O sorotipo C da meningite já não é mais o principal responsável pelos casos da doença no Brasil. Em 2025, o sorotipo B respondeu por 55% dos casos de doença meningocócica com identificação do sorogrupo no país. Entre os bebês menores de um ano, faixa etária mais vulnerável às formas graves da infecção, esse percentual chegou a 73% dos casos identificados.
Os dados são de uma nota técnica publicada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que atualiza o cenário epidemiológico da meningite no país e reúne as principais evidências científicas sobre a vacina contra a meningite do tipo B em bebês, reacendendo o debate sobre a inclusão do imunizante no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, ele está disponível somente na rede privada.
Em maio, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar a vacina meningocócica B recombinante (4CMenB) para crianças menores de 1 ano no SUS. Na época, o órgão afirmou que o produto não atende a critérios como capacidade de oferta a todo o público-alvo e um preço sustentável para a saúde pública.
Cada dose custa, em média, entre R$ 600 e R$ 750. O esquema inclui três aplicações no primeiro ano de vida, além de reforço, com valor total que pode ultrapassar R$ 2 mil. Hoje, o SUS oferece vacinas contra outros sorogrupos da bactéria, como o tipo C e o ACWY, mas o tipo B está fora da lista.
Para a pediatra Anna Bohn, membro da SBC, embora o custo da vacina seja alto em comparação com outros imunizantes disponíveis para a população, a alta taxa de letalidade da doença e os gastos com internação e tratamento de sequelas graves nas crianças sobreviventes são igualmente significativos para os cofres da rede pública.
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“Os pediatras estão levantando essa bandeira, porque a meningite é uma das doenças mais temidas na pediatria. Estamos falando de crianças que, em quase 100% dos casos, vão para a UTI. Duas em cada 10 morrem e, de cada cinco que sobrevivem, uma fica com sequelas graves. E, atualmente, 70% dos casos de meningite em menores de 1 ano são causadas pelo sorotipo B no Brasil, o que significa que o ideal seria vacinar justamente os bebês dessa faixa etária”, avalia a especialista em terapia intensiva pediátrica e desenvolvimento infantil.
A inclusão de uma vacina ao SUS envolve uma análise complexa que inclui critérios como eficácia, segurança, impacto epidemiológico, custo do imunizante, número de casos da doença, gravidade e capacidade de produção. “Não é uma discussão fácil, ainda mais em um país com dimensões continentais como o Brasil”, reconhece Bohn. “Mas essa discussão é importante para que a vacina seja incluída, se não todas as doses, pelo menos em algum momento do calendário nacional”.
VEJA procurou o Ministério da Saúde para saber se a pasta pretende reavaliar a incorporação do imunizante ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Em nota, o órgão reafirmou que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) decidiu pela não incorporação da tecnologia ao SUS neste momento, “considerando, entre outros fatores, o alto custo, a existência de um único fornecedor e a ausência de comprovação de impacto na imunidade de rebanho”.
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“O Ministério da Saúde segue monitorando o cenário epidemiológico da doença e novas tecnologias para prevenção e tratamento”, afirmou a pasta.
Em nota, a GSK, fabricante do imunizante, afirmou que manteve um diálogo transparente com o Departamento do PNI, apresentando propostas que incluíram significativas reduções de preço e modelos de sustentabilidade para viabilizar o acesso em larga escala ao sistema público de saúde.
O valor da vacina apresentado no Brasil, segundo a farmacêutica, é um dos menores praticados em todo o mundo pela empresa. “A GSK permanece comprometida em colaborar com as autoridades brasileiras para encontrar caminhos que equilibrem a sustentabilidade do sistema de saúde“, afirmou a companhia.
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Por que o sorotipo C se tornou prevalente no país?
A prevalência dos diferentes sorogrupos de meningococo, a bactéria que causa a meningite, varia em todo o mundo, em função do tempo e da utilização de vacinas.
No Brasil, após a introdução da vacina contra a meningite do tipo C no SUS, em 2010, houve uma redução importante na incidência dos casos associados a esse sorotipo. Segundo o Ministério da Saúde, a incidência de meningite do sorotipo C caiu 94%.
Com o objetivo de ampliar a abrangência da proteção, a partir de 2020 foi recomendada a substituição da vacina de meningococo C pela vacina ACWY conjugada, que protege contra quatro sorogrupos da bactéria causadora da doença.
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De acordo com a nota técnica da SBP, nos anos de 2018 e 2019, essa foi a distribuição de casos de meningite com identificação de sorogrupos:
Sorogrupo C: 52% dos casos;
Sorogrupo B: 35% dos casos;
Sorogrupos W e Y: 12% dos casos.
Já a partir de 2023, foi observado, pela primeira vez nas últimas décadas, o protagonismo do sorogrupo B, que assumiu a condição de principal sorogrupo causador de meningite no país, tendência que se manteve nos anos de 2024 e 2025. Em menores de 1 ano, os casos com identificação de sorogrupo registrados em 2025 foram de:
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Sorogrupo B: 73% dos casos;
Sorogrupo C: 15% dos casos;
Sorogrupos W e Y: 6% dos casos.
