BP terceiriza hemodiálise à DaVita; pacientes relatam falhas na transição
A Beneficência Portuguesa de São Paulo entregou à DaVita a execução da hemodiálise ambulatorial, serviço que operava havia décadas e apresentava como referência de qualidade. A mudança ocorreu em 1º de julho e transferiu à terceirizada o fornecimento da equipe especializada, dos equipamentos e dos insumos necessários às sessões. A BP manteve a clínica, as licenças, o corpo médico e a responsabilidade pela jornada dos pacientes. Desde então, porém, pacientes ouvidos pela reportagem relatam desorganização, falhas de higiene e profissionais com dificuldade para operar equipamentos. Em reuniões gravadas, a própria gestão reconheceu “oportunidades de melhoria”, discutiu diferenças entre os protocolos das empresas e anunciou a incorporação de trabalhadores mais experientes.
O contrato amplia a presença da DaVita, uma das maiores redes de diálise do país, dentro de um dos principais hospitais privados de São Paulo. A transição ganhou contornos ainda mais sensíveis após a morte de uma paciente, episódio que abalou o grupo atendido no local. BP e DaVita não negaram o óbito, mas, alegando sigilo médico, não informaram suas circunstâncias; não há elementos que permitam relacioná-lo ao serviço prestado. As empresas também não divulgaram o valor e o prazo do contrato, o processo de escolha da terceirizada nem a redução de custos esperada. A BP afirmou que a parceria segue sua estratégia de contratar empresas especializadas para determinadas atividades assistenciais e de apoio.
A DaVita é o braço brasileiro da companhia americana DaVita Inc., com ações negociadas na Bolsa de Nova York e receita global de US$ 3,4 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026. No Brasil, segundo a própria empresa, a rede atende cerca de 28 mil pacientes, emprega 8 mil pessoas e possui mais de 125 unidades em 19 estados e no Distrito Federal, além de prestar serviços a mais de 300 hospitais. A companhia ampliou fortemente sua presença no país com a compra de clínicas e contratos de diálise da Fresenius, parte de um pacote regional de aquisições avaliado em US$ 300 milhões que consolidou a DaVita como a maior prestadora de serviços de diálise da América Latina.
A expansão colocou a companhia sob vigilância reforçada do Cade. Ao analisar a compra dos ativos da Fresenius e da Brasnefro, o órgão identificou elevada concentração em mercados locais de diálise crônica, inclusive em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, João Pessoa e Distrito Federal. A operação foi aprovada em abril de 2025, mas a DaVita teve de aceitar a venda de clínicas e contratos, a proibição temporária de novas aquisições no segmento em São Paulo e no Rio e a obrigação de comunicar ao Cade, durante cinco anos, operações realizadas no Brasil mesmo quando inferiores aos limites usuais de faturamento.
A decisão de contratar da DaVita ocorre depois de a BP fechar 2025 com receita de aproximadamente R$ 2,47 bilhões, EBITDA de R$ 153,5 milhões e déficit líquido de R$ 84,7 milhões. A instituição vem destacando iniciativas de eficiência operacional, mas não afirmou que a terceirização da hemodiálise tenha sido motivada por economia de despesas.
Na prática, o acordo estabeleceu uma divisão de responsabilidades. A DaVita fornece profissionais, máquinas e materiais e atua na operação ambulatorial. A BP conserva o controle institucional, a estrutura assistencial, os credenciamentos e a supervisão do serviço. A hemodiálise de pacientes internados continua sendo realizada integralmente pelo hospital.
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Pacientes relatam falhas na transição
Quatro pacientes ouvidos pela reportagem, identificados por iniciais fictícias para preservar suas identidades, relatam que a transição foi marcada por desorganização, profissionais com dificuldade para operar equipamentos e problemas em procedimentos de rotina. As declarações foram apresentadas à BP e à DaVita, mas as empresas não responderam individualmente aos episódios.
A.R., que faz tratamento na BP há vários anos, afirma ter visto seringas e gazes usadas deixadas sobre a bandeja destinada ao lanche. Também relata agulhas e luvas no chão, dificuldades na punção de fístulas e demora na administração de medicamentos. Segundo ela, pacientes chegaram a orientar profissionais sobre o funcionamento das máquinas.
C.M., com mais de uma década de experiência em hemodiálise, descreveu uma sessão na qual profissionais teriam demonstrado dificuldade para retirar ar do sistema e operar a bomba de heparina. O paciente afirma que apresentou dores no peito e na cabeça e que houve coagulação do circuito.
