, e podem ajudar a aprimorar as estratégias de prevenção e tratamento para esse grupo.
Ao mesmo tempo, eles destacam que o estudo não comprova que o aumento do estroma ou a atividade da TEM sejam responsáveis diretamente por esses desfechos. Os resultados são observacionais e precisam ser confirmados por novas pesquisas.
A incidência de câncer colorretal de início precoce está aumentando em todo o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados mencionados pelo estudo apontam que a incidência desse tipo de tumor antes dos 50 anos tem aumentado “a uma taxa alarmante” de 1 a 3% ao ano desde meados da década de 1990, e atualmente é a principal causa de morte por câncer em adultos de 18 a 49 anos.
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No Brasil, o câncer de cólon e reto é o terceiro tipo de câncer mais incidente. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta para 53.810 novos casos por ano no triênio de 2026 a 2028. Mais de 85% dos pacientes diagnosticados têm 50 anos ou mais, mas estudos recentes também mostram um crescimento dos diagnósticos em adultos jovens.
Os fatores de risco incluem consumo elevado de carnes vermelhas e processadas, baixa ingestão de fibras, sedentarismo, obesidade, consumo de álcool e tabagismo. Histórico de pólipos intestinais e presença de casos da doença na família também elevam o risco.
Além de mudanças no estilo de vida, a prevenção também envolve realizar exames preventivos. A colonoscopia é considerada o principal exame de rastreamento, pois permite identificar e remover pólipos antes que eles virem um câncer. Para pessoas sem histórico familiar, a recomendação atual é iniciar o rastreamento preventivo a partir dos 45 anos. Quem possui parentes de primeiro grau com a doença ou síndromes genéticas deve começar o rastreamento mais cedo.