SAÚDE E BEM ESTAR

Canetas emagrecedoras: quantos quilos é possível perder com elas e quando é hora de ajustar ou suspender?

Essas são, hoje, as duas perguntas mais frequentes no meu consultório. “Doutor, quantos quilos eu vou perder?“. E, poucos meses depois, quando o resultado já apareceu: “Posso parar agora?”. São perguntas legítimas, mas que raramente têm uma resposta em número fechado — e um documento recém-publicado por três importantes sociedades europeias de obesidade (EASO, EFAD e ECPO) ajuda a explicar por quê.
Nos estudos clínicos, a semaglutida na dose de 2,4 mg promoveu perda média de até 14,8% do peso corporal em relação ao placebo; a tirzepatida, na dose máxima de 15 mg, chegou a 20,8%. São números expressivos, próximos aos obtidos com cirurgia bariátrica. Mas médias escondem uma variabilidade enorme entre pacientes: o mecanismo de ação — redução da ingestão calórica em cerca de 300 kcal por dia, em média — não afeta todo mundo da mesma forma, e uma parcela dos pacientes perde bem menos do que a média dos estudos.

Por isso, a meta de peso não deveria ser definida apenas pelo número que aparece na bula do medicamento, e sim de forma individualizada: qualpercentual de perda é necessário para melhorar a comorbidade daquele paciente específico — pressão arterial, apneia do sono, glicemia, dor articular?
Às vezes, 10% já resolve o problema clínico; em outros casos, é preciso mais. Definir essa meta junto com o paciente, antes de iniciar o tratamento, evita tanto a frustração de quem esperava emagrecer mais quanto o risco oposto: perder peso além do necessário, à custa de massa magra.

O que o acompanhamento nutricional e o exercício mudam nessa equação
Isso me leva a um ponto central do documento: a perda de peso rápida não distingue gordura de músculo. Sem intervenção, uma parte relevante do peso perdido é massa magra — o que compromete força, função física e o próprio metabolismo a longo prazo. Por isso, o consenso recomenda ingestão proteica adequada e exercício resistido progressivo como parte do tratamento, não como recomendação opcional.

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Na prática, isso significa acompanhamento nutricional estruturado, especialmente em pacientes com maior risco: idosos, pessoas com baixaingestão alimentar prévia, perda de peso muito rápida ou sinais de deficiência de micronutrientes. O documento propõe um modelo escalonado: pacientes de baixo risco, com boa tolerância e trajetória esperada, podem ser acompanhados pela equipe multidisciplinar de forma rotineira; já os de maior complexidade devem ser encaminhados a um nutricionista para terapia nutricional individualizada, com avaliação periódica da composição corporal quando indicada. Esse acompanhamento também é o que permite ajustar a meta de peso ao longo do tratamento, em vez de persegui-la de forma rígida.
A parte psicológica que pouca gente discute
Há uma dimensão do tratamento que considero tão importante quanto a nutricional, e que costuma passar despercebida: a psicológica. As terapiasbaseadas em incretinas — hormônios produzidos naturalmente pelo intestino que ajudam a controlar a fome, a saciedade e os níveis de açúcar no sangue — atuam sobre as vias de recompensa relacionadas à comida, o que explica por que muitos pacientes relatam alívio do chamado “ruído alimentar”, aqueles pensamentos repetitivos sobre comida que ocupavam a mente ao longo do dia.
Só que essa mudança tem um custo emocional para alguns. Assim como acontece após a cirurgia bariátrica, quando a via de recompensa alimentar éatenuada, parte dos pacientes perde — junto com o apetite — estratégias de enfrentamento emocional às quais recorria havia anos. Em grupos focaiscitados no consenso, pacientes relataram sensação de perda da própria identidade, mesmo diante do sucesso da perda de peso.

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Por isso, o documento recomenda triagem psicológica e suporte estruturado quando necessário, e não apenas celebração do número na balança. Um paciente que emagrece rápido, mas fica mais isolado socialmente ou desenvolve relação disfuncional com a comida, não está tendo um bom desfecho — mesmo que o peso esteja “certo”.
Quando suspender o tratamento
Aqui não existe uma resposta universal segundo o consenso, e devo ser honesto sobre isso com meus pacientes. A decisão de manter, reduzir a dose,pausar temporariamente ou interromper definitivamente o medicamento deve ser compartilhada entre médico e paciente, pesando os riscos físicos epsicológicos de tratar contra os de não tratar.
Alguns critérios que uso para essa conversa: a meta clínica combinada no início foi atingida? A comorbidade que motivou o tratamento está controlada? A massa magra e a função física foram preservadas? Há efeitos adversos gastrointestinais persistentes que comprometem a qualidade de vida? O paciente está em condições nutricionais e psicológicas de manter os hábitos construídos sem o medicamento?

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Um dado que considero essencial compartilhar antes mesmo de começar o tratamento: a interrupção costuma vir acompanhada de reganho de pesoclinicamente significativo. Isso não é fracasso do paciente. É a obesidade se comportando como o que ela é: uma doença crônica e recidivante, que reage à retirada do tratamento como qualquer outra condição crônica reagiria. Por isso, “suspender” nem sempre significa parar de vez — muitas vezes significa reduzir a dose para uma faixa de manutenção, ou pausar temporariamente diante de um evento específico (cirurgia, gestação planejada, efeito adverso a investigar), com plano claro de reavaliação.
O que realmente importa
Se eu pudesse resumir a mensagem do consenso europeu em uma frase, seria esta: o sucesso do tratamento com incretinas não se mede só pelo ponteiro da balança, mas por um conjunto — peso adequado à comorbidade do paciente, massa muscular preservada, função física mantida, relação saudável com a comida, saúde mental estável e um plano definido para o momento em que o tratamento precisar ser ajustado ou pausado.
A pergunta certa, portanto, não é “quantos quilos vou perder” nem “quando posso parar”, isoladamente. É: “qual é a minha meta clínica, e o queprecisamos construir — nutricional e emocionalmente — para sustentá-la, com ou sem a caneta?”. Essa é a conversa que médico, nutricionista e paciente deveriam ter juntos, desde a primeira consulta.

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