L.F. disse que seu próprio atendimento foi realizado por uma profissional experiente, mas descreveu o primeiro dia da transição como tumultuado. Segundo a paciente, houve dificuldades na identificação e acomodação de pessoas e insegurança diante da composição da nova equipe. “Nunca vi uma mudança tão mal planejada e tão mal executada”, afirmou outra paciente ouvida pela reportagem.
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Reuniões expõem ajustes após o início da operação
Anotações de uma reunião realizada em 18 de junho, produzidas por um dos participantes e sem assinatura da BP, registram que a nova equipe começaria a frequentar o salão nas duas semanas anteriores à mudança. Segundo o documento, representantes do hospital teriam assegurado que a equipe receberia acesso ao histórico clínico, seria treinada nos sistemas e códigos de emergência e manteria o padrão de atendimento. O registro também menciona a futura transferência à DaVita de atividades como farmácia, nutrição, psicologia, limpeza, enxoval e fornecimento de refeições.
Em reunião gravada em 9 de julho, oito dias depois do início do contrato, uma representante da gestão afirmou que a transição vinha sendo preparada havia mais de 90 dias, com treinamentos presenciais e on-line. Na mesma conversa, porém, reconheceu que o primeiro dia da operação apresentou “várias oportunidades de melhoria” e que a preparação poderia ter sido conduzida de maneira mais visível e próxima dos pacientes.
A gravação mostra ainda a administração discutindo diferenças entre processos adotados pela BP e pela DaVita, inclusive na operação da bomba de heparina, e a necessidade de alinhar protocolos. A gestão tratou os problemas como uma “lição aprendida”, informou que profissionais mais experientes seriam incorporados às escalas e disse que o apoio de trabalhadores da BP seria mantido enquanto a operação não estivesse segura. Também foi reconhecido que a principal ruptura provocada pela transição ocorreu na confiança e na percepção de segurança dos pacientes.
Morte amplia insegurança entre pacientes
O episódio mais sensível foi a morte de uma paciente depois de uma intercorrência e de seu encaminhamento ao pronto-socorro, segundo os relatos. T.S., que a conhecia havia anos, afirma ter presenciado apenas parte da movimentação para atendê-la e diz que a paciente tinha histórico de quedas de pressão. Não há, até o momento, informação documental sobre a causa da morte nem elementos que permitam relacioná-la ao atendimento da DaVita. O caso, porém, chocou os pacientes e ampliou a insegurança em torno da transição.
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A morte foi comunicada à administração durante uma conversa gravada em 14 de julho, na qual um paciente afirmou que a mulher havia falecido naquela manhã e que seu pai providenciava o enterro. Representantes da gestão não contestaram a informação e disseram que a área de qualidade examinaria a jornada assistencial e prestaria esclarecimentos à família. A gravação não contém informações sobre a causa da morte nem qualquer admissão de falha por parte da BP ou da DaVita.
Empresas defendem planejamento da transição
Questionadas, BP e DaVita não negaram a ocorrência da morte, mas disseram que, por sigilo médico e respeito à família, não comentam casos individuais. Também não informaram quantas reclamações, intercorrências ou transferências ao pronto-socorro foram registradas desde o início do contrato.
A BP sustenta que a transição foi planejada e gradual, com integração das equipes, instalação de novos equipamentos, treinamentos e alinhamento de protocolos. Disse ainda que as manifestações recebidas estão sendo tratadas individualmente e que acompanha permanentemente o serviço. A DaVita afirmou manter protocolos baseados em evidências científicas e monitoramento contínuo dos indicadores clínicos.
As gravações confirmam que houve planejamento e treinamento antes da mudança, como sustentam as empresas. Mostram, contudo, que, já com o serviço em funcionamento, a gestão ainda ajustava protocolos, revia a composição das equipes, incorporava profissionais mais experientes e mantinha trabalhadores da BP como retaguarda para estabilizar a operação.
A DaVita também declarou que o acordo é uma prestação de serviços, sem aquisição de ativos, transferência de pacientes ou mudança de controle. Por isso, entende que o contrato não precisa ser notificado ao Cade e não contraria as restrições impostas pelo órgão na aquisição da Brasnefro e de ativos da Fresenius. A operação, portanto, não muda formalmente o controle da clínica, mas coloca sob responsabilidade da DaVita os recursos humanos, as máquinas e os insumos que sustentam seu funcionamento cotidiano.










