South32 vende activos e deixa Mozal em banho-maria
A multinacional australiana South32 anunciou, esta quarta-feira, a venda dos seus activos na cadeia de fabrico de alumínio na Austrália, no Brasil e na vizinha África do Sul à norte-americana Alcoa, no valor de USD 5,6 mil milhões. A venda de activos exclui a Mozal, na qual a South32 é a maior accionista, com 63,7%.
Recorde-se que a mega fundição de alumínio está encerrada desde Março do presente ano, por falta de um acordo para o fornecimento de energia entre o governo, a Eskom e a South32. No entanto, o presidente da República, Daniel Chapo, disse esta quarta-feira que o seu governo ainda está a trabalhar na busca de uma solução sustentável para a Mozal e que esta poderá um dia retomar as suas actividades.
Enquanto isso, o futuro da mega fundição de alumínio Mozal continua incerto, quatro meses após o seu encerramento, encontrando-se neste momento em regime de manutenção e preservação.
Venda a norte-americanos
A South32, que detêm 63,7% das acções da Mozal, maior accionista, anunciou um acordo condicional vinculativo para a venda dos seus activos da cadeia de valor de alumínio para a norte americana, Alcoa, por cerca de USD 5,6 mil milhões. A Alcoa é uma das três maiores empresas mundiais de fundição de alumínio. A empresa foi fundada em 1886 na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania. Encerrou 2025 com cerca de 14.900 trabalhadores e uma facturação anual de USD 12,83 mil milhões.
Segundo uma nota a que o SAVANA teve acesso, com o acordo, a Alcoa adquire participações da South32 na Worsley Alumina, correspondentes a 86%. A Worsley Alumina é uma das maiores operações integradas de mineração de bauxite e refinação de alumina do mundo, localizada na Austrália. A operação garante ainda 100% da sul-africana Hillside Aluminium, bem como a Mina de Bauxite Mineração Rio do Norte (MRN), com 33%, uma operação sujeita a direitos de preferência. Adquire ainda a refinaria Brazil Alumina (36%) e a fundição Brazil Aluminium (40%), sujeitas ao cumprimento de condições. A South32 espera concluir este acordo até ao segundo semestre de 2027.
No entanto, a nota explica que a participação da South32 na Mozal Aluminium (63,7%) “não faz parte desta transação”, agudizando desta forma mais incertezas quanto ao futuro da multinacional, que opera em Beleluane, distrito de Boane, província de Maputo.
Para a imprensa sul-africana, a aquisição dos activos da Hillside é um sinal de confiança dos investidores naquele mercado, sublinhando que o acordo também elimina o problema de negociar um novo acordo de energia para a fundição, baseada na cidade portuária de Richards Bay, na província de KwaZulu-Natal, África do Sul, que expira por volta de 2031. O negócio envolve igualmente a fundição vizinha Bayside, que está inactiva desde 2014, depois que a escassez de energia e o aumento dos preços da eletricidade na África do Sul prejudicaram sua competitividade.
No entanto, há um sentimento de que a Hillside é claramente uma peça-chave da transacção. Emprega tecnologia semelhante à de duas das outras 11 fundições das operações mundiais da Alcoa, tornando-a um ajuste relativamente fácil no portfólio da empresa.
O papel da Hillside nesta cadeia de produção global, de acordo com a imprensa daquele país, continua a ser uma peça central da posição da África do Sul como um gigante industrial no continente – para melhor ou pior, dependendo da sua visão sobre operações intensivas em energia numa economia que permanece fortemente dependente do carvão.
A Hillside beneficia de um desconto de cerca de 50% no preço da energia por parte da Eskom, facto que tem levantado vários questionamentos, uma vez que famílias e empresas, incluindo do sector da mineração, reclamam dos custos crescentes da energia.
A fundição de alumínio da Hillside é o maior cliente privado da Eskom e representa cerca de 5% da sua procura, consumindo mais energia do que o Malawi.
Para além da South32, a Mozal é detida pela Corporação de Desenvolvimento Industrial da África do Sul (IDC), com 32,4%, e pelo governo moçambicano, com 3,9%.
A australiana justifica a venda dos seus activos alegando o reposicionamento da empresa para se focar em metais básicos (como cobre e zinco), upstream de alta margem e longa vida útil, o que poderá permitir um maior crescimento. Acrescenta que a mudança poderá criar oportunidades para simplificar o modelo operacional da empresa, permitindo a redução da complexidade e uma maior eficiência.
Para além da venda de activos, a South32 anunciou mudanças na sua direcção, sendo que as funções de CEO passam a ser assumidas por Matt Daley, em substituição de Graham Kerr, que deixou o cargo a 30 de Junho último. No entanto, Kerr deverá continuar como consultor estratégico para apoiar os compromissos relacionados com o acordo de venda de activos da cadeia de valor de alumínio da South32.
Matt Daley entrou na South32 em Fevereiro do presente ano como vice-CEO, tendo supervisionado as operações da firma na Austrália e África. Em mensagem de boas-vindas, a presidente da South32, Stephen Pearce, disse que “ele traz ampla experiência operacional e de liderança, inclusive em cobre e nas américas e é um executivo altamente talentoso. Ele já demonstrou um estilo de liderança pensativo e engajado e um forte compromisso com nosso pessoal e operações – com um foco claro na segurança”, lê-se numa nota no site da instituição.
IDC avalia posição
A imprensa sul-africana avança igualmente que a IDC, que detém uma participação de 32,4% na Mozal, está a avaliar as suas opções em relação ao projecto. A instituição lançou um concurso público internacional para contratar um consultor técnico que ajude na tomada da melhor decisão relativa ao projecto de Beluluane.
Entre as propostas avançadas está a aquisição dos 63,7% detidos pela South32, que esta semana anunciou a venda dos seus activos em projectos da cadeia de valor do alumínio na Austrália, Brasil e África do Sul. É neste contexto que a IDC não fecha a porta a uma possível compra dos activos da South32 na Mozal. Contudo, a IDC assinala que há vários factores que devem ser ponderados para que as operações sejam sustentáveis a longo prazo, tendo em conta que o preço da energia constitui o principal estrangulamento.
A segunda opção passa por viabilizar uma estrutura accionista alternativa, que pode incluir o estabelecimento de parcerias com outras partes interessadas. Outra possibilidade seria a reconfiguração da estrutura accionista, que pode passar pela alienação de toda ou parte da sua participação na Mozal.
Mozal vai voltar um dia
No encerramento da visita de quatro dias à província de Cabo Delgado, o presidente da República, Daniel Chapo, disse que o governo continua em negociações para a retoma da Mozal. Afirmou que, do trabalho que está a ser feito, é possível encontrar uma solução que permita à Mozal retomar as suas actividades a qualquer altura. Explicou que a tarifa de energia continua a ser um grande desafio. “Continuamos a trabalhar para que haja retoma da Mozal e temos a certeza de que um dia vamos encontrar a solução e a Mozal será retomada”, disse Chapo.
Ao que o SAVANA apurou, o governo moçambicano tem estado a procurar potenciais investidores capazes de reiniciar a fundição, sob um modelo de negócios sustentável de longo prazo.