A mudança epidemiológica já era esperada. “Quando começa a haver um aumento de outros sorotipos e a vacinação não contempla esses sorotipos, a gente acaba, naturalmente, vendo um aumento progressivo dessas bactérias que não estão sendo contempladas, porque a população está protegida contra os demais sorotipos, mas não contra o sorotipo B”, explica Bohn.
Segundo o Ministério da Saúde, porém, não há um aumento generalizado da doença meningocócica. Em 2026, afirma a pasta, os casos de meningite causadas pelo sorogrupo B voltaram a cair. Foram 157 registros até junho, contra 171 no mesmo período de 2025, uma redução de 8,2%.
A nota técnica da SBP pondera, no entanto, que há uma subnotificação da doença no país. Segundo o documento, apenas 60% dos 1.149 casos notificados como meningite em 2025 tiveram identificação do sorogrupo, “deixando evidente a necessidade de melhoria em nossa infraestrutura laboratorial e assistencial”.
Em grandes capitais como São Paulo, quando uma criança chega ao hospital com sintomas de meningite, é feita uma coleta de sangue que será encaminhada para análise em laboratório. Se for identificada a bactéria que causa a doença, o hospital envia a amostra para um centro de referência, como o Adolfo Lutz na capital paulista, que realiza a sorotipagem. É justamente esse teste que descobre de qual sorogrupo aquele microrganismo faz parte.
O processo é importante para gerar dados epidemiológicos robustos sobre a prevalência de uma doença no país, mas não acontece em todos os hospitais, analisa Bohn. “A subnotificação de dados, que é um problema nacional, impede que a gente enxergue a real dimensão do problema e, consequentemente, tenha informações mais completas para tomar decisões como a inclusão de uma vacina à rede pública”, diz.
Como é a vacina contra meningite do tipo B?
A vacina meningocócica B (4CMenB) já é utilizada por mais de uma década no mundo. A nota técnica da SBP cita múltiplos estudos observacionais de larga escala em diferentes países que demonstraram reduções significativas na incidência da meningite do tipo B em bebês menores de 1 ano.
Um dos exemplos mencionados é o programa nacional da Inglaterra, implementado em 2015 com esquema de duas doses primárias (2 e 4 meses) mais reforço aos 12 meses, que demonstrou redução de 75% na incidência de doença meningocócica B no público elegível para vacinação durante os primeiros 3 anos do programa.
Já na Austrália do Sul, após 2 anos de implementação do programa infantil, houve uma queda de 60% na incidência de doença meningocócica B em lactentes de 12 semanas a 11 meses.
As estimativas de efetividade da vacina em bebês variam conforme o esquema e número de doses:
Duas doses primárias (sem reforço): 52,7% na Inglaterra;
Esquema completo (duas primárias + reforço): 59,1% na Inglaterra;
Esquema completo (duas primárias + reforço); 98,5% na Austrália do Sul;
Em crianças menores de 24 meses: 88% na Espanha.
Ainda segundo a nota técnica, a vacina tem um perfil de segurança aceitável em lactentes, com eventos adversos geralmente leves e transitórios, como irritabilidade, fadiga, choro persistente e febre. “A evidência acumulada de mundo real é sólida, consistente em diferentes continentes e confirma o valor da intervenção”, argumenta a SBP.
Surtos de meningite no Brasil
Durante o período recente de predomínio do sorogrupo B, o documento aponta que foram registrados surtos de meningite na região metropolitana de Maceió, Alagoas e em Belém do Pará.
Em nota, o Ministério da Saúde disse a VEJA que, como forma de prevenção, o SUS oferece gratuitamente vacinas eficazes contra os principais tipos de meningite bacteriana, como a meningocócica C para crianças, a meningocócica ACWY para adolescentes, além das vacinas pneumocócica e pentavalente, que também contribuem para a prevenção da doença.
“No caso do sorogrupo B, é ofertada quimioprofilaxia com antibióticos aos contatos próximos das pessoas diagnosticadas com a doença. Essa estratégia foi aplicada com sucesso durante um surto da doença no município de Inocência (MS), em julho. Depois da aplicação da quimioprofilaxia, não foram registrados novos casos da doença na região“, informou a pasta.
Entre os sinais mais comuns da meningite estão febre, dor de cabeça intensa, rigidez na nuca, náuseas, vômitos, sensibilidade à luz e alteração do estado mental, como confusão, sonolência excessiva ou dificuldade para despertar. Em bebês, os sinais podem ser menos específicos, como irritabilidade, recusa alimentar, choro persistente, sonolência, vômitos e abaulamento da moleira, que é quando essa parte da cabeça fica estufada.
Em casos graves, a doença pode evoluir para convulsões e choque séptico, com queda da pressão arterial e comprometimento de órgãos, podendo levar à morte. “A orientação é levar o bebê ou a criança ao hospital o mais rápido possível, e, para quem puder, vale a pena recorrer à rede privada para imunizar os filhos”, sugere Bohn.