Shalva: uma casa de inclusão e esperança

Aos 11 meses de vida, Yossi, filho do casal Kalman e Malik Samuels, foi aplicada uma vacina defeituosa que o deixou cego, mudo e hiperactivo, depois de ter nascido saudável. Nas suas orações diárias, Malik, sua mãe, fez uma promessa de que, caso Deus ajudasse o seu filho a comunicar, ela apoiaria outras famílias cujas crianças carecem de cuidados especiais.

Aos oito anos de vida, Yossi deu uma reviravolta milagrosa na sua condição: começou a comunicar através de sinais, ingressou na escola e tornou-se um brilhante estudante no seu meio. Porque quem promete deve, em 1990, o casal Samuels fundou a Shalva (Associação Israelita para Cuidados e Inclusão de Pessoas com Deficiência), uma instituição que apoia e cuida de pessoas com várias deficiências e respectivas famílias, desde a tenra idade até à fase adulta, de forma gratuita.

O projecto começou providenciando cuidados especiais a seis crianças, mas hoje atende cerca de duas mil pessoas por dia, entre crianças e adultos, das sete da manhã às seis da noite. Nenhuma família vai deixar os filhos na instituição: a Shalva é que vai buscá-los e devolve os seus educandos à porta de casa.

Na Shalva são atendidas pessoas que padecem de problemas cognitivos, autismo e síndromes.

A instituição funciona com um orçamento anual de cerca de USD 40 milhões e está instalada num edifício de 12 andares, que conta com espaços para formação, práticas desportivas e culturais.

Dispõe ainda de 35 apartamentos fora do edifício principal, para crianças e jovens especiais, que podem requisitar para passar uma temporada ou viver de forma permanente e autónoma em relação à família, desde que sejam maiores de 18 anos.

“Shalva é uma palavra hebraica que significa serenidade e é isso que tentamos fazer nestes 36 anos da nossa existência”, explica Samuel Kalman.

Avançou que, quando uma pessoa tem paixão e desejo de ajudar o próximo, nunca pode dizer que não pode fazer, sublinhando que a Shalva é um exemplo disso. Sem citar nomes, Kalman Samuels disse que há uma Organização da Sociedade Civil moçambicana, bem como entidades do Governo moçambicano, que já visitaram a Shalva para “beber” da experiência e estreitar laços para futuras parcerias.

O funcionamento da instituição conta com o apoio do Governo de Israel, que disponibiliza cerca de 45% do orçamento e concede um seguro para cada criança, sendo que os restantes resultam de donativos.

Fernando Bisker é um cidadão brasileiro que adoptou a nacionalidade israelita para garantir uma vaga para a sua filha, que nasceu especial, com síndrome de Down. Ter nacionalidade israelita é a base para aceder aos cuidados na Shalva, tendo em conta que só assim pode beneficiar do seguro disponibilizado pelo Estado local.

Hoje, Bisker e o seu outro filho, Gabriel, que não é especial, integram a extensa rede de voluntários da Shalva. Por serem falantes da língua portuguesa, conduziram a nossa visita ao centro.

“Eu entendo que é uma bênção para a minha família ter um filho especial, mas é difícil. Há momentos que a gente não gostaria de ter um filho especial”, desabafa, acrescentando que, em Israel, é crime grave abandonar uma criança especial e, justamente por isso, a taxa de abandono é zero.

Considera o centro um exemplo único de inclusão, onde os educandos recebem amor e carinho.

“Quando uma criança dessas é bem tratada, você está educando os jovens do país sobre como tratar uma pessoa diferente, como tratar uma pessoa que tem as suas limitações. Recebemos jovens voluntários de todos os cantos de Israel que vêm passar uma parte das actividades com as crianças especiais”, disse.

Bisker assinalou que é preciso deixar claro que as crianças especiais são crianças do bem, são crianças que vieram às nossas vidas como uma bênção e, mesmo que seja difícil para nós entendermos a dificuldade de um corpo limitado, conseguimos perceber que precisam da nossa ajuda.

A Shalva conta com um ambicioso projecto de construção de um edifício de 30 andares, onde será instalada uma Universidade voltada para a educação de pessoas especiais. Vai ainda contar com um Shopping Center voltado para a inclusão e um centro de emergência nacional, em caso de ataques armados que têm afectado aquele país na região do Médio Oriente.

“O centro de emergência nacional será dedicado a crianças especiais, sobretudo as que estão ligadas a máquinas de oxigénio ou cadeiras de rodas, porque, em caso de ataque armado, não há como correr para locais seguros. Temos 30 segundos para correr até ao bunker depois dos alarmes soarem”, explicou Bisker.

A banda Shalva, formada por jovens israelitas com diferentes deficiências, acolhidos naquela instituição, são um dos principais cartões-de-visita.

Criada em 2005, a Banda participou do festival Eurovisão da canção em 2019, mas acabou desistindo das semifinais do concurso em observância das crenças religiosas locais que estabelecem que não podem trabalhar, tocar ou fazer qualquer esforço durante a jornada sabática (shabat), que começa na sexta-feira ao cair da noite e prolonga-se até ao anoitecer de sábado. O grupo foi depois convidados para actuar no intervalo da segunda semifinal que decorreu após o shabat, mas conta com varias actuações na arena internacional. Por Argunaldo Nhampossa

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