‘Falhei em ser um bom filho’: o que estamos dizendo aos nossos jovens?
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O texto aborda o suicídio de estudantes universitários diante de processos disciplinares, levantando a questão do excesso punitivo das instituições. A autora reflete sobre a importância da autoeficácia (capacidade de recuperação) para os jovens enfrentarem adversidades, num contraponto à crescente ênfase na vulnerabilidade.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Recentemente, li uma série de reportagens sobre o suicídio de estudantes universitários americanos diante da informação de que enfrentariam investigações ou processos disciplinares nas instituições de ensino. São histórias devastadoras.
Em um dos casos, um aluno de medicina de 23 anos passou a ser investigado após denúncia de uma paciente de ele ter feito perguntas inadequadas sobre sua vida afetiva durante uma consulta ginecológica e tentado se conectar com ela no Instagram logo depois do atendimento. Horas após receber um e-mail do hospital-escola de Texas informando sobre a denúncia e descrevendo possíveis medidas disciplinares, o rapaz tirou a própria vida – ainda vestindo seu jaleco médico. Deixou uma carta para seus pais “Fracassei. Falhei em ser um bom filho”.
Em outra situação, uma estudante-atleta de elite de Stanford , Katie Meyer, envolveu-se em uma discussão com um colega, perdeu a cabeça e acabou jogando café nele. Pouco depois de ser comunicada sobre a abertura de um processo disciplinar, também se suicidou. Esse caso levou à aprovação de uma lei na Califórnia que obriga as universidades a disponibilizarem um orientador designado aos estudantes durante processos disciplinares.
O foco das reportagens era analisar o que os autores consideram um possível excesso punitivo das universidades. As matérias descrevem ainda outros episódios envolvendo investigações relacionadas a festas promovidas por fraternidades estudantis — organizações sociais tradicionais dos campi americanos, muitas vezes associadas a consumo excessivo de álcool, trotes e outros comportamentos de risco — além de situações consideradas inadequadas pelas instituições.
As famílias dos dois jovens processam atualmente o hospital-escola e a universidade, argumentando que os procedimentos foram conduzidos de maneira inadequada e que a pressão exercida sobre estudantes altamente exigentes consigo mesmos causou as tragédias. O pai do estudante de medicina disse, sobre o filho: “Ele viu o mundo entrar em colapso na sua frente. Mas quando precisou de ajuda, ninguém estava presente”.
Os tribunais provavelmente passarão anos analisando documentos, protocolos e decisões. As universidades devem revisar seus protocolos. Mas, enquanto lia essas histórias, fiquei pensando em outra questão: o que estamos dizendo aos nossos jovens sobre sua capacidade de enfrentar a vida?
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A pergunta pode soar insensível. Vivemos um momento em que, felizmente, levamos sofrimento psíquico muito mais a sério do que no passado. Sabemos que transtornos mentais como depressão, ansiedade, e sintomas como burnout e angústia são condições reais, potencialmente graves, que merecem cuidado e, frequentemente, tratamento. Ao mesmo tempo, me parece que perdemos a capacidade de encarar duas ideias que não apenas são compatíveis, mas deveriam caminhar juntas: reconhecer o sofrimento e acreditar na nossa capacidade de enfrentá-lo.
Depois de algumas décadas de vida, é impossível não ter atravessado — ou testemunhado de perto — situações que pareciam absolutamente insuportáveis. Divórcios, rejeições devastadoras, falências, demissões, doenças graves, lutos, acusações injustas, episódios de humilhação pública, fracassos profissionais.
Quando estamos mergulhados numa situação dessas, é comum acreditar que não existe saída. Mas, na maior parte das vezes, existe. Nem sempre a saída que imaginávamos ou queríamos. Nem sempre rapidamente. Mas existe.
