De orgasmo a vídeo pornô: neurocientista demole os maiores mitos e equívocos sobre sexo

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Em seu livro “Cérebro, Sexo e Amor”, a neurocientista Aurore Malet-Karas desmistifica mitos populares e tabus sobre sexualidade. Em entrevista à VEJA, ela aborda a ciência por trás do sexo, discute orgasmos, o papel da pornografia e como a nova geração lida com a intimidade, incentivando uma compreensão mais informada.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Há muita ciência por trás do sexo. Embora remeta a fortes paixões e emoções, é possível administrar boas doses de razão quando se fala naquele que é um dos assuntos que mais seduzem e mobilizam a humanidade. E, com um manancial de pesquisas na área, vale a pena ganhar intimidade com novas ideias, descobertas e consensos a respeito – e desmontar teses ainda populares que não se sustentam sob a mira dos estudos.
Essa é a proposta da psicóloga e sexóloga francesa Aurore Malet-Karas em seu livro Cérebro, Sexo e Amor, recém-lançado pela Editora Contexto. Doutora em neurociências, ela abre as portas para o tema investigando seus aspectos biológicos, psíquicos e comportamentais. Nesse percurso, que nos conecta com outras espécies mas também com novos hábitos – como a onipresença do universo digital -, derruba mitos e tabus que não só fomentam equívocos na opinião pública como perpetuam preconceitos e violências simbólicas e reais.

Cérebro, Sexo e Amor, de Aurore Malet-Karas, tradução de Alcebiades Diniz Miguel, Editora Contexto, 240 páginas (Capa: Contexto/Reprodução)

A VEJA, a especialista esclarece alguns dos aspectos mais quentes e controversos do mundo do sexo hoje. Com a palavra, Aurore Malet-Karas.

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Em seu livro, você desmistifica vários mitos sobre sexo. Na sua opinião, qual é o maior equívoco sobre o assunto que as pessoas insistem em repetir? Essa é uma pergunta muito importante, e não creio que exista apenas um único “maior” equívoco. Na verdade, estruturei meu livro com base em todos os equívocos que ouvi na mídia e nas ideias falsas que as pessoas traziam ao meu consultório depois de dez anos de prática clínica. Poderíamos começar com definições básicas do que é sexo na biologia, informando também ao público que, na verdade, muitas espécies possuem mais de dois sexos, ou que não é incomum ocorrerem mudanças de sexo no reino animal. Esse equívoco, que parece algo muito específico, tem, na verdade, grandes implicações políticas e não deve ser ignorado.
Nesse sentido, você faz questão de falar de orgasmo também. Sim, existe uma grande confusão sobre o que é — e o que não é — o orgasmo. Como detalhei no livro, a experiência do orgasmo baseia-se em um reflexo chamado  reflexo orgástico, que consiste na contração dos músculos do períneo. Esse reflexo pode ser desencadeado pela estimulação da genitália (clitóris ou pênis), mas nem sempre está associado ao prazer, ao desejo… e certamente não depende de consentimento! É muito importante esclarecer essa questão, pois muitas vítimas de estupro vivenciam o reflexo orgástico e sentem uma culpa enorme por causa disso. Muitos profissionais, aliás, desconhecem essa distinção, o que gera ainda mais discriminação contra as vítimas.

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Nem os espermatozoides escapam de sua mira? Talvez o maior mito hoje seja o de que o espermatozoide, mais rápido e forte, é quem faz todo trabalho na fecundação. Já sabemos há bastante tempo que o corpo feminino e oócito (óvulo) é quem desempenha a maior parte do papel na escolha do espermatozoide certo.
Qual é a queixa sexual mais comum em seu consultório hoje? Em minha prática clínica, especializei-me em ajudar vítimas de violência sexual e doméstica. Portanto, lido muito com a reconstrução do prazer, tanto o sexual quanto o não sexual. Também me especializo em formas alternativas de sexualidade, como poliamor e fetichismo, e questões da população LGBT+. No entanto, também recebo demandas mais convencionais, como de casais que perderam a intimidade após terem filhos, por exemplo.

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Mas a procura aumentou? A demanda por sexologia aumentou recentemente devido a vários fatores: as redes sociais colocam muita ênfase na sexualidade, na orientação sexual, no gênero e em todos os tópicos relacionados. Isso leva mais pessoas a se aventurarem a explorar o erotismo e também a falar sobre o assunto. Um segundo fator, também decorrente da internet, é o uso de pornografia. Essa prática tornou-se algo comum e, embora muitas pessoas consigam consumi-la com moderação, um número crescente de pessoas procura sexólogos por causa da pornografia. Há pessoas que a consomem em excesso, outras cujo consumo precoce moldou sua forma de vivenciar o erotismo e aquelas que até consomem moderadamente, mas sentem muita culpa em relação a isso.
No livro, você mostra como a ciência ajuda a superar diversos preconceitos relacionados a gênero e sexo. Que outros avanços são necessários nesse sentido? Muito obrigada pela pergunta! De fato, a ciência já respondeu a muitas questões, mas temos dificuldade em disseminar esse conhecimento. Em primeiro lugar: o gênero vem sendo investigado cientificamente há quase um século, então temos dados mais do que suficientes para estabelecer sua importância e, no entanto, o assunto continua sendo debatido. Isso é bastante lamentável. Do meu ponto de vista, eu gostaria de ver mais pesquisas que façam a ponte entre gênero e neurociência: no meu livro, falo sobre o trabalho notável de Frans de Waal, um primatólogo que descobriu — entre outras coisas — que primatas também exibem comportamentos associados a gênero, bem como animais que se comportavam de acordo com um gênero oposto ao seu sexo biológico.

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Há alguma área de pesquisa a ser incentivada? O tema dos feromônios também é pouco explorado e ainda está muito focado em pesquisas sobre feromônios sexuais. No entanto, agora sabemos — ao contrário do que se pensava anteriormente — que os seres humanos podem ser receptivos a feromônios, como explico no livro. Felizmente, ainda há muito a aprender!
Temos observado um aumento nos números de vício em pornografia. Por que isso é tão preocupante? O uso inadequado da pornografia é bastante preocupante porque cada vez mais crianças iniciam sua vivência da sexualidade por meio dela. É importante acrescentar que, nesse contexto, assistir a pornografia muitas vezes surge entre elas como uma brincadeira e, infelizmente, pode impactar profundamente suas concepções sobre sexualidade e  os relacionamentos — e, em alguns casos, sobre papéis de gênero e representações estereotipadas das mulheres. Por serem filmes, na maioria das vezes não refletem nem de longe as relações sexuais da vida real. Isso cria um abismo crescente entre fantasia e realidade, aprisionando os usuários em uma desconexão com o outro corpo e com o outro ser humano. Além disso, para os mais jovens, ela proporciona uma recompensa imediata que dispensa o aprendizado longo e trabalhoso de habilidades sexuais e relacionais.

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As pessoas criam dependência desses conteúdos? Um problema observado é que, às vezes, não se trata exatamente de um vício, mas apenas de um uso inadequado: muitas pessoas utilizam a pornografia como forma de aliviar o estresse. Assim, aprendem a associar a pornografia — e, por vezes, a própria sexualidade — ao alívio da tensão. Isso gera inúmeras consequências: elas deixam de enfrentar a situação causadora do estresse inicial e continuam evitando o problema, o que gera ainda mais estresse. Podem acabar reproduzindo esse comportamento com o parceiro, perdendo de vista a conexão humana durante os momentos de intimidade. Muitas pesquisas confirmaram o que observamos na prática clínica: as pessoas sentem culpa por assistir pornografia, mesmo sem apresentar um comportamento de dependência. Esse sofrimento pode levar a problemas reais de saúde mental que precisam ser tratados. E é pro isso que é fundamental incentivá-las a buscar a ajuda e terapia.
Alguns levantamentos sugerem que a nova geração está fazendo menos sexo — pelo menos sob uma perspectiva tradicional. Qual é a sua análise sobre essa questão? De fato, muitos estudos ao redor do mundo estão confirmando uma tendência identificada por um jornalista da revista americana The Atlantic em 2017: os jovens estão fazendo cada vez menos sexo. Uma pesquisa nacional recente na França também confirmou isso. Em todos os casos, as causas eram semelhantes: primeiramente, o uso de conexões digitais pode oferecer substitutos mais fáceis do que um relacionamento real. É mais rápido e eficiente consumir pornografia ou trocar mensagens do que sair, encontrar alguém, namorar e correr o risco de não dar certo. Embora pareça preguiça, isso também pode ser bastante saudável, pois tal distanciamento, na verdade, alivia parte da pressão associada ao namoro. Outra causa muito clara é, na verdade, uma boa notícia: o consentimento é cada vez mais compreendido e respeitado. As mulheres agora deixaram de se forçar a situações indesejadas, e os homens as ouvem mais. Isso também leva a outras formas de sexualidade, menos baseadas na penetração e mais na exploração, no prazer ou no erotismo. Portanto, no geral, não é nada ruim, e estamos aguardando para ver como essa geração continuará a se desenvolver.

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