É comum pessoas jovens não terem sido muito a expostas a fracassos e dores. Estão ainda desenvolvendo maneiras de lidar com as derrotas. Talvez por isso uma das mensagens mais importantes que recebi dos meus pais tenha permanecido comigo durante todos esses anos: “a única coisa que não tem solução é a morte”.
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Não era uma forma de minimizar problemas. Era uma forma de colocá-los em perspectiva. Havia angústia, às vezes muita angústia. Havia noites sem dormir, medo, vergonha, desespero. Mas também havia caminhos que ainda não podiam ser vistos, alternativas que ainda não tinham sido consideradas, recomeços que ainda não pareciam possíveis.
Tenho me perguntado se essa perspectiva não está se tornando mais rara. Não porque os jovens de hoje sejam mais fracos. Essa conclusão seria simplista e injusta. Mas porque talvez estejamos vivendo uma mudança cultural mais sutil: passamos a falar muito sobre vulnerabilidade e cada vez menos sobre capacidade de recuperação.
A psicologia possui um conceito útil para pensar essa questão: a autoeficácia, desenvolvida pelo psicólogo Albert Bandura. Em termos simples, trata-se da convicção de que somos capazes de lidar com desafios, resolver problemas e continuar funcionando mesmo quando a vida sai dos trilhos.
Essa confiança não nasce de discursos motivacionais, nem de mensagens de autoestima. Ela é construída ao longo dos anos, por meio da experiência. Surge quando enfrentamos dificuldades reais e descobrimos que sobrevivemos a elas. Quando observamos outras pessoas superando adversidades. Quando somos encorajados a tentar novamente, após fracassos. Quando aprendemos a tolerar ansiedade, medo e frustração sem concluir imediatamente que estamos diante de uma catástrofe.
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Em outras palavras, a autoeficácia não é a crença de que nada de ruim acontecerá. É a crença de que, mesmo quando algo ruim acontecer, seremos capazes de encontrar uma maneira de seguir adiante. Nossa autoeficácia estará presente se tentarmos resolver um problema, estará presente no quanto de esforço despenderemos e por quanto tempo persistiremos diante de fracassos e contratempos.
Essa confiança impede a mente de transformar uma crise em uma sentença de derrota definitiva. Ela funciona como um contrapeso em relação a pensamentos que todos nós, em maior ou menor grau, podemos ter em momentos de sofrimento intenso: “não vou suportar isso”, “minha vida acabou”, “não existe saída”.
(Vejam esse recente exemplo no esporte: a sensacional vitória nos últimos 5 segundos de jogo do time de basquete New York Knicks no jogo 4 do campeonato final norte-americano depois de ficarem quase 30 pontos atrás do time adversário – vale a pena assistir para quem perdeu).
Atendendo na clínica, observando jovens e lendo histórias como essas, me pergunto se não estamos transmitindo uma mensagem contraditória às novas gerações. Afirmamos acreditar em sua inteligência, criatividade e capacidade de transformar o mundo. Mas, ao mesmo tempo, frequentemente agimos como se fossem demasiado frágeis para suportar contrariedades importantes, imperfeições, erros e decepções.
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Talvez os jovens estejam acreditando demais em nós. E ouvindo, nas entrelinhas, que alguns erros são imperdoáveis, que certas vergonhas são permanentes e que determinados fracassos encerram possibilidades. Eu preferiria que ouvissem outra mensagem. A de que a vida adulta inevitavelmente inclui equívocos, rejeições, humilhações, arrependimentos, e momentos em que tudo parece perdido.
Mas inclui também revisões, reparações, segundas chances, mudanças de rumo e soluções que não conseguimos enxergar quando estamos tomados pelo medo. Preferiria que desenvolvessem a capacidade de lembrar, nos momentos em que tudo parece desmoronar, que o sofrimento distorce a visão. Que o desespero é um estado emocional, não uma previsão do futuro. E que quase todos os problemas da vida — mesmo os mais dolorosos — admitem algum tipo de solução, reparação ou recomeço.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_










